Eu não acredito que TGW tenha sido moldada desde o princípio para chegar a este ponto, mas a grandiosidade de Hitting the Fan deixa isso mais difícil.

Simplesmente porque Hitting the Fan teve os quarenta e três minutos mais impressionantes da televisão em 2013 e não, isso não é um exagero. Eu o revi várias vezes e eu não consigo chegar a uma única conclusão ou a uma única opinião. Cada momento me faz sentir alguma coisa que me faz lembrar outra que faz com que me sinta diferente. A única conclusão a qual eu consigo chegar é a de que eu não consigo tomar as dores de ninguém ao mesmo tempo que quero tomar as dores de todos.

O momento em que Will descobriria sobre a debandada (traição) de Alicia era ansiado desde o fim da temporada passada e ele veio seguido de um confronto árduo. Josh Charles conseguiu comover com olhares, com sua falta de palavras, com flashbacks, culminando naquela explosão de mágoa, ressentimento, ódio, tristeza e dor. Mas Will logo se recompôs e partiu para o ataque e aí foi a vez de Alicia desmoronar no elevador, nos lembrando de Kalinda na segunda temporada quando também caiu no choro depois de Alicia confrontá-la sobre seu caso com Peter. Lembramos também de todos os momentos vividos e compartilhados por Alicia e Will em elevadores, impossível não “give a damn”.

Alicia também logo se recompôs e sua artilharia para cima da antiga firma veio com toda força, com um animosidade que me surpreendeu . Não há inocentes nessa guerra, mas começamos suspeitar que Will estava certo quando disse que ela não se dava conta de quão horrível estava sendo. Para se proteger, Alicia vestiu a sua face mais racional enquanto que Will simplesmente não conseguia separar a razão da emoção e quando ele a confronta, ele esperava respostas. Alicia passara os quatro primeiros episódios dizendo que precisava sentar e conversar com ele e talvez aquele tivesse sido o momento ideal.

Quando Alicia precisa se proteger, além de recorrer ao seu lado mais racional, ela também recorre ao status que ser esposa de Peter lhe dá. Ela destila ódio aos antigos colegas de trabalho (para não dizer amigos) pelo fato de eles explorarem os quartanistas e receber todo o crédito, mas fica feliz com atitude aética do marido para beneficiá-la, chegando ainda a recompensá-la, e não enxerga o quão perigoso isso pode ser tanto para ela. Ela termina de se sujar completamente ao sugerir que a Florrick/Agos represente Lemond Bishop, e ainda bem que temos Cary e sua “clareza moral”, mesmo que nublada pelo seu rancor pela Lockhart/Gardner e sua mentora.

Em contraparte, a reação e o lado de Will são mais palatáveis levando em conta seus sentimentos feridos e sua necessidade de proteger sua firma. Afinal, mesmo com todos os motivos do mundo, Cary está agindo nas costas da L/G há três meses e convenhamos que esta não é a maneira mais correta de começar seu próprio negócio. A própria Alicia comentou que não concordava com isso quando ainda não fazia parte da empreitada. Assim como Will, que teve o início de sua carreira manchado pelos quarenta mil dólares que roubou, o começo da F/A voltará para morder Alicia e Cary no futuro, tenho certeza. E, enquanto Will se mostrou, atencioso com o passeio de Grace e vulnerável na conversa com Kalinda, Alicia se mostrou cada vez mais torpe. Por mais que eu adore que ela é cheia de falhas, talvez tenha faltado mais, digamos, sensibilidade em Alicia ao lidar com esses primeiros confrontos.

Alicia vive terminando com Will,  terminando algo que sempre existiu, mas nunca se assumiu, diga-se de passagem. Já vimos isso acontecer várias vezes, mas dessa vez ela escolheu a pior forma de terminar, e, digo mais, dessa vez Will também terminou com ela. E apesar de, digamos, consensual, não foi, nem de longe, um fim amigável, passaram de amigos/amantes para inimigos… e a guerra só começou.

