Delação premiada.

Spoilers Abaixo:

Eu tenho uma teoria de que se Revolution abandonasse certas escolhas visuais, levaríamos ela a sério completamente. Em um enredo como esse, a credibilidade é essencial. E eu sempre tive a sensação de que a milícia me incomodava porque parecia infantilizada demais, com seus jargões, símbolos e uniformes. A organização dentro de uma civilização desorganizada, sempre me pareceu incoerente, ainda que o homem sempre tenha necessidade de se agrupar. A milícia é importante para o enredo, mas eu gostaria de uma coisa mais orgânica e menos ensaiada.

Mas começo a me acostumar com ela. Quando ela aparece em menor quantidade, como nesse episódio, acredito mais. Porém, os arquétipos de liderança são rasteiros como grama e ao invés de causarem impacto, causam comicidade. E me refiro, principalmente, a Monroe e Strausser. Duas construções dramáticas sem nenhuma profundidade e donas apenas de títulos. No caso de Strausser é mais grave, já que a despeito de toda sua fama de malvadão, não o vimos derramar uma gota de sangue relevante.

O que me agrada mais – fechando meu raciocínio – é, e sempre será, a desconstrução de valores, algo inexplicavelmente ignorado pelos roteiristas, que ficam insistindo em megalomanias de guerra e militarismo, e esquecem de abordar o mais interessante: a sociedade vigente. Nesse episódio vimos um pouco dessa possibilidade, ao abordarem duas tramas paralelas que se uniram por um único propósito: a delação.

Os flashbacks de Nora preparam o terreno. Não serviram pra esclarecer nada, apenas para determinar quais os níveis de relacionamento entre a personagem e sua irmã. Milagrosamente, funcionou. Nora e Mia determinaram uma dinâmica interessante, em que o mais importante é a sobrevivência própria e dos seus. Ou seria, se para isso uma nova série de valores não tivesse sido estabelecida. Mia quer o melhor para as duas e está disposta a fazer sacrifícios. Nora, que tem uma personalidade idealista, quer o melhor para sua consciência. O roteiro condena Mia, mas ela tem razão. Numa sociedade como aquela, você protege apenas quem é imprescindível para sua vida. E isso diz muito sobre como Nora entende a questão.

Quem também teve que lidar com a denúncia em benefício próprio foi Tom. A relação dele com o filho é estranho demais, e permite até que o garoto seja torturado com seu aval, porém, não permite que ele vá para as terras pagãs da Califórnia. Assim, a esposa espertinha arruma um jeito de reverter o quadro e isso, é claro, inclui mandar alguém para os leões. Sabe como é, os monstros famintos não abrem mão do jantar, apenas substituem a comida.

A ação final não foi exatamente coerente. Como eu disse, Strausser pareceu muito atrapalhado para quem tem uma fama tão bem sucedida. Ele só conseguiu o pingente por causa de Mia e ainda teve seu grupo dizimado por Nora. Mesmo assim, a fuga foi interessante, e os resultados da perda do pingente serão intensos, sobretudo para Aaron. O episódio não esclareceu muita coisa a respeito, apenas nos informou que é indestrutível. E de fato, foi com preocupação que recebi a última cena – entre Randall e Grace – que foi um outro exemplo da megalomania dos roteiristas.

O que Revolution precisa agora é encontrar uma maneira de – mesmo sem revelar muita coisa – conectar essas pontas soltas num propósito definido. Por enquanto sabemos que o resgate a Danny é o objetivo do grupo de Charlie, mas seria tolo demais que a milícia quisesse os pingentes apenas para controlar a energia e conquistar território. Conquistar território pra quê? O grande problema da série é não entender que essa atenção toda ao “poder” da milícia e sua expansão, é absurdo. Não parece oferecer nenhuma vantagem. Não transforma, efetivamente, a vida de ninguém. Pro inferno com essa baboseira bélica… A série sobreviveria melhor sem isso, sem dúvida.

Turn On: Atenção à imagem do mapa na casa de Tom. O território estaria dividido em “República”, “Planícies” e “Comunidade”.

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