Depois de vender a alma para vender merchandising, a Globo começa a ameaçar a integridade dramatúrgica da competentíssima obra de Aguinaldo Silva. 

Quem acompanha TV aberta sabe que nos anos pós-pandemia algumas importantes mudanças aconteceram na maneira de se consumir e produzir conteúdo nesse setor. O crescimento da oferta do streaming levantou discussões sobre métodos de construção narrativa; e a massividade das linguagens verticais (nos celulares de todos nós) pressionou as empresas a se encaixarem nesse modelo, mesmo que isso significasse “trair” compromissos artísticos de outrora. 

Os discursos são sempre os mesmos: as empresas de TV aberta justificam as mudanças de linguagem como uma simples aderência aos “novos costumes”; apoiando esse argumento na inevitabilidade de precisar manter os canais funcionando. Se a correnteza vai para lá, todos seguiremos na mesma direção. E argumentando dessa forma fica parecendo que a luta pela permanência da qualidade como característica fundamental de qualquer obra é só “pirraça” de quem se recusa a “evoluir”. 

Vale Tudo foi uma novela toda criada para servir aos interesses verticais. Ela tinha enredos, abordagens, métodos calculadamente estabelecidos para servir de conexão com o urgentismo das redes. O desenvolvimento dos personagens não era importante; a inteligência dos enredos não era importante; o respeito ao original não era importante… O mais importante era vender, vender, vender… E aparecer na internet sendo escarnecido, ridicularizado. 

Nos números, funcionou. Para a reputação da empresa, nem tanto. Mexer em enredos nunca foi uma novidade na teledramaturgia, mas Vale Tudo foi planejada para servir aos interesses comerciais, garantindo assim, que jamais precisaria se preocupar com intervenções. A chegada de Três Graças inevitavelmente representou uma queda na audiência, justamente porque o público interessado em memes e reviravoltas imediatistas não viu razão para seguir acompanhando a nova novela. 

Começaram, então, a pipocar uma série de notícias de que diante da baixa audiência, a empresa já estaria traçando estratégias de “melhorias”. Estratégias essas, que quando estão no campo apenas da divulgação ou antecipação controlada de determinadas reviravoltas, são absolutamente naturais. O medo de todo noveleiro, no entanto, é passar pela experiência de ver deformada uma obra que precisa de respeito em sua boa estrutura principal. Mexer demais pode resultar em desastres como os vistos em Babilônia, por exemplo. 

Agraciados

Bastidores de cena com Luiz Henrique Rios (diretor), Gerluce (Sophie Charlote), Joaquim (Marcos Palmeiras), Viviane (Gabriela Loran) e Josefa (Arlete Salles).

E o fato é que Três Graças precisa de muito pouco no que diz respeito a ajustes. Talvez o maior deles (o núcleo do porteiro) já tenha sido sinalizado. A novela é uma surpresa em seu compromisso tão absoluto com a qualidade de seu próprio desenvolvimento. Aguinaldo Silva, que antes de sair da emissora por algum tempo tinha entregue uma sucessão de exageros sem charme como em Duas Caras e Fina Estampa; apareceu de volta com uma trama tão absolutamente controlada e bem planejada, que chegou a soar como uma resposta direta ao desastre da antecessora. 

Com pouco mais de 40 capítulos no ar, a história da heroina Gerluce foi se desenrolando bem calmamente, reforçando primeiro quem são os personagens e explorando o meio em que eles estão inseridos. Nada de grandes acontecimentos nas primeiras semanas… Tudo nesse começo foi sobre estabelecer laços e construir tensões. Aguinaldo trouxe de volta a experiência de fazer o público primeiro gostar de quem está acompanhando, para só então ver as vidas daquelas pessoas sendo transformadas pelo “evento catalisador”. 

O evento em si é o roubo da estátua que dá nome à novela. O roubo aconteceu nos últimos dias; bem amador, do jeito que já era esperado. Foi executado por uma reunião de personagens que acrescentam por si só uma dezena de camadas ao enredo. A mentora, Gerluce, namora um policial honesto. Joaquim, o dono do transporte, é o pai que a rejeitou. Júnior, acusado de roubo por uma família rica, vai vender o fruto de seu verdadeiro assalto para essa mesma família. Mizael, o viúvo, combate luto com crime. E Viviane, a farmacêutica que se sente culpada, está apaixonada pelo filho de seu algoz. 

Até aqui, Três Graças não tropeçou. A lista de tensões que ela vai desenvolver é a garantia de que não há motivo para desviá-la de seu caminho. Os romances têm seus entraves lá no horizonte: o roubo que vai abalar Gerluce e Paulinho; Ferette que vai atrapalhar os filhos em suas relações; e até os romances que ainda vão acontecer se desenham calmamente, esperando a hora certa de acontecer. Aguinaldo tem orgulhado todos nós que esperávamos por abordagens sensíveis e inteligentes como as que vemos nas histórias de Leonardo e Viviane; e Juquinha e Lorena, por exemplo. 

A vilã Arminda começou a ser mais amplificada; o que já deixou a personagem mais crível. Esperamos o mesmo para Bagdá, que até agora ainda não mostrou o potencial de sua história. No que diz respeito à vilania “indireta”, Aguinaldo levanta muitas questões sobre Jorginho. O texto é tão bom que se constroi o tempo todo para mexer com nossas emoções e nos fazer acreditar na redenção não só dele como na de Joaquim. O caso de Jorginho é mais severo e seria um erro fazer Gerluce perdoá-lo. Mas, sua trajetória é sobre a filha e considerando a tentativa da Globo de ficar em bons termos com os evangélicos, é mais provável que o arrependimento de Jorginho seja real. Se ele for uma farsa, a fé de outro personagem que precise de redenção não será. 

Esse mesmo texto bom que foi mencionado antes, se encontra com a direção inspirada de Luiz Henrique Rios. Os closes rápidos foram mantidos, mas a fotografia de algumas sequências externas e a escolha por reflexos e perspectivas deixou a novela com uma identidade visual específica. Isso, em se tratando do horário das 21, tem sido um alívio. E o melhor: a direção de ator está lá, com todo mundo sabendo direitinho o que tem que fazer e que emoções transparecer e despertar. 

Estamos acompanhando um universo que foi atenciosamente desenhado. Precisamos deixar esse universo existir na jornada que ele preparou para si, sem a interferência de “parcas mercenárias”, que por interesses verticais, vão embolar vidas tecidas com o esmero dos verdadeiros artistas. Agora que temos uma “escultura” no ar, não a roubem de nós. Aonde ela está, já está servindo de “cura”. 

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