Entre sonhos e perdas, a felicidade é somente uma escolha.
Após um acontecimento traumático, sabe-se que o melhor caminho é justamente seguir em frente, esquecendo os fatos ruins do passado, vivendo intensamente o presente e refletindo sobre o futuro. Entretanto, é muito difícil assumir essa concepção de imediato, visto que os piores momentos são aqueles que marcam e perpetuam por anos na vida do ser humano. Não importa o que alguém faça, sempre haverá alguma recordação. Seja de forma real ou ilusória, essa lembrança pode desencadear mudanças ou reter sentimentos quase expostos. Partindo desses pressupostos, Criminal Minds conseguiu construir um episódio nada menos que fantástico ao fazer uma alusão perfeita entre o caso da semana e o drama de Hotch.
Executado por George Foyet, o assassinato de Haley significou algo inesquecível seja para Hotch, os agentes ou qualquer fã. A crueldade e a audácia do serial killer ao tirar a vida da ex-mulher do profiler chocaram bastante pela forma como essa tragédia se deu. Haley já sabia que estava a um passo da morte e aparentemente ninguém poderia fazer nada. Esses acontecimentos de fato constituíram um dos episódios mais emotivos do mundo das séries.
Isso precisava ser retomado. Desde o centésimo episódio, Haley fora mencionada pouquíssimas vezes, bem como Foyet. Sei que a mente humana é repleta de mistérios e muitas vezes inexplicável, mas não seria mais coerente trazer alguma lembrança desses dois quando Hotch estava começando a se envolver com Beth, de certa forma seguindo em frente? Contudo, Haley e Foyet fizeram com que o agente reafirmasse alguns valores simples e especiais, como o amor. Nesse sentido, Hotch passou a encarar seu filho e sua namorada com outros olhos após esses sonhos, vendo que a vida pode ser efêmera e deve-se notavelmente buscar passar tempo com as pessoas que ele efetivamente ama. Pode estar vindo algum pedido de casamento pela frente? Talvez… Cena para os próximos episódios.
A escolha do teatro para o encontro mágico foi perfeita, visto que aquela localidade serviu para transmitir um filme da vida. As alegrias de Jack, os abraços entre Hotch e Beth, os sorrisos… E com espectadores como um serial killer e uma ex-mulher. Foi até interessante ver Haley perguntando quem era aquela companheira de Hotch. Foyet, por sua vez, mais irônico impossível. Mas o que seria aquilo… Sonho ou pesadelo? Rever uma figura importante para valorizar as coisas simples da vida ou reviver um terrível trauma? Sim, um pouco dos dois. Nesse contexto, essa mistura se funde à realidade para proporcionar instantes épicos e, antes de tudo, a felicidade. Afinal, ela é somente uma escolha.
Creio que isso tudo tenha inferido, sobretudo, uma questão de liberdade ou permissão. Haley disse para Hotch que ele precisa mesmo é ser feliz, independentemente do que venha a acontecer. Obviamente, Jack e Beth atualmente necessitam mais de Hotch do que Haley. William Shakespeare uma vez disse que lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente. Segundo essa citação do brilhante escritor, esquecer é difícil, mas, sem dúvidas, é o caminho mais fácil – e complexo simultaneamente – para a felicidade. O que passou, passou. Isso é suficiente.
Enquanto as cicatrizes de Foyet eram novamente uma realidade no organismo de Hotch – precisamente 100 episódios após ele ser esfaqueado – o time se preocupava com um caso bastante complicado. Um pai havia sequestrado sua filha. Naqueles indivíduos, existia um amor até certo ponto irracional, não sabendo exatamente os limites entre o correto e o errado. Separados pelos atos de Eddie, Samantha e seu pai ainda tinham muito que conversar num relacionamento bem atribulado.
Em todos os momentos, apesar de seu modo meio diferenciado de amar – tornando-se inclusive violento – o que Eddie sentia pela sua filha era real. Instável e imprevisível, suas ações deixavam os agentes atordoados. Ninguém conseguiria imaginar seus próximos movimentos, mesmo utilizando elementos como cartões postais com intuito nostálgico ou levando Samantha para uma última viagem na beira do oceano. Quando as situações envolvem os filhos, o ser humano muda. Um instinto protetor se sobressai, desafiando todos os princípios que poderiam ser chamados de lógicos. A insanidade de um ser já abalado psicologicamente e capaz de cometer atrocidades ficaram ainda mais evidentes em um cenário como esse.
Mas onde se encontra a tão perfeita analogia entre o caso da semana e o drama dos sonhos de Aaron? Numa simples palavra: trauma. Tanto o Unsub – nesse episódio nem tão desconhecido assim – quanto o agente vivenciaram situações extremamente complicadas, capazes de alterar drasticamente o futuro de ambas as pessoas e, consequentemente, das ao redor. Tais traumas definiram esses homens, alterando suas ações e transformando-os nos que eles efetivamente são hoje. Contudo, a relação entre esses dois que acabaram por não se conhecerem pode ir muito além disso. Ambos sempre desejaram uma vida harmônica ao lado de seus filhos e não mediram esforços para impedir que algo de ruim acontecesse com eles.
Se nesse contexto os dois tinham grandes sonhos, o que significaria essa expressão? O grande poeta brasileiro Mário Quintana disse que sonhar é acordar-se para dentro. De fato, os sonhos são construídos para se tornarem realidade, seja de forma clara ou não. Nas suas entrelinhas – e nesse ponto tanto os sonhos conscientes quanto os inconscientes – estão as esperanças, os sofrimentos, as vitórias, os desastres e tantos outros fatores. Sonhar é encarar o mundo de outra forma, com uma visão mais ampla. Nesse sentido, fugir do comum e buscar o fantástico. Outros têm a função de despertar o ser humano para a vida – como o de Hotch. Entretanto, não importa o modo deles. É preciso sonhar. Somente, porque se a vida é um sonho, realize-o.
Um recurso bastante eficiente foi a utilização da lembrança de JJ para promover a rendição do Unsub. É muito bom ver quando os roteiristas usam temas quase que esquecidos com o intuito de um dos agentes empregar sua própria vida pessoal e fazer uma interessante relação com o caso. O suicídio de sua irmã fora raramente abordado em outras oportunidades. Em um caso repleto de perdas, esse fato somente enriqueceu o tema principal do episódio.
Para completar um episódio brilhante e emocionante, Hotch deu um belíssimo sorriso ao reencontrar seu amado filho, induzindo provavelmente uma mudança e uma aproximação maior. Criminal Minds conseguiu mais uma vez trazer excelentes momentos, reafirmando o quão boa ainda pode ser em sua nona temporada. Já estamos no quinto e o único arco aparentemente existente é o entre Cruz e JJ. Espero que outros ainda sejam construídos à medida que a temporada fluir. O potencial para uma excelente temporada é gigante e Criminal Minds sabe muito bem corresponder às expectativas.
Profiling…
– Além de saber todas as estatísticas do estado do Texas, Reid gosta de ler quando está ansioso. “A Matemática Mágica da Física Quântica”… Excelente indicação, certo?
– Sim, Morgan, também prefiro esperar o filme.
– Gostei muito do motorista dos sonhos. Joe Mantegna caiu muito bem naquele papel e, como curiosidade, aquele automóvel realmente pertence ao autor.
– Até o Foyet pedindo para o Hotch sorrir?
– Review bastante atrasada, eu sei. Reta final de ano e tempo bastante escasso. Peço minhas sinceras desculpas… 🙁
















