Friends brinca com metáforas e nos conquista logo de cara com uma gaveta.

Brincar com os problemas amorosos de seus personagens é um dos grandes trunfos de Friends, permitindo que a série crie um senso de união entre o grupo através dos seus complicados e peculiares relacionamentos amorosos. Além de retirar simpatia de uma situação que pode ser considerada cotidiana, a série incorporou tanto esse aspecto dentro de seu universo que quando Alexa Junge escreve uma história ironizando esse fato por coloca-lo em um novo contexto, o resultado não poderia deixar de ser incrível. Comédias de longa duração possuem esse desafio de serem capazes de criar novos contextos interessantes para as pessoas que originalmente são dali, sem colocar novos elementos absurdos diante do telespectador. O relacionamento entre Chandler e Janice é um ingrediente que é explorado com exaustão durante as duas primeiras temporadas, mas que em nenhum momento chega ao ponto de prejudicar as narrativas, sendo que “The One with the Metaphorical Tunnel” é um exemplo perfeito de como a série possui essa especial aptidão.

A grande vantagem da dupla é conseguir passar por períodos graduais de desenvolvimento, o que significa uma quantidade grande de características dos dois sendo apresentadas ao público ao mesmo tempo em que a série apenas explora um em específico para operar uma narrativa ao redor disso. Observe como lembrar episódios desse tipo não é uma questão simples de Chandler/Janice, pois se torna algo mais específico graças a isso, permitindo que o foco aqui seja o exagero do primeiro quando possui a oportunidade de se comprometer com seu relacionamento.

Aliás, esse fundamento que basicamente se torna a grande piada que o episódio quer passar é algo muito mais efetivo por ser uma característica que a série faz questão de deixar clara sempre que possível nos episódios anteriores. Essa lógica não é abandonada aqui, fazendo com que Chandler passe por todos os estágios que o roteiro deseja desorganizar através de sua metáfora sem parecer pretensioso ao mesmo tempo em que seu pânico não desaparece, apenas muda de foco, saindo do comprometimento ao pavor de perder Janice. Todas as reações do personagem, desde o modo como ele se comporta ao estar diante de seu telefone até seus momentos mais femininos e sua postura no jantar, são bem posicionadas ao ponto de criar uma empatia que deixa espaço para que Rachel e Monica sejam bastante divertidas. As duas posicionam-se de forma bastante mecânica ao longo do episódio, mas a mudança de comportamento é vantajosa ao ponto de fazer com que essa atitude seja vantajosa para a história, com as duas ganhando piadas pontuais que conseguem ter seu efeito graças ao modo como o desespero de Chandler é tratado. É praticamente impossível não sentir pena dele quando Rachel diz que ele não é um perdedor tão grande, por exemplo.

A piada recorrente com o sorvete é especial por esse motivo e pelo fato de explorar a questão da alegoria que o roteiro tanto quer passar, não apenas se limitando a isso, mas também ao criar o conceito que intitula o episódio. O túnel por onde o trio quer passar traz resultados inesperados a Chandler e um sentimento de raiva que se torna engraçado graças a utilização do sorvete como uma ironia, encerrando a história com Rachel e Monica decepcionadas com a situação mesmo que ela não as envolvessem com tanto ímpeto.

“The One with the Metaphorical Tunnel” tem algumas atitudes estranhas com o formato de sua narrativa, criando segmentos que são completamente divididos, com poucas interações entre os três e desenvolvendo essa esquisitice. As tentativas de Ross ao tentar fazer com que Ben não brinque com a Barbie são conduzidas com uma indolência difícil de ser entendida por limitar tanto a questão. É importante notar como a situação não é bem sucedida em diversos momentos por não apostar nas piadas pontuais que normalmente são presentes na série, deixando que a insegurança de Ross não seja relevante para a construção do episódio. A única ocasião que realmente transmite algo relacionado ao personagem são as duas cenas finais, com Monica relembrando o curioso fato de o irmão ter tido um período em que ele vestia as roupas da mãe.

Enquanto tudo isso acontece, vemos como Joey e Phoebe constituem um segmento bastante divertido por simplesmente englobar suas particularidades em uma situação condizente com elas, onde a segunda assume o papel de agente do ator. Observa-se como a ingenuidade marcante dos dois personagens dita o ritmo da situação, revezando ambos em posições desconfortáveis que funcionam. Por trazer esse caráter, é comum vermos que o lado cômico é extremamente ligado às alterações no comportamento dos dois diante dessa ocasião inesperada, com Phoebe tendo que fingir uma voz ao falar ao telefone e Joey produzindo uma expressão facial curiosa para mostrar a ela que não está triste com o desenrolar da história.

O curioso é que por ficar transitando entre todas as possibilidades que a narrativa pode ter (Joey convencendo ela a ser sua agente, Phoebe se incomodando com a posição, Joey tendo a mesma reação em seguida, etc…), as piadas, mesmo baseando-se em um único pensamento, não se tornam cansativas, jogam as necessidades e valores éticos deles em direções de confronto, uma posição adorável e hilária para os dois personagens. Além disso, a cold open de “The One with the Metaphorical Tunnel” é uma forma inteligente de se iniciar o episódio ao exibir um comercial que serve para que a série ironize o sucesso profissional de Joey, tornando-se especialmente engraçada por humilhar o personagem de forma tão honesta.

Artigo anterior666 Park Avenue – 1×10/11: The Comfort of Death/Sins of the Fathers
Próximo artigoHouse of Cards – 1×02: Chapter 2