
Boardwalk Empire parece que anda, mas no fundo, só contorna.
Spoilers Abaixo:
Ninguém é infalível. Tão pouco estamos livres de cometer erros ou não superar expectativas. No mundo artístico, existe um pouco dos dois lados dessa moeda. Há os que estarão sempre fadados ao fracasso, e os que sempre estarão protegidos por uma aura de sucesso. Com alguns diretores sempre foi e sempre será assim. Independente do que Woody Allen levar às telas, ele sempre estará protegido pelo legado de seu nome. Assim como alguns atores como Meryl Streep (que segundo o Cam de Modern Family poderia ser escalada para viver o Batman, e mesmo assim estaria bem) e até os nativos como Selton Melo e Wagner Moura.
Algumas séries também compartilham dessa impressão. É bem verdade que muito mais perante o público que perante os estúdios. Aaron Sorkin é unanimidade, mas já foi cancelado. As qualidades dele são muito parecidas com as de Terence Winter, Matthew Weiner e até mesmo com Allan Ball, antes de True Blood. A força de suas produções reside no texto muito mais que na ação. E mesmo esses autores, e suas séries tão bem revestidas de elegância, às vezes falham.
O nome dos dois maiores erros dessa temporada de Boardwalk Empire são: Nelson e Margaret. E sim, leitores, Boardwalk Empire também falha. Está na hora de deixarmos pra trás nossa necessidade infantil de defender causas infalíveis e começar a entender que no erro reside uma outra possibilidade de caminho que pode acabar sendo positiva. Muitos de vocês tendem a não compreender que apontar falhas não diminui meu apreço pela série, mas apenas indica que estou cumprindo meu dever corretamente. Nenhum diretor, autor, ator, atriz, filme, álbum ou série é realmente infalível. E se for pra jogar confetes indiscriminadamente, para que dar aos textos o nome de review? Era só chamar de Tributo e estava tudo certo.
E quando afirmo que os maiores problemas são Nelson e Margaret, acredito não estar sozinho nessa impressão. Não acho que seja coincidência que os dois tenham sido explorados essa semana de modo a concluir ciclos e iniciar outros. Os roteiristas sabem que levaram os personagens a destinos dos quais não podem mais lamentar. É preciso recorrer ao bom e velho “momento de ruptura”, e começar tudo de novo.
Não posso dizer que esteja feliz com o que fizeram com Nelson, mas que esse trabalho de reconstrução do personagem estava evidente, isso estava. Começou na semana passada, quando ele foi desmascarado pela mulher. Lucy teve a criança, deu seu último suspiro de falta de caráter e foi embora. Nelson recebeu a tal proposta de Nucky e tinha dois caminhos. Sua decisão em entregar seu dossiê para a personagem de Julianne Nicholson (Ally McBeal) funciona como uma resposta velada. E é aí que eu pergunto: o que será a figura de Nelson daqui pra frente? Nenhuma, espero. Não me surpreenderei se Nicholson permanecer no elenco para exercer o papel que deveria ter sido de Nelson, e em algum momento, deixou de ser. O personagem se descaracterizou completamente. Perdeu toda sua função na trama e entregou os pontos definitivamente. Para ele agora, a ausência plena, ou um novo caminho. Qualquer coisa que façam com ele a partir daqui, terá sido um novo caminho. Zerou tudo. Se Nelson retornar semana que vem, será para uma nova existência dentro do calçadão de Atlantic City.
Para Margaret, a tentativa de restabelecer os caminhos foi a mesma. Mas felizmente ou infelizmente, não sei, não vimos dela nada que já não esperássemos. O retorno para sua família foi apenas para mostrar que ela fugiu das consequências de seus próprios atos. E isso não era nada que já não tivéssemos entendido dela. Sobretudo porque ela volta para casa pra continuar tomando as mesmas decisões. O capítulo de seu passado era um bom cliffhanger, mas não tem mais nenhuma relevância depois desse episódio. Margaret encerra essa questão, para então dormir com o capanga do marido e repetir a mesma seqüência de eventos que já sabemos qual é.
Sobre Jimmy não há nem o que dizer. Ele não quer matar Nucky, quer superá-lo. Quer ser Nucky diante de Nucky. Por isso arrumou logo um jeito de subverter a decisão que teve que tomar perante seus aliados. E dá-lhe cliffhanger inútil, já que sabemos que Nucky não vai morrer mesmo e esse será só mais um atentado mal sucedido. Aí alguém vai dizer: mas grandes chefões do crime sempre sofrem atentados. Sim, sofrem. Mas acho que a invulnerabilidade de Nucky depõe conta ele dentro desse jogo. Ao contrário da máfia, em que os grupos que controlam as áreas mantêm distância e respeito (o que ajuda a sobrevida de seus líderes), Nucky parece ser um homem contra trezentos. E mesmo assim, a simples anulação de sua vida não funciona.
Começo a não entender pra onde vamos. O destino de Nelson foi indefinidamente neutralizado. Margaret ficará às voltas com seu adultério e parece que é só o que ela tem a nos oferecer. Lucy não tem porque voltar a não ser pra dizer que quer seu bebê de volta, o que espero por Deus, que ela não faça. Jimmy precisa convencer um monte de aliados que será muito mais divertido ver Nucky fracassado que morto, e esse é o único caminho certo para ele. Mas se toda temporada forma um gráfico de tensão e expectativa, não consigo enxergar além dos contornos que adornam os mesmos meios-passos de sempre. Sinceramente, aquele tiro em Nucky no final foi absolutamente tolo se levarmos em consideração que não é a primeira vez e que nenhuma mudança significativa vai resultar desse embate.
Aliás, essa é a palavra: significância. Eli e Nucky tem um grande embate no episódio anterior. Deveria mudar tudo, mas o roteiro seguinte contorna a situação, e não acontece nada. Margaret tem um passado suspeito. O roteiro contorna os efeitos… e não acontece nada. Richard pensa em se matar, o roteiro contorna tudo… e ninguém morre. Nelson fica louco, surta, mata o parceiro, odeia Nucky mais que tudo, mas o roteiro contorna tudo e no fim das contas, ele está parado na sala de Nucky ponderando sobre propostas. Contorno, contorno, contorno… Ótimo se a razão de tantos contornos for a explosão de tudo no finale, mas até lá, como a gente faz pra continuar atento à série? Se apega a aura de extrema competência dela? Se conforta nos nomes de peso do elenco e produção? Se agarra na estrutura elegante da narrativa e esquece o resto? Desculpem, mas eu não consigo. Toda semana eu fico esperando que me surpreendam, que me façam perder o fôlego, e isso não acontece. Eu assisto tudo na boa, percebo que nada mudou de verdade (e quando mudou foi para neutralizar os efeitos da ação), desligo a TV e fico torcendo pra semana que vem, não ter que criticar mais uma das séries que nunca podem ser criticadas por ninguém.













