É maravilhoso poder dizer que o episódio anterior não foi a hora mais significativa do quarto ano. Lembram-se de quando a gente precisava se corrigir toda semana? Para quem já tinha algum tempo sem se sentir assim, nunca estar errada foi tão recompensador.

Spoilers Abaixo:

A sensação de não conseguir prever o que os roteiristas da série farão também está de volta e eu nunca me senti tão feliz em estar no escuro. Red Team/Blue Team não foi apenas um episódio bom, foi um estudo da personalidade de Alicia Florrick, a mulher que depois de traída pelo marido, casou-se com o trabalho, só para se ver traída por ele também.

Incrivelmente, a Lockhart/Gardner passou direto de uma firma falida para uma promissora – até Diane ficou admirada. Pelo menos podemos dar adeus a esse enredo que se arrasta há temporadas. Diane também foi pega de surpresa pela decisão do conselho de rescindir a proposta de sociedade aos cinco quase novos sócios, entre eles Alicia e Cary. Esses por sua vez já estavam empolgadíssimos com a ideia de fazerem fortuna com a nova posição. E Alicia, particularmente, já estava cega pela possibilidade de agir de igual para igual perante Will e Diane. Era o seu ego inflando e isso acabou causando danos.

Tudo o que se sucedeu no júri simulado foi impressionante de se ver. Nós já conhecemos o modus operandi de uma Alicia com o orgulho ferido. O curioso aqui é que ela chega inclusive a gaguejar (aos 27 minutos); Alicia estava fora de controle e é impossível não chegar à conclusão de que Alicia perdeu toda a razão que tinha por ter sido ludibriada pelos sócios.

Todo esse embate ultrapassou o tribunal de faz de conta e culminou na mais calorosa briga de toda série até agora. Protagonizada por Will e Alicia possessos de raiva, a cena foi o ápice do episódio. E se tal briga tivesse significados obscuros que iam além da questão profissional? É o que me fez pensar quando surpreendentemente tivemos aquele beijo após Alicia gritar “Você acha que é a parte lesada/ferida?”, Will devolver o questionamento no mesmo tom e Alicia responder num arrombo: “Sim, sou eu!”. Estariam eles também insinuando seus sentimentos? Aliás, a forma como Alicia vem magoando e frustrando Will esses anos também contribuiu para alimentar esse meu pensamento, já que apesar de Will ter tomado a iniciativa do beijo, foi ele que o interrompeu também e depois sugeriu que eles evitassem ficar a sós. Estaria ele se protegendo de novas futuras decepções amorosas com relação à Alicia? E pelo quê exatamente ela estaria pedindo desculpas a ele? Ou se martirizando ao dizer pra si mesmo que ela não fazia esse tipo de coisa logo após a briga e o beijo? Fora isso, logo associei essa cena à do episódio 17 da primeira temporada (Heart), o primeiro momento de fraqueza dos dois (compare aqui), com a diferença que naquela época foi Alicia que interrompeu o beijo e foi Will que a procurou para conversar. Paralelos…

A revolta também fez surgir em Alicia o lado militante pelos direitos dos advogados preteridos. Só que no final das contas, o preterido mais uma vez foi Cary, já que Alicia acabou aceitando a proposta de sociedade e caindo na estratégia de dividir pra conquistar da empresa. Ninguém segurou a Alicia (e seu ego) no episódio até ela conseguir o queria. Só que David Lee deixou bem claro que ela não era isso tudo que pensava ser, o seu passe estava valendo mais porque ela poderia ser uma futura primeira dama. Só que sabemos do grande valor da advogada Alicia Florrick, mas de alguma forma esse ego tinha que ser limado. Mesmo depois de tudo, Will foi quem disse que ela era boa e valiosa por si só, não por causa do marido ou mesmo por causa do próprio Will e seu instinto de proteger Alicia.  Isso deve ter tocado Alicia que pediu desculpas mesmo sem saber pelo quê direito, por tê-lo traído profissionalmente? Por tê-lo magoado sentimentalmente? Will baixou a guarda, se não estava claro antes, agora fica claríssimo o efeito que Alicia tem sob ele, usando suas próprias palavras: “é a vida, nós estamos constantemente correndo o perigo de perder o controle”.

A situação de Cary foi similar àquela da primeira temporada, em que Alicia é a contratada e ele é demitido. Acontece que outrora, era Cary a personagem moralmente ambígua, que tentava vencer a qualquer custo. Agora, as coisas se inverteram; nós nunca o vimos tão maduro e centrado, e tão exposto. É por isso que Alicia ser promovida e ele não nos faz desejar que ela tivesse dito não a David. A cena em que ela pateticamente diz a Cary que lutará pelos direitos dos quartanistas nos mostra que a boa esposa e a boa advogada que convivem dentro de Alicia estão em conflito e é exatamente esse o conflito que nós sentimos porque todos nós queremos ser bons, mas todos nós também queremos vencer.

Outra situação que se inverteu é que Alicia, aparentemente, não faz mais amizades em seu ambiente de trabalho. Kalinda foi ignorada por ela neste episódio e não adiantou a Cary deixar o nome de Alicia vir primeiro em sua possível futura empreitada. Paralelamente, é Cary quem vemos cada vez mais próximo de Kalinda e amigo dos outros quartanistas. Desde que Clarke Hayden colocou os dois dividindo a mesma sala, eu passei a prestar atenção nas formas em que a personagem de Cary serve de contraponto à de Alicia e os paralelos vão só se alinhando.

Enquanto isso, acompanhamos os esforços de Eli contra o Departamento de Justiça. Wendy Scott-Carr foi demitida, o que me faz pensar em para quê trazer uma personagem de volta para sumir com ela dessa forma, mas não quero deixar esse texto amargo, não depois de um episódio tão bacana. Mas eu receio não ter como fugir dessa questão. O interesse que eu tenho nessa história está se esvaindo depressa, simplesmente pelo fato de ser extremamente conveniente Josh Perotti (Kyle MacLachlan) sair quebrando as regras e rasgando e adulterando provas. Afinal de contas, é ou não é para levarmos a investigação de Eli a sério? Foi divertidíssimo de assistir, principalmente os flertes dele com Elsbeth, mas eu quero mais. Na verdade, eu não quero mais, eu só quero o que me foi prometido, do mesmo jeito que Alicia. Só que eu não estou com meu orgulho ferido, ainda.

Read Team/Blue Team foi uma delícia de assistir. Um episódio com ritmo, com desenvolvimento de personagens e que soube usar bem os enredos antecedentes da série. Os Kings capricharam dessa vez, só esperamos agora que a história caminhe para algum lugar.

Outros pontos:

– Muito propício a bebida se chamar Thief – “ladrão”, em inglês. A própria Alicia diz que se sentiu roubada, após receber a notícia fatídica de David Lee.

– Particularmente gostei da ideia de Cary e Alicia montarem a própria firma, embora eu ainda ache que é cedo para isso, mas para mim eles são os novos Will e Diane.

– Depois de pedir um aumento e agora exigir honorários de Alicia e Cary, tudo indica que Kalinda está precisando de dinheiro. Estaria ela pagando alguma dívida ligada ao caso Nick? Foi assim que ela fez o ex sumir do mapa? Eu aposto que ele ainda está vivo e desfrutando dessa grana.

– Kyle MacLachlan estava divertidíssimo como Josh Perotti – tirando os bocejos.

– Episódio novo agora só dia 03/03.

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