A fila não anda em Coven.
O mundo é tão cheio de coisas substituíveis que chega dar medo… Dentro de cada um de nós – mesmo que não admitamos – reside uma fantasia infantil de que somos completamente e unicamente especiais. Mesmo que passemos o tempo todo repetindo discursos, preferências, talentos, sempre achamos que existe alguma possibilidade de termos sido agraciados com a exclusividade de algum aspecto da existência. Queremos loucamente ter aquilo que ninguém mais tem.
Na impossibilidade disso, vamos mentindo pra nós mesmos. Exigimos do amor a anulação do passado. Por mais que tivéssemos sido eleitos como substitutos de alguém, não admitimos que haja passado ou futuro possível para nossos amados. Também não queremos que nossas preferências sejam partilhados por muitos. Gostar do que pouca gente gosta é quase um troféu para os mais ansiosos por reafirmação intelectual. Gostamos de saber tudo antes, comprar tudo antes, dizer tudo antes… Tudo porque de certa forma, isso nos faz únicos. E Deus… Como queremos ser únicos.
Ledo engano, enfim… Jamais seremos únicos, principalmente porque somos sempre o reflexo direto de todo mundo que passou pelo nosso caminho. Não tenho certeza se Fiona sabe disso, mas ao cortar a garganta de sua mentora, em 1971, ela não estava se tornando única, só estava se tornando uma assassina. Em mais um ótimo teaser de abertura, vimos como Fiona ganhou a sucessão do “trono”, antecipando o processo de posse e ainda cortando a língua da única testemunha. American Horror Story veio para mais um episódio cheio de sombras e melancolia.
Se os dois primeiros episódios demoraram para consolidar uma mitologia, esse já começou a corrigir esse erro, nos avisando que de acordo com a proposta da trama, uma Suprema anula a outra. Assim, James Wong (que escreveu ótimos episódios nas outras duas temporadas) começa a explorar Fiona por uma perspectiva apenas insinuada nas semanas anteriores: a decadência dela não é só física, e seus demônios com relação à velhice também incluem o medo da irrelevância, de não ser mais especial, única.
Estava muito claro que Madison era a correlação mais possível para a poderosa do clã. Madison é a versão hollywood de Fiona, e em sua juventude, caminha no mundo com a mesma arrogância característica dos jovens inteligentes, que sempre acreditam estar vendo melhor e além. Fiona descobre que está morrendo e que ser substituída não faz parte do legado que pretende deixar para a humanidade. Acho que o roteiro foi muito específico em demonstrar que o que circula a personalidade de Fiona não é apenas ganância, é insegurança também. “A noite vem quando a dança acaba”, e foi nesse ponto que a personagem percebeu que a música tinha parado de tocar para ela.
Enquanto o episódio conduzia sua protagonista muito bem, tentava estabelecer o papel de seus coadjuvantes. Esse ainda é um aspecto confuso de Coven, que não parece ter decidido o que fazer com Misty, Nan e Quennie. Talvez agora o futuro dessa última tenha se estabelecido, já que a figura do Minotauro está presente como força sexual primitiva e isso deve ter correlação com a virgindade dela e talvez até com a trama de infertilidade de Delia (que teve um belo exemplo visual do feitiço que lhe aguarda). Segundo parte da mitologia dessa criatura, ela nasceu de uma cópula entre humano e besta, de um Deus estéril, e foi condenada ao exílio por isso. Acho que de algum jeito, e através de Quennie e Delia, essas referências vão se cruzar.
Nan, entretanto, parece ser só alívio cômico mesmo (e dos bons). Misty estava correlacionada ao tema da semana, ouvindo Fleetwood Mac e reafirmando a teoria de que buscando ser especial e único, o ser humano acaba absorvendo melhor o seu papel dentro de um coletivo. Essa temporada se chama Coven (clã) por razões bem claras e na canção que a personagem ouvia na semana passada, já se falava sobre o vento como analogia para não se saber aonde se vai. Talvez a jornada de Misty seja essa: adequação. Assim, fica mais curioso ainda que a ligação inicial dela na série seja com Kyle, que foi reconstruído com pedaços de vários outros.
Kyle, aliás, continua mudo, numa perigosa interpretação catatônica de Evan Peters. Quando a gente acha que a série tá mesmo pegando leve, ela manda um incesto pra sacudir as coisas. Adoro a mente pervertida desses escritores, que fazem a mãe do rapaz não reconhecê-lo pelo pênis. Ainda assim ela cai matando primeiro, e avisa Zoe depois. Mais uma cabeça aberta na coleção e pronto… Agora Zoe vai ter que lidar com seu Romeu Necromântico sabendo que ele não voltou idealizado romanticamente, como ela gostaria.
Eu me seguro imensamente para não me derreter em elogios à série, que continua intensa, referencial, esteticamente agressiva, visualmente expressiva, explodindo cultura e história, mas sinceramente não vou me podar. A imensa sequência final entre Fiona e Madison foi uma prova do que American Horror Story é capaz. Se esse for o episódio escolhido para os votantes do Emmy, Jessica Lange ganha outra indicação. Totalmente consciente da personagem, ela acerta o equilíbrio perfeito entre a insanidade, a embriaguez e o suspense. Caminha pela sala iluminada de sombras alaranjadas, monologando sobre a ironia de estar do lado que foi de sua mentora anos atrás. Fiona não existe para ser só poderosa, ela ali é vulnerável e decadente, não há nada de belo sobre ela, nada de glamouroso… Ela é tremulante como aquelas sombras, fosca como aquelas luzes, apodrecida no corpo e na alma. Mas não substituída… Fiona nunca poderia ser substituída.
Acredito muito que Madison não se despediu da série totalmente. A mitologia das supremas deve prever revertérios que corrijam esse assassinato invertido. O que fica, no fim das contas, é uma certeza palpável de que o destino de todos aqueles que não aceitam a irrelevância da vida, é mesmo que o de Fiona: a insatisfação destrutiva. Achar-se demais dá trabalho de menos. O resultado pode ser o tédio de não precisar ser alguma coisa verdadeira. Um tédio afogado em uísque e cheirado em carreiras. No meio de todos os gestos que fazem pessoas voarem no teto, Coven me vem com humanidades doloridas… A ignorância e a prepotência são raízes imutáveis. Fiona preferiu matar do que ceder o futuro a quem faz parte dele, afinal de contas, o clã não precisa de uma nova Suprema, só precisa de um novo tapete.
Potion Number One: Em 5 anos de Glee, Patti LuPone não apareceu para cantar nenhuma musiquinha, mas topou fazer uma beata vizinha da escola de bruxas. Um plot que promete…
Potion Number Two: LaLaurie chorando com o Obama de Presidente era a piada que todo mundo já estava esperando, mas que foi legal mesmo assim.
Potion Number Three: Quennie enfiando a mão debaixo da saia para seduzir o Minotauro me agrediu mais que a cabeça aberta da mãe de Kyle.
Potion Number Four: O que uma bruxa poderosíssima faz enquanto atende? Joga paciência, é claro.















