RuPaul finalmente ouviu o clamor dos fãs e apresentou uma premiere que trouxe de volta quase tudo de bom dos anos de ouro da corrida.
Os fãs de RuPaul’s Drag Race sabem que a corrida teve seu período mágico. Esse período é ainda mais perceptível em retrospectiva. Sabemos que até o ano 6, o reality foi quase uma unanimidade. E foi também a última temporada sem grandes mudanças estruturais. Na temporada 7 o Untucked perdeu seus cenários separados e passou a ser feito num cenário fixo; além das finalistas terem começado a ter que preparar lipsyncs para apresentar no dia da coroação. A temporada 8 manteve esse sistema.
Na temporada 9 RuPaul incluiu a batalha de lipsyncs na final; e diante do sucesso da apresentação de Sasha Velour, o twist permaneceu na grade por vários anos. Outras mudanças foram aparecendo no meio do caminho; como salvamentos por causa de barras de chocolate ou tanques de água; como o sistema inútil de rankeamento; como os talent shows (desgastados pela repetição de dublagens); como as mudanças de ordem em desafios; como o acréscimo de temas no Snatch Game… e como tantos outros.
A última vez que uma queen foi eliminada REALMENTE no primeiro episódio foi na temporada 11 (pobre Soju). De fato, essa foi a melhor de todas as mudanças. Sempre admirei a maneira como Ru se esforçou para dar às queens muitas oportunidades de exposição; e os twists que impediam as eliminações na primeira semana eram uma forma generosa de dar mais uma chance a todas elas. Não precisamos do exagero da temporada 13 (quando a primeira eliminação foi só no episódio 4); mas o adiamento da eliminação na primeira semana me parece bastante justo.
Com o passar dos anos, a corrida foi acusada de saturar a própria fórmula, o que gerou um inevitável movimento de apreciação pelas raízes rústicas e quase amadoras das primeiras temporadas. É evidente que isso jamais seria possível mesmo que a produção quisesse. Foi a própria Drag Race que reajustou os códigos da arte drag no mundo; o que sempre foi, enfim, uma de suas maiores conquistas. Mas, parar de futucar na estrutura dos episódios era perfeitamente possível; e para nossa surpresa, a estreia da temporada 18 trouxe de volta satisfatórios elementos desses tempos de outrora.
Para começar, a apresentação do cast foi do jeitinho que a gente gosta: uma por uma; frase de efeito; comentários das que já entraram. E o cast trouxe outra surpresa muito festejada: vários nomes veteranos no cenário drag; e não um monte de queens jovens usando a palavra fierce para defender seu posicionamento unicamente fashion. A produção foi atrás de nomes com anos de carreira; com pontos de vista artísticos bem definidos; e com o plus de ainda terem alguns potenciais graus de “parentesco” entre si. A família Dion promete (e Athena me soou como o destaque desse grupo).
Do workroom fomos para o mini-challenge; que não era fotográfico, mas tinha a mesma premissa. As participantes estavam inspiradas e RuPaul se divertiu horrores. A próxima boa notícia foi o desaparecimento do talent show, que começou como uma alternativa genial para que conhecêssemos melhor as queens; mas que com o tempo virou um festival de lipsyncs de faixas repetitivas sobre ser fierce, fish, that bitch. Voltamos ao delicioso desafio de costura com material não-convencional.
Começando pela já mencionada Athena, suas 25 aulas de costura pelo menos a salvaram do bottom, mesmo que seu look não fosse exatamente maravilhoso. E ela vinha tentando a corrida por inacreditáveis 14 anos. Kenya Pleaser não teve a mesma sorte. Kenya passa seus dias personificando Lizzo (e ela realmente se parece com Lizzo), mas esqueceu de pegar materiais adequados para costura. Esse é um vacilo que merece punição. Curiosamente, ao resgatar os erros de Lalari num desafio semelhante, Nini Coco conseguiu a vitória.
Jane Don’t não fez um look que me agrada pessoalmente, mas construiu muito bem todas as peças que se dispôs a fazer. Ela não fez alarde sobre si, o que não aconteceu com Discord Addams, que JURAVA que era muito mais maravilhosa do que realmente era. Mia Starr se anunciou como a dançarina das turnês… e por enquanto ela é só isso mesmo. DD Fuego causou uma má impressão ao fazer questão de dizer – mesmo com esse nome – que não era uma “latina cha cha cha”.
Foi engraçado ver o programa se esforçando para não chamar Athena de “vó “ de Juicy Dion. Ficou claro que essa relação pode ser um problema para elas, sobretudo porque Athena já demonstrou incômodo com algumas “apropriações” de títulos por parte da “neta”. Juicy não foi bem, mas Vita VonTesse Starr (que não parece ter nenhum parentesco com Mia) arrasou com o look todo feito de umbrellas.
Embora eu acredite que Athena e Discord tenham uma energia vilanesca imediata, foi Briar Blush quem entrou se esforçando muito para ser a nova Plane Jane. Sua oposta era Mandy Mango, uma queen que aparenta ser gente boa, mas que me apavorou com a ideia de me fazer ficar uma temporada inteira ouvindo ela falar sobre mangas. Já Ciara, Darlene e Myki ficaram na coluna do meio nesse episódio.
E foi tudo aquilo que amamos… Tivemos a queen que acha que arrasou e deveria estar no bottom; tivemos a queen que sempre costurou e se deu bem; e a que não costurava e se deu mal. O bottom foi justíssimo e mesmo salvo, foi julgado por uma bancada ao menos mais disposta a dar apontamentos sobre a passarela. Cardi B, aliás, foi uma jurada muito boa; incisiva e ainda charmosa. Depois de um lipsync em que Vita claramente não sabia a letra, Nini venceu e levou para casa o primeiro cash prize da temporada.
Enfim, apesar de não termos tido uma eliminação, a premiere dessa temporada foi familiar, gostosa de assistir e cheia de potencial. Foi como voltar aos bons tempos em que um bom elenco era só o que a corrida precisava para alegrar nossos dias. Quem diria… parece que a Drag Race precisou chegar à maioridade para verdadeiramente amadurecer.
Untucking…
- MORTO com Rupaul errando o nome de Alyssa Edwards e mantendo o deslize na edição.
- Admirável a postura de Cardi B ao levar as queens que fazem seu cabelo e makeup junto com ela para o Untucked.
- Surpreendente a história de Jane ter sido ensinada pelo pai a costurar e hoje em dia ser rejeitada por ele.
- Bob é sempre hilária, mesmo aparecendo como participação especial.
- Relembrando Ornacia.
- Arriscando um Top 4, assim, logo de cara: Athena / Vita / Jane / Kenya (num arco de redenção).