Antes de finalizar, quero um momento para falar de Diane. Diane que ainda estava com a roupa com a qual casou. Diane que não compartilhou com ninguém este fato. Diane que estava decepcionada com seu pupilo preterido, Cary. Diane que já vinha de um desgaste de um embate com seu parceiro traído, Will. Diane que estava acuada, receosa de perder a oportunidade de ser juíza, mas também querendo lutar ou, pelo menos, ser justa por sua firma. O episódio foi cheio de momentos tristes, tensos e até engraçados, mas eu fiquei particularmente sensibilizada quando Peter deixa claro que Diane não está mais no páreo para a magistratura. Diane não merecia isso. Alguns textos atrás, eu disse o quanto eu admirava Diane por ela querer tudo e lutar para consegui-las com todas as suas forças e como foi triste vê-la aqui sem perspectiva alguma, vendo seu futuro escorrer por entre os seus dedos por ela ter decidido fazer o certo ao contar da debandada de Alicia para Will.

Mas, no decorrer do episódio, Diane passou a agir de forma a permitir que seus planos permanecessem seguros em meio a tudo o que desmoronava, o que incluiu acariciar tanto Alicia quanto Will e por isso eu destaco a nobreza na atitude de Kalinda, justamente a personagem que não se afilia a ninguém. Sua lealdade sempre seguiu o dinheiro mas agora ela se aliou a Will, na minha opinião, não por ter sido preterida por Cary ou por estar magoada com Alicia por não ter sido incluída por ela em sua nova empreitada, mas por ela ter percebido que sua amizade com Alicia nunca mais será a mesma e o que acontecera há dois anos foi um caminho sem volta e enxergar em Will o único amigo que lhe resta, já que ela também afastou Cary dela por não conseguir lidar com os sentimentos dele por ela.

Em quarenta e três minutos, The Good Wife reorganizou a maneira como enxergamos cada personagem num episódio que não desacelerou um instante nem para tomarmos fôlego. A sensação que fica é que não temos ideia do que esperar, não sabemos para quem torcer e estamos loucos para assistir às próximas batalhas. Pode ser que toda a série até agora não tenha sido moldada para culminar neste episódio, mas ele conseguiu fazer referência a vários momentos da série enquanto cumpria sua meta de atingir em cheio os telespectadores (o título Hitting the Fan não foi a toa) e, de quebra, ser um dos melhores episódios da televisão na atualidade.

Mais alguns detalhes:

– O mais maravilhoso do episódio foi ver várias pessoas inteligentes se enfrentando e tentando ser mais inteligente que os outros. Tirando Peter, que consegue ser a pessoa mais burra do mundo.

– Aliás, as recaídas de Peter à corrupção são tão em nome da família dele quanto as de Walter White, de Breaking Bad.

– A trilha de David Buckley precisa ser lançada em CD!

– Eu adoro que a série consegue transformar uma conversa sobre nuvens online parecer sobre vida ou morte.

– Um absurdo Diane dizer que Cary foi demitido por causa de Alicia quando foi ela quem pediu que Alicia usasse suas conexões com Peter para o bem da firma.

– Sou só eu ou mais alguém tem dificuldades de ser Team Florrick, Argos & Associates por conta dos associados? Eu já estou criando abuso dos companheiros de Alicia e Cary, um mais mala que o outro.

– Por favor, Kings, não estraguem com a amizade de Will e Kalinda. Permitam que Will confie nela sem nenhum arrependimento posterior. Muitas amizades já foram limadas nessa série e Will não merece mais uma traição.

– Estou com pena da nova assessora de imprensa da Lockhart & Gardner. Nessa guerra, ela tem nas mãos uma bomba prestes a explodir.

– Alguém sentiu falta do caso da semana? Alguém percebeu o quase caso da semana só serviu de munição para a batalha do dia? Mas eu achei interessante ver que Will não sabia lidar com o caso, talvez por delegar demais a Alicia.

– A associada Beth, que ganhou o lugar de Alicia na Lockhart & Gardner não foi uma das que recebeu convite para sociedade ano passado. Ano passado, haviam sido apenas cinco: Alicia, Cary, Stacie (Julie Sharbutt, que sumiu), John Gaultner (Robbie Collier Sublett) e Margaret Lorenzo (Carol Woods). Sim, eu revi Red Team/Blue Team.

– O guarda-roupa de Alicia neste episódio espelhou o de Red Team/Blue Team, só que com cores opostas.

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