
Gossip Girl parece decidida a voltar às origens.
Spoilers Abaixo:
É inegável que a primeira temporada de Gossip Girl seja de grande qualidade, levando-se em conta a proposta da série. Retratar a vida de uma elite individualista e sem escrúpulos usando como base a principal característica deles próprios, a fofoca, gerou uma sequência de ótimos episódios, bem como a existência de personagens de caráter dúbio, como Chuck e Blair, além de outros mais honestos e sinceros, como Dan, que eram utilizados para uma espécie de balanceamento de personalidades. Mas, com o passar dos anos, os responsáveis pela série passaram a tomar más decisões, influenciando diretamente na qualidade dos episódios, distorcendo inclusive sua proposta inicial. Agora, ciente de que o caminho que tomava não a levaria a lugar algum, a série ameaça construir tramas que retomem a atmosfera da primeira temporada, ainda que não consiga fazê-lo de maneira completamente consistente.
Baseando-se nessa ideia, existe The Big Sleep No More. O episódio divide-se em um menor número de focos do que o anterior, mostrando uma Blair paranoica com a certeza de o pedido de desculpas de Chuck fazer parte de uma armação para que ela duvide de seu futuro com Louis. Mas o rapaz parece realmente mudado, promovendo festas beneficentes, e salvando animais, o que faz a garota conspirar para provar (para ela mesma) que seu antigo amor jamais se tornaria uma pessoa boa. Enquanto isso, Diana luta para convencer Serena a ajudá-la a derrubar a Gossip Girl, e conta com a ajuda de Charlie para isso, que também precisa lutar contra as investidas inapropriadas de Nate. Já Dan está desaparecido após faltar às sessões de autógrafos em duas cidades, o que preocupa sua agente e Rufus.
Diferente de I Am Number Nine, o episódio dessa semana procura avançar em um número reduzido de tramas, evitando a bagunça narrativa criada pelo antecessor. Dessa forma, não é surpresa que o resultado tenha sido coerente e sem causar nenhuma confusão no espectador, que pode apreciar o desenvolvimento das histórias feito de maneira menos apressada e artificial, tornando todo o roteiro mais fluente e compreensível. Além disso, é interessante como o episódio se aproveita dos momentos atuais das tramas para desenhar a maneira como elas são abordadas, conferindo maior coesão ao texto.
Quem mais se aproveita desse recurso do roteiro é Dan, que mal aparece no episódio. Mas, ao contrário de outras ocasiões, a série parece ignorá-lo com o único propósito de fazer o espectador sentir sua ausência, evitando explorá-lo em demasia, o que faria todo o processo pelo qual o personagem passa se tornar incoerente e exaustivo. Aliás, embora os roteiristas tenham desperdiçado uma boa trama ao encerrar tão rapidamente o arco que envolve o livro de Dan, é interessante acompanhar as consequências desse acontecimento inesperado na vida do jovem autor. Por isso, não é errado afirmar que Dan é o único personagem que possui uma evolução tratada de maneira honesta pela série.
O que não se pode dizer de Chuck. É verdade que os primeiros episódios da temporada se dedicaram a mostrar a ausência de sentimentos do personagem, para a seguir mostrá-lo disposto a fazer sua vida mudar de rumo, a ponto de consultar uma terapeuta para tal fim. No entanto, tudo que a série fez foi exibir as motivações do personagem, sem jamais conduzir a mudança de fato, repentinamente tratando-o como um homem mudado. E embora essa transição abrupta tenha um propósito narrativo, não deixa de caracterizar um momento de incoerência concebido pelo roteiro de Gossip Girl.
O verdadeiro motivo de Chuck sofrer esse desenvolvimento apressado é justamente para que o espectador acompanhe Blair em sua dúvida sobre a veracidade de tal fato, tornando-a mais real. Assim, a garota novamente surge como um dos destaques do episódio, após duas semanas desperdiçada pela série. Não é coincidência que isso ocorra exatamente no momento em que Louis não dá as caras, o que é mais um fator que mostra que o príncipe não faz mais que arrastar bons personagens para tramas sem propósito. Dessa forma, Blair aparece mais solta para tomar atitudes que não necessariamente envolvam o futuro marido, o que torna a personagem infinitamente mais divertida. Por isso, a paranoia apresentada pode ela, bem como sua obsessão pelo comportamento de Chuck, não só caracterizam momentos de interessante alívio cômico como comprovam a teoria dela própria de que isso a desviaria de seu pensamento em seu casamento, a ponto de adiar uma semana de relaxamento pré-natal.
Mas a dinâmica envolvendo Chuck e Blair, apesar de funcionar na maior parte do tempo, também tem seus problemas. Primeiramente porque o roteiro de Gossip Girl insiste em tornar a garota extremamente infantil em muitas de suas atitudes, como no patético momento em que Blair despista Dorota insinuando a presença de um famoso diretor polonês no evento. Além disso, a própria construção da história confere um ar de certa previsibilidade, que jamais consegue ser contornado apropriadamente, exceto no momento em que ocorre o plot twist, quando o episódio revela que a atitude de Chuck fora premeditada e tomada para que Blair se convencesse de que o rapaz jamais se tornaria uma boa pessoa. Aliás, é importante destacar que a série vai bem ao não tornar esse desfecho absurdo como costuma fazer com reviravoltas importantes.
Independente dos acontecimentos envolvendo boa parte dos personagens está a trama que caracteriza a tentativa de Gossip Girl em voltar às origens. Ao contrário dos primeiros episódios, a maneira com que Diana controla todos ao seu redor parece muito menos artificial, e a personagem começa a ganhar contornos mais reais. Por isso, a forma como ela manipula Serena e Charlie para que as duas façam exatamente o que ela quer torna-se um momento interessante, principalmente pelo fato de a construção dessa situação se dar de maneira muito mais natural do que nos primeiros episódios da temporada.
Apesar disso, é preciso apontar dois pontos que podem trazer problemas nos próximos episódios. Um deles é o fato de finalmente estar chegando o momento da identidade de Charlie ser revelada. Era fato sabido que a garota era uma bomba-relógio, e agora a série precisa lidar com o péssimo arco criado pela temporada anterior. Além disso, o envolvimento do avô de Nate com Diana explica de maneira desesperada o mistério que envolvia a jornalista, caracterizando mais uma tentativa dos roteiristas de causar impacto a qualquer custo. E note que, mesmo com esse tipo de abordagem, o personagem de Chace Crawford não consegue se sobressair, permanecendo escondido mesmo em uma trama que o trata como elemento principal.
Por todos esses motivos, The Big Sleep No More se mostra como um episódio cheio de altos e baixos, que evidencia muitas boas intenções, mas muitas outras falhas de execução. Com certeza existem tramas com um certo potencial de desenvolvimento. A série só precisa para de concentrar-se na elaboração de cliffhangers para conduzir suas tramas de forma mais objetiva.













