
Quando a falta de criatividade é evidente.
Spoilers Abaixo:
Quando duas séries do mesmo estilo existem em um mesmo canal, é natural que existam semelhanças na maneira como as histórias são contadas, até por conta do próprio estilo da emissora. Dessa forma, 90210 divide com Gossip Girl o posto de série teen em formato clássico da CW, e, desde sua estreia, compartilha com a irmã muitas situações parecidas, como figurinos, temáticas e até mesmo personalidade de seus personagens. Em quatro anos, isso nunca chegou a ser um problema. Até o momento em que as duas séries resolvem apostar no mesmo cliffhanger para prender a atenção do espectador, denunciando um sério problema de criatividade das duas séries, e prejudicando imensamente o impacto desejado.
O Holly Night, assim como Riding in Town Cars with Boys em Gossip Girl, busca encaminhar todos os arcos em andamento de forma a deixa-los em um ponto crítico que provoque a ansiedade no espectador para os próximos episódios, em 2012. Assim, tramas como a de Annie, que faz de tudo para recuperar o colar de Marla comprado por Jeremy, são intensamente exploradas, para serem interligadas com a de Liam, que ganha grande importância aqui. Além disso, Navid dá mais um passo em busca de ver seu tio Amal preso e poder voltar para Silver, mas a garota já parece ter seguido em frente. E Naomi, após finalmente conquistar a amizade de Holly, se vê em um grande problema ao descobrir que Rachel é a mãe da nova amiga.
Um dos pontos que 90210 parecia ter abandonado e agora volta a explorar é o crescimento de Naomi como pessoa, agora abordado em situações profissionais, com a garota finalmente trabalhando seriamente, procurando deixar de ser uma “garota mimada de Beverly Hills”, nas palavras de Rachel. Assim, o roteiro é feliz em estabelecer um interessante contraste com as reações de Holly ao fato de perder o estágio para sua rival declarada, uma vez que as atitudes da garota se mostram exatamente como as de Naomi anteriormente, procurando evidenciar a rápida evolução da nova estagiária. Além disso, a relação da garota com Austin também sofre um forte abalo, que culmina na união entre o rapaz e Holly, procurando, novamente, evidenciar a infantilidade das pessoas que cercam Naomi atualmente.
Já a trama de Navid, a de maior potencial na série na atualidade, parece cada vez mais caminhar para um rumo romântico, desperdiçando a oportunidade fazer o personagem crescer com conflitos sem propósito sobre Silver. Por isso, quando o rapaz é brutalmente agredido pelos comparsas de Amal, o roteiro prefere abordar os sentimentos dele pela ex-namorada, que, convenientemente, apenas ouve que ele gosta de Kat. Exatamente por escancarar os dedos dos roteiristas, a situação jamais consegue tornar-se natural, mostrando-se apenas como um recurso para que Silver decida ficar definitivamente com seu professor de Literatura, e para que Navid tenha um pequeno romance com Kat. Assim, a trama que prometia trazer ótimos momentos para a série se perde em mais um irritante rodízio de casais, marca característica de 90210.
Veja bem, o problema não é a existência de triângulos e conflitos amorosos, que são praticamente obrigatórios em séries do gênero, e muitas vezes funcionam apropriadamente. O que atrapalha o desenvolvimento das histórias é o excesso desse tipo de situação, que muitas vezes não respeitam coerência alguma ou são desenvolvidos de maneira repentina e com o único propósito de inserir mais um romance na série. 90210 insere-se no grupo de produções que pouco se importa com o andamento de suas histórias, preferindo sempre abordar uma infinidade de casais ao mesmo tempo, acreditando agradar seu público dessa forma, o que não acontece.
Voltando ao episódio, temos o desenvolvimento do fraco arco de Dixon, ainda desejando ser um sucesso no mundo da música. Apesar de esse plot não ter força alguma desde o momento que foi introduzido, logo no começo da temporada, em O Holly Night o vemos ganhar um contorno interessante, procurando fugir do que foi abordado no ano anterior, com Ade. Aliás, o rapaz toma uma atitude exatamente oposta à da namorada, ao preferir seu relacionamento à sua vida profissional, convencendo-a a fazer uma parceria com ele apenas pelo apreço à música, sem buscar dinheiro nem fama. Esse é um exemplo de um casal que se forma de uma maneira interessante, assim como a maioria dos romances que envolvem Ade, justamente pelo fato de a personagem acrescentar algo a mais do que simples melodramas exagerados.
Ainda sobre Ade, é interessante ver o roteiro voltar a abordar a filha abandonada por ela. É verdade que isso já foi citado em outros momentos e a série nunca chegou a de fato desenvolver essa história, mas quando a garota teve a criança, ainda na primeira temporada, era evidente que esse arco deveria ser retomado depois, em um longo prazo. Agora me parece o momento correto para que essa história reapareça, ainda mais pelo fato de Ade não possuir grandes possibilidades de histórias no momento, dados os problemas de relacionamento com a maioria dos personagens. No entanto, os roteiristas precisam tomar cuidados com certas incoerências. Em certo momento, Ade afirma ter desistido da criança por estar desejando ter uma carreira musical, o que, àquela altura, jamais ocorreu. À época, ela ainda desejava ser uma atriz famosa, além de possuir um grave problema com drogas, que a motivou a desistir da filha. O amor pela música só nasceria na segunda temporada, juntamente com o sem propósito affair lésbico da garota.
Finalmente, chegamos ao arco que envolve Annie e Liam. Novamente, os roteiristas investem em um romance entre os dois, mas, nesse momento, apenas para que a garota finalmente tome uma posição e resolva seus problemas definitivamente. É verdade que o desfecho desse arco se dá de maneira excessivamente simplória e óbvia, forçando uma série de aspectos, como o perfeito discurso auto-incriminatório de Jeremy, ou a previsível descoberta de Liam sobre o que Annie faz para ganhar seu dinheiro. Além disso, a maneira que os roteiristas encontram para encerrar seu arco parece desperdiçar tudo que foi introduzido nos episódios anteriores, resolvendo de maneira muito rápida os problemas financeiros de Annie.
Mas é o desfecho de O Holly Night que prejudica todo o andamento do episódio. Embora a cena do acidente de Liam seja muito melhor construída que o ocorrido em Gossip Girl, a falta de originalidade da série (ou o fato de ser exibida depois, pelo fato de nunca sabermos quem copiou quem) prejudica a espontaneidade da situação, reduzindo consideravelmente o impacto da cena. Além disso, é evidente que Liam não morrerá, mas que sua carreira de modelo ficará inevitavelmente prejudicada, como a câmera centrada em seu rosto ferido faz questão de evidenciar.
Assim, 90210 prejudica seu final de ano com um episódio que jamais consegue trazer o impacto necessário, mesmo que seja executado de maneira correta durante a maior parte de seu tempo. É o preço que se paga por não haver originalidade.













