
Um doce ato de sensibilidade.
Spoilers Abaixo:
A proposta de Go On é corajosa. Procurando fugir do humor explícito que recheia muitas comédias da TV aberta, a série investe em algo mais singelo, que pende para o drama em vários momentos. Embora essa ideia seja perigosa em um ambiente em que fugir dos padrões é correr sérios riscos de fracasso, ao mesmo tempo conta com alguém como Matthew Perry para segurar a audiência e “forçá-la” a aceitar o que vê (semelhante ao papel desempenhado por Zooey Deschanel no início de New Girl). E se isso é uma carta na manga de Go On, acaba se tornando, também, seu principal calcanhar de aquiles. Bench-Clearing Bawl é um retrato perfeito disso.
O episódio gira em torno da participação de Ryan em um jogo festivo de hóquei, organizado por Jeremy Roenick. No entanto, o ex-jogador não tem nenhum apreço pelo apresentador de rádio, e só aceita convidá-lo por conta da manobra executada por Steven, que usa o fato de a esposa de Ryan ter morrido a seu favor. Enquanto isso, o viúvo, precisando de espaço para seu novo cartaz, doa a máquina de costura de Jamie a Sonia, provocando a desaprovação de Lauren, que não acredita que ele esteja pronto para isso. Já Anne vive um dilema ao não ter com quem ir a um casamento, convidando Ryan para que ele não a deixe sozinha.
Repare como a premissa de Bench-Clearing Bawl traz muito pouco do que foi apresentado nos três primeiros episódios. Isso se dá por conta da decisão do roteiro de dar grande destaque a alguns personagens para abandoná-los na semana seguinte, prejudicando a fluidez da série e a identificação com os mesmos. O fato de serem muitos não é o problema em si, mas sem dúvidas Go On tem dificuldades em trabalhar com isso. Assim, não é por acaso que Mr. K acaba sendo o mais interessante deles, já que, mesmo não sendo o foco em nenhuma das ocasiões, recebe tiradas pontuais e que se revelam quase sempre precisas, como na interessante cena das colagens.
É isso que faz com que a série dependa excessivamente de Perry. Aliás, as comparações de Go On com Mr. Sunshine existem justamente porque ambas apostavam demais na figura do ex-Friends, fazendo com que tudo gire em torno dele sem nunca se desvincular da imagem de uma série que conta com um grupo de personagens relevantes. Assim, Go On não decide o caminho que pretende seguir, ficando em um incômodo meio-termo que prejudica a evolução da série.
O que não quer dizer que Bench-Clearing Bawl seja ruim. Pelo contrário, pontualmente é um bom exemplo de comédia, investindo em um humor mais direto e preciso que nas semanas anteriores. Além das pequenas intervenções de Mr. K, o texto funciona nas cenas envolvendo Steven, que confere ao episódio um ligeiro tom de cinismo, importante para que a série possa variar suas piadas ao longo de 20 minutos. Até a surra levada por Ryan no hóquei, que poderia facilmente se tornar uma cena repleta de humor pastelão, é eficaz em sua execução, embora seja mais física do que Go On tem mostrado.
Embora a série tenha evoluído seu humor para algo mais característico e coeso, o que se sobressai no episódio é o quanto o roteiro trabalha a personalidade de Ryan. Nesse aspecto, pouco importa se os personagens coadjuvantes se embaralham. O que interessa é a evolução do protagonista em relação ao seu luto. Sua decisão de acompanhar Anne ao casamento, por exemplo, seria impensável no piloto. Aliás, é interessante como Go On procura sempre salientar o caráter repulsivo de King, rejeitado até mesmo por durões jogadores de hóquei, para em seguida evidenciar sua evolução em relação a outras pessoas.
Por isso, duas cenas são importantíssimas e reveladoras. A primeira, no casamento, quando Ryan convence Anne a paquerar uma mulher, mesmo que isso signifique que seja ele a pessoa a ficar sozinha no evento. A outra é quando a mesma Anne o procura em sua casa, ao invés de Lauren, para contar o grande passo que deu. Dessa forma, Go On investe calmamente na desconstrução do Ryan King de antes da série para a criação de um personagem amargurado, mas com boas intenções. Assim, o roteiro provoca no espectador, que se vê atraído, uma reação positiva. E mesmo que, pontualmente, a série tente vender uma imagem melodramática, como nas irritantemente artificiais cenas em que Ryan e Lauren caem no choro, Go On parece encaixar de forma competente suas peças no que diz respeito ao seu protagonista.
Mas, de novo, a série não se propõe a ser um estudo de personagem único, e por isso precisa situar melhor seus coadjuvantes, para que a temporada flua melhor como um todo. Ainda assim, é inegável que Go On revele um excelente potencial para conciliar drama e comédia na TV aberta. Se aparar bem as pontas e conseguir se guiar em torno de sua proposta, não há dúvidas de que se sairá muitíssimo bem.











