
Um episódio com a cara de House.
Spoilers Abaixo:
O elemento mais importante da vida de um ser humano é sua família. A forma como os pais de uma criança lidam com ela é invariavelmente determinante para a formação do caráter dela, para o bem ou para o mal. Assim, as atitudes de um pai ou de uma mãe praticamente definem o que uma pessoa é. O que não significa que determinado acontecimento acarretará exatamente na mesma situação. Para uma única causa, existem diversas consequências, o que explica a complexidade emocional do ser humano e o porquê de até hoje não haver um consenso no âmbito da psicanálise. Baseando-se nessa inevitável variância, House constrói Parents, facilmente o episódio mais cuidadosamente desenhado da temporada.
O episódio conta a história de Ben, um aspirante a palhaço que deixou de sentir suas mãos e pernas enquanto se apresentava (desastrosamente) em uma festa de aniversário, o que o leva ao Hospital Princeton-Plainsboro. Enquanto isso, Taub passa por problemas familiares, uma vez que Rachel e seu novo namorado querem levar uma de suas filhas para Portland, o que desperta a atenção de House sobre o fato de todos os pais arruinarem seus filhos de uma forma ou de outra. Adams não concorda com a afirmação, o que faz o médico insistentemente tentar descobrir algo de errado com os pais dela. Já Wilson consegue ingressos para uma importante luta em Atlantic City, e House tenta de todas as maneiras convencer Foreman a liberá-lo.
Sem dúvidas, o aspecto mais interessante de Parents é o fato de o roteiro conseguir trazer à tona uma discussão relevante, sem precisar apelar para discursos excessivamente moralistas ou politicamente incorretos, abordando um assunto importante de maneira honesta e realista. Assim, mesmo diante do habitual pessimismo de House diante de uma situação que envolve relacionamentos humanos, a ideia não se torna inconsistente, lembrando antigas discussões sobre outros assuntos em temporadas anteriores, quando o protagonista possuía teorias embasadas, ainda que negativistas. Dessa forma, o episódio consegue fazer exatamente o que The Confession falha, que é trazer de volta um elemento importante para a série.
O que contribui para que o episódio consiga atingir seu objetivo é o fato de o paciente possuir uma importância muito maior para o roteiro que o de semana passada. Curiosamente, isso não se deve tanto pelas participações de Ben, mas pelas atitudes de sua mãe e de seu pai, que jamais são reveladas em sua totalidade até os instantes finais do episódio, o que facilita para o roteiro desenvolver a atmosfera de dúvida em torno da possibilidade de os pais sempre estragarem os filhos ou não. Aliás, o desfecho do caso mostra-se natural e interessante, conseguindo trazer o impacto necessário para que esse tipo de final funcione apropriadamente, confirmando a teoria de House sobre pais, além de explicar o fascínio de Ben pela profissão de seu pai com uma estranha Síndrome de Estocolmo, mostrando que a mãe do rapaz se equivocara ao afirmar que o garoto jamais apresentar traumas.
Mas, novamente, quem representa os momentos mais interessantes do episódio é Adams. Muito disso se deve ao fato da jovem médica ainda ser um grande mistério para House, que não consegue entendê-la da mesma forma que todos os outros integrantes de sua equipe. Neste episódio e no anterior, repare como o chefe sempre é preciso ao fazer observações sobre Taub, Chase, e Park (apagadíssima aqui), mas nunca acerta da primeira vez com Adams. Isso já se caracteriza logo na primeira cena com a equipe, quando House não precisa de mais que segundos para ter certeza de que Taub se envolvera em uma calorosa discussão, enquanto precisa do episódio inteiro para desvendar sua nova empregada. É verdade que a solução do plot dela acaba soando muito simples, mas é interessante acompanhar as motivações da médica para trabalhar em uma prisão ou com House. Além disso, a cena em que ela descobre a armação do chefe, contando uma série de histórias absurdas sobre seus pais para Chase indica que a inteligência dela é um diferencial.
Já que falei de Chase, é importante ressaltar o quanto o personagem cresceu ao se tornar o integrante mais antigo da equipe de House. Com a ausência de Foreman, o roteiro faz questão de aproximá-lo profissionalmente do chefe, ao ponto de torná-lo cúmplice de armações como a citada acima. Além disso, os diálogos dele com Adams sempre tem um tom mais íntimo que com qualquer outro personagem, o que mais uma vez caracteriza um constante processo de identificação dos dois personagens.
Mas é a trama de Taub que serve como raiz para o desenvolvimento de todas as outras. Embora o personagem possua muitas falhas de construção, é inegável que o plot dele seja importantíssimo para o episódio. E o roteiro é eficiente em conferir relevância ao personagem exatamente pelo fato de a trama jamais parecer deslocada das demais, fazendo com que o espectador finalmente se importe com o que vê. Por isso, embora a reflexão sobre abandonar ou não uma das filhas seja um pouco superficial, a discussão central, sobre as atitudes que um pai deve tomar, ouvindo o coração ou a razão, atingem em cheio a proposta do episódio. Assim, o diálogo final entre Taub e House exibe uma bela quantidade de significado, voltando a mostrar a sabedoria ácida que o protagonista sempre teve.
Enquanto todo o episódio gira em torno da importância dos pais, dois pontos se mostram como pontos fora da curva, embora só um deles pareça deslocado. O primeiro é a dinâmica entre House, Foreman e Wilson sobre a luta em Atlantic City. Embora não seja correlato à discussão central, a história tem como intenção mostrar a nova estrutura do hospital, procurando afastar Foreman da figura que Cuddy representava. Assim, o ex-funcionário de House incorpora um chefe muito melhor do que era como integrante da equipe de diagnósticos, pelo fato de conhecer melhor seu empregado-problema. Por isso, o desfecho da história, com House e Foreman indo juntos à luta, enganando Wilson, caracteriza algo que nunca se veria com Cuddy como chefe.
Já a trama que mostra House na clínica com o paciente que insiste ter diabetes não consegue trazer nada de novo ao episódio. É verdade que quando o protagonista está nessas situações o roteiro sempre consegue acrescentar momentos de alívio cômico, mas aqui esses momentos não eram necessários devido à natureza do episódio, o que acaba prejudicando esses poucos minutos.
Assim, House se recupera do irregular episódio anterior e apresenta uma história coesa, coerente, e cheia de alternativas, além de concluir a introdução do novo ambiente do hospital. Se a temporada permanecer com episódios como esse, com certeza será no mínimo agradável.













