
Family Tree continua sem saber para onde vai.
Spoilers Abaixo:
Comédias não necessariamente precisam desenhar logo em seus primeiros episódios uma trajetória clara que mostre suas propostas em relação às tramas e personagens. Mas precisam dar ao seu público a impressão de que tem material para algo mais do que poucos episódios. Um exemplo claro é o de Modern Family. A série não tem um arco central, e pouco explora seus personagens em relação às suas histórias. Mas sua premissa permite que dure várias temporadas sem que sua fórmula se esgote. A comparação não é por acaso, já que Family Tree até tem proposta parecida. Mas, ao contrário de sua quase-irmã, dá a impressão de que é impossível que sua premissa avance além de sua temporada de estreia. E The Austerity Games, ainda que seja o melhor episódio da série até aqui, é apenas uma prova disso.
Escrito, como de costume, por Christopher Guest e Jim Piddock, o episódio mostra um Tom ainda curioso pelo passado de sua família, procurando agora conhecer mais sobre seu avô William, após encontrar na caixa um uniforme olímpico. Ele e Pete vão então buscar mais informações, mais uma vez se frustrando com o que encontram. Enquanto isso, Bea consegue o emprego de comediante em um casamento, o que provoca desespero, vergonha e humilhação em seu pai.
O aspecto em que Family Tree mais evolui em The Austerity Games é na forma como aproveita Bea Chadwick. Guest e Piddock parecem compreender que utilizar sua mania com ventriloquismo como artifício cômico não funciona, visto que suas piadas – dela e de Monk – não tem eficácia alguma em provocar risos. No entanto, aqui a vemos mudando ligeiramente de função, assumindo sua natureza vergonhosa e se tornando, desta vez propositalmente, o que é desde o piloto: uma aberração completa. Por isso, a cena em que fracassa como comediante é bem executada porque provoca no público um forte sentimento de vergonha alheia, o que acaba por se tornar cômico por conta do ridículo, ao contrário de outras ocasiões, em que a tentativa de piada é embaraçosa.
Em geral, aliás, The Austerity Games traz situações bem parecidas. Se em Trending the Boards vimos um episódio muito bem conduzido em boa parte do tempo, mas que perde seu ritmo faltando alguns minutos para o final, aqui o que vemos é uma história coesa durante todo o tempo, tornando mais interessante a jornada de Tom em busca de um maior conhecimento de sua família. Fica claro que o roteiro de Family Tree vai se moldando em busca de um rápido amadurecimento, e é possível afirmar que essa evolução acontece na velocidade correta, ainda que a temporada da série seja curtíssima e já estejamos próximos de sua metade.
Tudo isso porque Tom é um personagem essencialmente carismático. Chris O’Dowd faz um bom trabalho, encarnando com naturalidade o entediado britânico. Isso contribui com a principal característica da série, que é o fato de contar com um humor orgânico, que pouco se volta para a construção de piadas, preferindo, na maior parte do tempo, provocar risadas através de pequenas intervenções, mas que quase sempre são precisas. Por esse motivo, Family Tree raramente provoca gargalhadas, se focando em algo mais interno e natural, como em certo diálogo em que Tom afirma não ter um app para certa coisa, em sátira ao famoso slogan da Apple, ou quando inventa ter ganho uma medalha de bronze e tira sarro de si próprio. Enquanto isso, Pete, que fora um dos grandes destaques em Trending the Boards, desaparece um pouco, o que se torna bastante estranho, já que não há razão aparente para isso. Ainda assim, suas pequenas participações funcionam bem, como em sua desastrada luta com um rapaz consideravelmente mais jovem.
Mas nada disso apaga a impressão de que Family Tree tem data de validade. Primeiro porque não há evolução clara na vida de Tom, que está estagnada há três episódios. É verdade que isso é exatamente a intenção da série, mas isso precisa mudar em algum momento, já que é o tipo de premissa que se desgasta rapidamente. Não se imagina que a busca dele por sua família dure mais que os oito episódios programados para a primeira temporada, principalmente porque em algum momento os membros (e a caixa) se findarão.
Ou seja, se Family Tree desejar ter vida longa, precisa ser mais insinuante ao espectador, projetando algum caminho. Enquanto isso, segue sendo bem-sucedida com seu humor, mas longe de ser brilhante.













