O beijo mais apaixonado de todos.

Spoilers Abaixo:

Abrimos os olhos pela manhã, e o sol está radiante. É assim que entendemos um dia lindo lá fora: sol, céu azul, vento fresco. Abrimos os olhos pela manhã cientes do nosso dia, da nossa rotina, dos nossos compromissos. Sabemos quem precisamos encontrar, as conversas que precisamos ter, as decisões que precisamos tomar… Da vida, é quem vive que sempre sabe. A única que não sabe do que você precisa fazer no seu dia, é a morte. Ela simplesmente vem, sem hora marcada, sem ser convidada, e te subtrai do seu mundo sem pedir licença. Por isso ela sempre será assustadora, e por isso ela sempre nos incomoda, mesmo quando vem para aqueles que nem sequer conhecemos.

Um ou dois de vocês já devem ter parado pra filosofar sobre essa imprevisibilidade da morte. Sempre achamos que ela não pode vir hoje, afinal você tem uma viagem muito importante pra fazer, planos pra concretizar. Mas ela vem… Ela é extremamente incoveniente. Por isso, pensar sobre esse episódio de American Horror Story causou um certo ruído. A morte realmente seria capaz de perguntar a todos nós se estamos prontos pra ela?

A todos nós, não. Mas para aqueles que a perseguem ou precisam dela, sim. E Dark Cousin não foi um episódio feito para os que amam o nascer de cada sol, ele foi um episódio feito para os que só vivem em meio a escuridão.

Acertadamente, a história se dividiu em blocos direcionados a cada um desses necessitados de morte. Notem que Arden, Kit e Thredson não tiveram contato com a força sobrenatural de asas escuras que passeou pelo território e adjacências de Briarcliff. E faz todo sentido. Arden quer estar vivo porque é ele quem subjuga, Kit está numa cruzada pela verdade e Thredson gosta da sensação de matar, então jamais vai ambicionar pela morte.

Em mais uma abordagem interessantíssima do sobrenatural, o roteiro do episódio coloca o Anjo Negro da Morte na mesma sala com Mary Capeta. Uma que foi convidada, a outra que se impôs. Como são primas, já ficamos sabendo também que não se trata do demônio em si, mas de um de seus soldados. Nesse momento, um pequeno vislumbre da verdadeira Mary surge e mostra porquê Lily Rabe merece todas as honras nessa temporada da série. Dentro daquela sala estavam dois anjos negros, mas olhem que curioso: um deles trazia a luz. O alívio. E remetia totalmente ao significado do nome de Lúcifer (aquele que é portador da luz).

O aramaico na parede da enfermaria também foi um detalhe precioso. Mary Capeta reconheceu de imediato e já sabia de quem se tratava. Houve um cuidado de deixar muito claro que aquela era uma morte dedicada a quem chamava por ela, seja através de um rito, de um pensamento ou de um desejo verbalizado. O incômodo de Mary com a presença do anjo não se devia apenas à rivalidade natural entre eles, mas ao fato de que a morte é a ceifação do sofrimento, sendo o sofrimento o combustível de análise dos demônios. De certa forma, para eles, os humanos só parecem interessantes quando doem ou quando provocam a dor.

Lana não tem exatamente o perfil suicida ou melancólico. Porém, as atuais circunstâncias de sua vida justificam o desejo de finitude. Pior do que ser torturada é ter sessões de sexo macabro com seu torturador.  Um desconcertante grau de incesto está presente nesse tesão de Thredson, e é claro que atravessar essa barreira acabaria representando uma ruptura. E essa ruptura é a vida de Lana, que como já dissemos, não faz a linha desertora e luta por seu lugar no planeta. Foi um momento realmente muito tenso, e inacreditável também. Mas no bom sentido. A trajetória trágica dessa personagem é irresistível e faz o contraponto perfeito entre todos os personagens abordados nessa semana. Lana é a única que está sofrendo de verdade, e sem merecer isso. E é também, a que mais quer permanecer viva. Por isso ela rejeita o anjo, e ganha uma nova chance. Acaba indo parar em Briarcliff de novo (numa virada sensacional) e se confessando justamente com o demônio, mas ainda assim, lutando.

Jude surge em seguida, em meio ao incansável dilema moral que a persegue. Mary Capeta tem feito um trabalho realmente sensacional em desestabilizar a mulher. Porém, assim como com Lana, esse é um pedido de morte circunstancial. E peço licença novamente para dizer o quanto American Horror Story sabe ser brilhante. Até porque, “brilhante” é a única palavra que se aplica ao encontro entre Jude e o anjo na cafeteria. Jessica Lange e Frances Conroy esmagando todas as outras atrizes do planeta, em segundos.

Jude nunca quis estar morta, de fato. Ela sempre foi dessas almas que amam tanto a experiência de estar viva, que acabam se atropelando no processo. Inebriada de prazeres, a mulher passaria a vida toda usufruindo deles sem autoanálise. Mas, como Jude é a parte mais humana da série, coube a ela o choque de consciência que, ao mesmo tempo, serve para tentar tirá-la dessa overdose de hedonismo que a dominava. O problema é que Jude não trabalha a filosofia e se atrapalha na autocensura, e no final das contas, vira tudo uma melancolia sem tamanho. Ela faz o que pode, procura Deus e se atrapalha de novo. Ela só conhece extremos. Prazer extremo, religiosidade extrema. Quando perde Briarcliff, a reação também é extremada. Mas ela não quer morrer… Naquele diálogo lindo com o anjo, ela nos mostra que já chamou por ele muitas vezes, mas nunca esteve pronta. E quando faz o que qualquer pessoa com o mínimo de equilíbrio faria, procurando pela família da menina, descobre o erro trágico: ela sempre esteve viva.

Vamos nos encaminhando para o ato final, e é engraçado, porque mesmo que sempre fosse quase irrelevante, é Grace quem o protagoniza. Estava muito claro que o anjo não apareceria para levar apenas o desconhecido Miles. Todos os chamamentos feitos pelos personagens regulares eram emblemáticos demais, e um deles precisaria ser atendido… Porém, é aí que vem a mais triste das constatações: a morte, em 90% dos casos, mesmo para os que chamam por ela, só vem quando não está sendo esperada. A morte não foi feita para estarmos conscientes dela, ou então, sempre desistiríamos no último instante, assim como fizeram Lana e Jude. Para Grace, que já havia chamado, ela acaba vindo num momento derradeiro de verdadeira esperança. A chegada de Kit em Briarcliff era o dia de sol reluzente no mundo de Grace. E que acabou num último piscar de olhos.

American Horror Story sai de sua sétima semana incólume. O que estamos vendo não é uma história de horror com simples pretensões de susto e choque. O que estamos vendo é uma série com susto e choque, mas com uma delicadeza e profundidade extasiantes. Não me lembro de ter visto uma dramaturgia discorrer sobre o desejo de suicídio de modo tão onírico, tão lúdico. Porque no final das contas, essa foi uma observação do pensamento suicida. Matar-se é sempre sobre estar pronto pra morrer, e esse é o único momento em que essa pergunta ganha algum sentido. A questão é que, ao invés do pensamento suicida ser discutido com dramatismos cafonas, ele foi discutido com a mais bela alegoria de todas: Um anjo de imensas asas negras, um singelo véu sobre o rosto, deslizando pelas sombras em busca de seus adoradores.

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