Até que ponto a chegada da modernidade pode abafar o preconceito?
Sim, infelizmente Downton Abbey é uma série muito curta – eu diria curtíssima até demais – o que nos torna nostálgicos e tristes ao pensar que estamos na reta final desta excelente temporada. O roteiro continua entrelaçando as histórias de forma coerente, tendo o extremo cuidado em não deixar pontas soltas – apenas aquelas necessárias para atiçar nossa curiosidade.
Começo falando sobre o tema mais importante do episódio – o racismo. Rose resolveu fazer uma surpresa para todos em Downton – mas como nunca consegue fazer nada sem se favorecer também – convidou a banda de jazz para se agarrar pelos cantos com Mr. Ross. Até aí estaria tudo muito bem, já que todos conhecem os devaneios da menina – o problema é o homem ser negro. Sim, pois se o racismo continua sendo um tema abordado até hoje, imagina no início do Século XX, onde a escravidão ainda estava encrostada na cabeça de quase todos? A aceitação da modernidade nunca foi suficiente para derrubar um preconceito. E agora, o que Lady Mary vai fazer? Não posso acreditar que isto acabe bem. E também não posso acreditar que este tipo de preconceito ainda exista no mundo de hoje. Mas não podemos fugir da verdade, ele existe e ainda é muito forte. Quando o ser humano vai entender que a felicidade é um direito de todos, independente de qualquer coisa?
Agora vamos para a sempre efervescente cozinha de Downton. Quando todos pensavam que Alfred não teria mais nenhuma chance de trabalhar no Ritz, ele foi merecidamente chamado – deixando Daisey arrasada, mesmo que sua atitude ao se despedir do amado tenha sido muito fofa. E quando Ivy descobre que Jimmy não passa de um aproveitador e oportunista de quinta categoria, Daisey aproveita para pisotear na coleguinha – alguém acha que isto pode acabar bem?
Já a misteriosa relação de Thomas com a tal Baxter ficou ainda mais estranha, pois ele a controla. Afinal, qual poder ele tem sobre esta mulher? E a pergunta que não calar continua sem uma resposta. Qual afinal é o objetivo de Thomas com sua “operação espionagem”? Esta história promete esquentar bastante nesta reta final da série.
E Anna com Mr. Bates? Era óbvio que este relacionamento não continuaria igual depois do estupro. Mas será que estão indo pelo caminho certo? Pois mesmo que estejam tentando esquecer suas aflições, as pontas permanecem desalinhadas percorrendo o perigoso caminho da culpa – e será que o amor vencerá esta batalha? Aliás, excelente abordagem de Mr. Fellowes para o preconceito nem um pouco velado dos lugares frequentados pela alta sociedade com pessoas de classe social inferior – o que, infelizmente, continua igualzinho até hoje, quase 100 anos depois.
E Molesley? Finalmente caiu na real e entendeu o significado de uma oferta de emprego quando se está mergulhado na lama. Foi muito divertido ver Carson pisoteando em cima de nosso lacaio preferido – deu até uma peninha dele. E claro que Mrs. Hughes não deixaria o coitadinho desistir tão fácil e deu sua cartada de mestre. Sério, servir o chá dos empregados? Carson não poderia lutar contra esta artimanha. Genial.
E o caso do rapazinho Pegg? Coitadinho do menino, mas entendo porque Violet tenha acreditado que ele era um ladrão. Mais uma vez os diálogos entre Violet e Isobel foram carregados de humor negro e foi muito engraçado ver a cara de Isobel quando percebeu que sua “rival” tinha recontratado Pegg. Momento adorável do episódio. E afinal, Tom vai ou não embora? Espero que não fiquem de “mimi” em cima desta história, agora que Isobel parece estar tentando convencê-lo a ficar. Tom começou a temporada um pouco chato demais e agora o roteiro está dando uma nova chance ao personagem – por favor, não nos torturem novamente.
E Lady Mary? Como já é de praxe, a série sempre aborda os mais diversos assuntos históricos pertinentes da época – e foi no começo do Século XX que a aristocracia inglesa entrou em decadência. Nada mais justo que colocar este assunto na roda através de Lady Mary, supostamente, uma mulher no poder. Durante o século XIX, o conservadorismo britânico se desenvolve como o partido da aristocracia tradicional, em volta de temas como a desconfiança em relação à democracia e uma certa nostalgia pela Inglaterra pré-industrial. No entanto, nas primeiras décadas do século XX se moderniza, adaptando os princípios democráticos e passando a ter a defesa do “Império” como grande bandeira, contra a desconfiança dos liberais perante a expansão colonial. Desta forma, foi concedido o direito de voto aos operários urbanos, tentando dar um caráter social ao conservadorismo e torná-lo uma aliança entre a aristocracia e as classes populares. E este assunto é introduzido através de Mr. Charles Blake e suas ideias contra o favorecimento dos latifundiários – ateando fogo em Downton. Com certeza, podemos esperar ainda muitas farpas trocadas entre Charles e Mary.
E Edith grávida? Sem muita criatividade, o roteiro se apega no velho clichê “mulher solteira fica grávida” em uma época onde isto era um pecado abominável. Gosto de Edith e torço para que seja feliz – portanto, cansei de tantas desgraças. Será que ela simplesmente não pode ter uma chance?
Mas enfim, Dowton Abbey continua surpreendendo. E apesar de uma enorme tristeza por estarmos na reta final da série, mantemos muito viva a esperança de um grand finale digno da ótima temporada construída até aqui!
PS. Afinal, que confusão Tio Harold se meteu? Com certeza é algo bem complicado e irá agitar bastante a família…
PS. Foi hilário a cara de pavor do esnobe do restaurante quando Cora lhe disse para resolver o problema com a mesa da Anna… bem feito…
PS. A cena mais fofa do episódio – Isobel, Tom e Mary falando de como se sentiam em relação aos seus grandes amores. E sim, Isobel está corretíssima, sortudos são aqueles que encontram um grande amor – mesmo que alguma coisa aconteça no meio do caminho…
PS. Será que Gregson morreu mesmo? Não posso acreditar…
PS. Uma coisa é inegável nesta temporada, Robert não é mais o centro das atenções de Downton…
PS. Diálogo de nossa maravilhosa Violet com Isobel:
Isobel: “Como você odeia estar errada”.
Violet: “Eu não saberia. Não estou familiarizada com a sensação”.















