Podemos fingir que não houve episódio de POI na terça-feira passada?

Pois realmente pareceu um episódio de outra série, um procedural qualquer, de qualidade bem inferior. É verdade que de vez em quando, muito raramente, POI dá umas escorregadas e apresenta um episódio de nível bastante abaixo ao de costume, porém é sempre uma grande surpresa (negativa) quando isso ocorre, visto que mesmo quando não estão no melhor nível de POI os episódios ainda costumam ser bastante superiores aos de várias séries e, principalmente, não insultam nossa inteligência.

Mas desta vez não. Parece até que os roteiristas andaram vendo algumas reclamações que fizemos sobre a season premiere não ter respeitado o nível de excelência dos episódios de POI e resolveram nos mostrar como é realmente um episódio mal feito. Teve plot ruim, atuações ruins, cenas óbvias, outras inverossímeis e para piorar, com exceção das cenas do parceiro de Carter (Laskey) se deparando com John e depois contando sobre ele a Tierney, não foi dado andamento algum a nenhum outro plot da temporada.

E para um episódio que se resumiu ao caso da semana, este último foi um dos mais fracos de toda a série. Em primeiro lugar, a personagem da promotora Vanessa Watkins era muito sem graça, chata e ainda contou com uma sofrível atuação de sua intérprete (Kathleen Rose Perkins), o que impediu que fosse desenvolvida qualquer empatia entre ela e os espectadores. Além disso, o episódio não conseguiu tornar minimamente crível o fato de uma promotora respeitada (conforme ressaltado por Carter) resolver casar-se com um advogado pilantra e  ainda transformar-se em uma criminosa, afinal, passionalidade definitivamente não é um argumento que combina com uma personagem que se mostrou fria e calculista.

Reasonable Doubt também cometeu um grande erro ao insistir em manter por quase todo tempo a dúvida sobre a culpa ou não da promotora, sendo que quanto mais o episódio passava era mais evidente que o marido dela estava vivo e que ela estava por trás de todo o plano. Para piorar, a idéia do “julgamento” foi simplesmente ridícula, culminando em um plot twist deveras óbvio que só John, Finch, Carter e Shaw não perceberam (e dado o nível de esperteza de cada um deles, isso só se torna ainda mais absurdo – acho que até o moleque de The Following matava essa).

Ainda é possível levantar diversos outros absurdos e obviedades no episódio, tais como a cena da promotora pulando do prédio para dentro do caminhão de lixo (ela tá achando que é o John ou a Shaw?), o motivo de ela pegar a cocaína ou ainda a “incrível” descoberta de que o marido estava traindo-a com a melhor amiga (isso nunca foi visto antes em nenhuma outra história, não?), porém o pior de tudo em Reasonable Doubt é que ele não só descaracterizou bastante os personagens principais da série, como ainda tirou completamente o brilho de cada um, o que em POI é um erro imperdoável.

Quanto à decisão final de John em relação ao casal, sinceramente não sei o que pensar. Apesar dela não ser usual para a série e de o casal realmente merecer aquele destino, não acho que ela é compatível com as ações de Reese. Se no lugar dele fosse Shaw, que vive querendo deixar os bad guys morrerem, seria mais fácil de aceitar, porém essa atitude vinda de John não dá para engolir.

O único ponto positivo que pode ser apontado em Reasonable Doubt é a confirmação das suspeitas de que Laskey realmente trabalha para a HR. A decisão pode ter sido aquela que a maioria dos fãs desconfiavam, porém uma vez que se vai fazer o óbvio, é melhor que isso seja revelado logo para os espectadores, ainda que os personagens só venham a descobrir o fato bem mais à frente. Já pensaram se os roteiristas decidissem enrolar com essa confirmação a temporada toda e então revelassem o que todos já soubessem (qualquer impressão de um cutucão à 6ª temporada de Dexter NÃO é mera coincidência… )?

Enfim, depois de um episódio desastroso como esse não há outra coisa a fazer além de desejar que outros como esse não voltem a se repetir na série. É verdade que foi um escorregão, que raramente acontece, porém POI já mostrou ser muito capaz e é sempre muito coerente em seus roteiros, de forma que quando um ponto fora da curva como esse aparece assusta bastante. Além disso, já estamos no quarto episódio da temporada e espero sinceramente que as coisas comecem a se agitar. Tem Elias, HR, Machine, Root, enfim, uma gama de plots que podem botar um fogo danado na série, de forma que mesmo episódios de casos da semana simples podem ser bem melhor trabalhados caso seja dado mais espaço às tramas principais. Contudo, se mesmo assim for necessário fazer um episódio sem estas, que ao menos o caso seja empolgante, verossímil e/ou divertido como muitos outros que já tivemos anteriormente.

Observações

Reasonable Doubt foi escrito por Melissa Scrivner-Love, co-produtora da série e responsável por dois outros roteiros na segunda temporada: One Percent (2×14, aquele de Logan Pierce, o bilionário dono de uma rede social – e escrito em conjunto com a ótima Denise Thé) e Masquerade (2×04, o famoso episódio “brasileiro”), porém sem dúvida alguma dessa vez Melissa pisou na bola feio.

– Para não ser muito duro, teve outra coisa legal no episódio: o início, com Bear no veterinário. Adoro quando ele participa da série e a cena foi bem legal, porém me peguei pensando se a veterinária não teria se perguntado (antes deles a salvarem) se Finch e John não eram um casal, afinal, é muito estranho dois marmanjos de terno levarem um cachorro no veterinário juntos, não?

– Também não tivemos boas frases no episódio (nem bullying com a Shaw, poxa), mas consegui pelo menos separar um diálogo divertidinho entre John e Finch:

J: “O Bear gostou da nova veterinária.”

F: “As vacinas são em um mês. Seria bom ele visitar sem participar de uma operação infiltrada.”

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