Se eu não posso ter você, então eu não quero ninguém…

Spoilers Abaixo:

A original e inovadora Black Mirror está de volta e eu não entrarei nos méritos que a fizeram (e ainda faz) ser uma série única. Quem acompanhou a primeira temporada sabe a que me refiro. Essa série linda que não pode ser classificada exatamente como sci-fi, drama ou comédia (mesmo com todos esses aspectos) é de fato uma crítica/sátira adequada e muito propícia ao mundo moderno em que vivemos e o preço que pagamos por tanta modernidade.

Mais de um ano se passou desde o final da primeira temporada e aposto que muitos estavam apreensivos quanto a qualidade desses novos (míseros) três episódios. Eu não entro nesse círculo, porque devo confessar que assisti o primeiro episódio da série e deixei o restante estacionado no meu computador, sabem como é, sou brasileira, deixo para depois e então esqueço total. Se não fosse o shálálá passado pelo sr. Michel Arouca para que eu assumisse as reviews da série, ela provavelmente ainda estaria estacionada no meu computador, portanto quero publicamente agradecer ao sr. Arouca por me lembrar e fazer voltar para Black Mirror. E sim me dei uma surra mental por tê-la deixado de lado. Sério, o que eu estava pensando?

Mas o que interessa mesmo é a season premiere. E que season premiere certo? O mais sensacional em Black Mirror é que se pararmos para pensar, o pano de fundo para as histórias contadas são simples. O diferencial é a forma com o qual essas histórias são executadas, e nesse episódio não foi diferente. Já presenciamos mais de uma vez a história de amor e perda, mas a óbvia diferença vem do sensacional roteiro do criador da série Charlie Brooker que mostra que um dos aspectos que nos define como seres humanos, é o toque e a capacidade de sentir e ser sentido, ao contrário do que acontece hoje em dia, em que os relacionamentos podem ser estabelecidos através de uma tela de computador.

Novamente a crítica é para uma sociedade que compartilha vários aspectos de sua vida na internet. Ash é o exemplo personificado de um membro dessa sociedade. Ele é um rapaz que facilmente se distrai com a possibilidade de compartilhar ideias e fotos. Distração essa, que pode ter custado sua vida. Mas atire a primeira pedra quem, hoje em dia, não se identifica ao menos um pouco com Ash.

Não é totalmente absurdo na dramaturgia, a ideia da criação de um aplicativo que nos faça comunicar com os mortos. Aplicativo este que se alimenta de informações encontradas na nossa querida world wide web. Lembrem-se que dramaturgia é em muitas vezes, simplesmente o exagero de uma situação presente no “mundo real”. Em Black Mirror esse exagero é o alcance e a dimensão da tecnologia em nossas vidas. É meus caros, mais uma prova que o Big Brother tudo vê e tudo sabe!

A dor de perder alguém que amamos é imensa. E o que faríamos para manter presente essa pessoa é imensurável. E para Martha essa oportunidade se torna real e o que começa como um simples desabafo, logo se transforma numa dependência emocional, que explica com eficácia a rápida aceitação e evolução do chat na internet até o clone andando pela sala.

O clone vem alimentado pelas informações de Ash, informações estas liberadas por ele mesmo através do Twitter, Facebook, Instagram, Foursquare e afins. Então se torna clara que algumas partes da personalidade de Ash seriam, não aperfeiçoadas e sim modificadas. Ninguém publica seus piores defeitos na internet, porque é mais fácil atacar do que ser atacado, não é mesmo (haters gonna hate)? Também é natural que essas informações omitam as reais reações de Ash a determinados momentos, fazendo com que Ash 2.0 seja uma folha quase em branco onde as lacunas devem ser preenchidas por Martha. Quem não quer isso? Um namorado (a) quase perfeito (a) e obediente?

Mas no final a cópia não substitui o original e sentimentos forçados nunca serão satisfatórios ao mesmo tempo que sentimentos reais não podem ser fabricados. E é exatamente aqui que a mensagem do roteiro brilha intensamente. Sinta, ame, aproveite a vida, faça amor (ou sexo), aceite as diferenças e defeitos dos próximos e o principal não passe metade do seu tempo/vida na frente do computador criando relacionamentos plastificados.

Fiquei impressionada com o talento de Domhnall Gleeson. As diferenças entre o Ash real e o Ash clone foram sutis, bem trabalhadas e muito significativas, provando assim que o talento está mesmo presente no gene da família Gleeson, oi papai Brendan Gleeson! A interação entre Domhnall e Hayley Atwell foi poderosa, o que nos fez acreditar fielmente no amor e na dor da perda dos personagens.

PS: Quão poético foi a semelhança entre Martha e a mãe de Ash, já que ambas “guardam” seus mortos no porão?

Mais um momento de “Fernanda também é cultura”: Robert Downey Jr. e George Clooney duelaram ferozmente para garantir os direitos de adaptação da série, sr. Downey Jr. ganhou e produzirá uma adaptação do último episódio da primeira temporada (The Entire History of You) para o cinema.

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