
Afinal, o que pretende Family Tree?
Spoilers Abaixo:
Family Tree é uma comédia inusitada em todos os aspectos possíveis. Além de ser uma produção anglo-americana, algo raro de acontecer, possui um estilo de humor que se posiciona entre as duas escolas, trazendo diversas características de séries que vemos tanto nos EUA quanto na Inglaterra. Até por conta disso, é muito difícil encontrar um exemplo que seja semelhante a ela. Isso é bom e ruim. Bom porque Family Tree inicia sua trajetória como uma produção única. Ruim porque ela própria demora para encontrar seu ritmo. Mesmo assim, estes quatro últimos episódios criam uma boa identidade, fazendo a série ganhar corpo e se aproximar de seu season finale com competência.
Nos três primeiros episódios, vemos Tom em busca de uma identidade após perder as coisas que o formavam: sua namorada e seu emprego. No entanto, Family Tree utilizava essa premissa de forma rasa, criando um humor competente, mas excessivamente heterogênea, o que tornava a série algo que jamais conseguia causar uma sensação de êxtase ao final de um episódio, nem tampouco permitia ao espectador enxergar alguma evolução em relação aos personagens, que pareciam estagnados.
É verdade que Family Tree jamais será uma série capaz de provocar sonoras gargalhadas. Indians, por exemplo, é o episódio mais engraçado da temporada, mas não possui piadas que derrubem o espectador de rir. No entanto, Christopher Guest e Jim Piddock tem sabido trabalhar seu humor intimista e orgânico, acelerando o ritmo em diversos momentos sem que nenhum dos personagens pareça tentar provocar o riso. Quando Tom enfrenta um de seus maiores medos em Welcome to America, seus desdobramentos são cômicos de uma maneira natural, o que faz com que o público se identifique com esse tipo de situação. Nesse aspecto, o elenco da série contribui bastante, já que parece encarar cada linha de diálogo com naturalidade, entregando momentos que se assemelham a uma verdadeira conversa de amigos, incluindo gaguejadas providenciais e longos segundos de silêncio, contribuindo para a organicidade das cenas.
Aliás, a mudança de ares na segunda metade da temporada, com Tom indo para os EUA, é muito benéfica para a série. No último episódio da primeira perna, Country Life, vemos o roteiro exagerando na repetição de piadas, parecendo não saber lidar tão bem com a vida de seu protagonista tão próximo de casa. Nos capítulos seguintes, no entanto, o choque cultural vivido por ele é por si só cômico, e Family Tree sabe explorá-los muito bem, especialmente em situações que coloquem Tom em posição humilhante ou constrangedora, como na cena final de Welcome to America, ou a reencenação de Guerra Civil em Civil War, um momento particularmente hilário, quando Tom não sabe o que fazer ao se deparar com algo tão ridículo, na visão dele, britânico que é.
No entanto, especialmente nos episódios que antecedem a Indians, um dos pontos que mais funciona na primeira temporada se perde. Pete, cuja relação com Tom cria diálogos rápidos que rendem boas piadas, se afasta por conta das circunstâncias e faz com que essa dinâmica desapareça. Até por isso Indians é tão bem-sucedido, já que reaproveita a química da dupla para criar piadas em bom ritmo, o que torna o episódio provavelmente o com a maior densidade de humor de toda a série.
Assim, não é difícil compreender porque o episódio desponta como o melhor da série, já que no quesito humorístico o roteiro de Piddock desempenha excelente papel, evitando o caos de personagens criado em Welcome to America, por exemplo, acrescentando alguns deles pontualmente sem que isso prejudique o ritmo da narrativa e dê mais espaço para momentos cômicos. Até mesmo Bea, que nos primeiros episódios criava apenas constrangimento no espectador, surge com maior destaque. Family Tree parece trabalhar sua “relação” com Monkey de maneira melhor estruturada, ainda que essa característica ainda seja bastante artificial. Por isso, a cena em que ela descobre ter sentimentos por Pete é surpreendente e interessante, mostrando que a série tem sabido construir melhor esse lado non-sense.
Mas o aspecto em que Family Tree se sai melhor é em posicionar seu protagonista em relação à sua vida. Ao contrário dos três primeiros episódios, é possível enxergarmos uma evolução, tanto no aspecto pessoal como em sua jornada em busca do melhor conhecimento de sua família. É curioso que sempre terminemos um episódio com um novo membro para conhecermos na semana seguinte, criando uma certa expectativa no público que não víamos anteriormente. Também o vemos mais confiante, finalmente ameaçando engatar um novo relacionamento, se sentindo até melhor nos EUA do que em sua terra natal. É esse tipo de desenvolvimento que se espera de uma série como essa, já que ela não se propõe a entregar piadas muito explícitas, muito pelo contrário.
A um episódio do season finale (ou series finale, já que não sabemos do futuro da série), Family Tree demonstra clara evolução, e pode encerrar sua primeira temporada de maneira digna e podendo atingir seu potencial. Não é uma série brilhante, longe disso, mas tem sido bastante competente.













