
Quando menos se espera, The Mentalist tira um episódio desses da cartola.
Spoilers Abaixo:
Serial killers são seres interessantes por natureza. Diferentemente de outros tipos de assassinos, são muito mais meticulosos na concepção de uma cena de crime, procurando evitar da maneira mais eficiente possível que a equipe responsável pela investigação perceba pistas que levem a ele. Exatamente por esse motivo, costumam render personagens naturalmente complexos, que rendem diálogos ricos em significado. No caso de The Mentalist, isso se torna ainda mais natural, uma vez que a série já se pauta na existência de um psicopata perigoso à solta. Por isso, Blinking Red Light é um episódio que se deleita ao explorar as diversas possibilidades abertas por serial killers, e torna-se um raro exemplo de um falso filler imposto pela série.
Após o assassinato de Michelle Karp, a equipe da CBI é chamada para investigar a cena do crime, e o cuidado do criminoso com a morte da vítima faz com que Jane suspeite, corretamente, do envolvimento de algum serial killer. Logo essa expectativa se confirma, e somos apresentado ao San Joaquin Killer (SJK), um meticuloso assassino que mata todas as suas vítimas (jovens garotas) exatamente da mesma forma, cortando de maneira cuidadosíssima suas gargantas. Assim, surge em cena o maior especialista nesse mesmo assassino, James Panzer, que trata o criminoso como sua obsessão, embora não tenha relação alguma com alguma das vítimas, o que desperta a curiosidade de Jane.
Dirigido por Simon Baker, o episódio evita cair nos mesmos erros da primeira investida de Baker como diretor, em Red Moon, na temporada anterior. Ao contrário disso, é feliz ao conferir um crescente clima de tensão oriundo da presença de um perigoso assassino. Por isso, a cena em que Lisbon desconfia das atividades de Richard Heibach, enquanto Van Pelt procura por evidências na casa deste torna-se uma das melhores que envolvem as duas personagens, justamente por permitir ao espectador acompanhar o desenvolvimento da tensão da cena. Além disso, Baker também acerta ao captar o luto e a tristeza dos pais da primeira vítima do SJK, Molly Meier, em uma cena que evoca um forte sentimento de ironia, ao som de What a Wonderful World.
Mas o fato de Baker assumir a direção do episódio não o afasta do centro de Blinking Red Light. Pelo contrário, Jane assume o controle de todas as ações, raramente permitindo que outros personagens consigam destaque. Rigsby e Cho, por exemplo, aparecem em tela em pouquíssimos momentos. Mas isso não torna o roteiro do episódio desbalanceado, por investir pesadamente em seu protagonista de forma coerente e sensata, o que estabelece um interessante equilíbrio entre Jane e a CBI, evitando que um atrapalhe ao outro como em outras situações.
Grande parte do destaque dado a Jane pelo roteiro se deve à presença de James Panzer. Primeiramente, por se tratar de um rival à altura para o consultor, mostrando-se sempre inteligente e manipulador, a ponto de passar a estudar sua própria fantasia. Aliás, o roteiro é extremamente feliz ao evitar que o episódio se perca em uma frustrante tentativa de descobrir quem é o assassino, evidenciando logo nos primeiros minutos que Panzer seria o serial killer. Aliás, dessa vez podemos perceber que a série não recai no erro de vomitar uma infinidade de suspeitos para descartá-los logo em seguida. Até Heibach possui uma importante utilidade para a resolução do caso, jamais desperdiçando tempo de tela em sua construção.
Para isso, o roteiro constrói um Panzer de maneira praticamente impecável. São raras as oportunidades que uma série tem de criar um personagem complexo em tão pouco tempo, e The Mentalist o faz de maneira extremamente competente, convencendo o espectador a cada minuto que Panzer representa um grande perigo. Além disso, concebe um personagem incrivelmente egocêntrico, incapaz de admitir não ser uma pessoa temível e inteligente. Justamente por essa vaidade, Panzer acaba se tornando um alvo fácil para pessoas com uma habilidade de observação acima do normal.
É assim que voltamos a Patrick Jane. Diferente dos primeiros episódios da temporada, as observações do consultor se afastam do lugar-comum, voltando a apresentar aspectos realmente relevantes, evitando recair em velhos truques utilizados por ele para manipular pessoas. Aliás, é exatamente quando o personagem procura explicitamente manipular Panzer que ele comete um de seus raríssimos erros, sendo vencido em seu próprio jogo, o que desperta um interesse ainda maior nele. Dessa forma, Jane se utiliza de hábeis jogos de câmera para pontuar suas observações e se certificar da culpa de Panzer. Além disso, o episódio se utiliza de diálogos ligeiros e interessantes entre os dois rivais para que Jane perceba o tamanho do amor de Panzer pelo SJK. E o roteiro o faz de maneira coerente, sem que o serial killer pareça desesperado em ser descoberto, mostrando apenas um excessivo conhecimento sobre o material de seu trabalho, mas sem jamais deixar escapar detalhes auto-incriminatórios. Por esse motivo, a real desconfiança de Jane vai muito além do simples fato de o jornalista possuir What a Wonderful World em seu iPod, e se pauta mais em observações pertinentes sobre a personalidade de Panzer.
O que nos leva ao desfecho do episódio, que explica o título do episódio. Em um intrigante diálogo em que Jane procura de toda forma encurralar Panzer para que ele de alguma maneira forneça algo que possa ser usado para incriminá-lo (que aliás lembra vagamente o fantástico terceiro ato de Frost/Nixon), o consultor afirma que o SJK cometerá um erro em algum momento, e olha para a câmera. Nesse momento, Baker é feliz ao encarnar um personagem com uma profunda e misteriosa dúvida, que logo se revela. Jane induz, claramente incerto sobre sua atitude, Panzer a cometer o mesmo erro que o protagonista cometera anos atrás, provocando o jornalista para que ele deboche de Red John, manipulando o egocentrismo do personagem ao extremo. É por isso que, ao entrar na cena de crime que conta com Panzer morto, Jane mal se surpreende ao ver a marca de seu poderoso inimigo no alto da parede, ignorando completamente o cadáver jazido ao seu lado.
É, sem dúvidas, uma maneira elegantíssima de encerrar um mistério da temporada, conferindo um desfecho poético para um excelente personagem.













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