Conversamos com a autora Lícia Manzo e o diretor Maurício Farias sobre o tiro no escuro de ir para o horário das 21 com uma primeira novela inédita que já está totalmente pronta.

A autora Lícia Manzo vive no momento um tipo de expectativa parecida com a que Manuela Dias enfrentou durante a pandemia. Manuela precisou interromper Amor de Mãe bem na hora da virada principal da novela, esperar muitos meses e contar o resto de sua história em meio a protocolos de segurança ainda muito severos e um esfriamento natural do público. Fez seu trabalho como funcionária e defendeu sua trama, negou mudanças drásticas (mesmo com o número de capitulos restantes diminuídos de 55 para 22) e seguiu adiante. Nós como espectadores, sabemos que com exceção de Dona Lurdes, pouco se salvou do final da novela.

A missão de Lícia é menos atribulada: ela escreveu Um Lugar ao Sol durante a pandemia, mas os capítulos foram sendo gravados de acordo com o possível, lentamente. No dia 8 de Novembro, quando a novela estrear, estará toda pronta. Se algo der errado apenas danças de edição poderão ser feitas e a primeira novela inédita em dois anos, pode servir como base para o futuro do setor de teledramaturgia da emissora. Será que o mercado está pronto para enfrentar uma obra fechada, algo que sempre foi uma das características mais distantes do folhetim?

A história de Um Lugar ao Sol, contudo, mirou no que é seguro; e isso não é à toa. Lícia Manzo foi autora de A Vida da Gente e Sete Vidas, duas novelas das 18 horas, muito discretas, embora muito elogiadas. Ela sempre trabalhou com temas familiares, relações fraternais e muitas sequências internas, basicamente textuais, o que também é bom para um tempo em que as cenas externas ainda não são sinal de segurança. Na hora de ir para o horário das 21, nada mais adequado que apostar no seguro: os gêmeos que trocam de lugar.

Cauã Reymond (que precisou gravar toda a novela fora de ordem e tem seu irmão como dublê) vai viver gêmeos que foram separados ainda crianças. Um ganhou muitas oportunidades e se tornou um fracasso como ser humano. O outro precisou lutar muito para sobreviver e nunca teve seu “lugar ao sol”. Renato, o que teve oportunidades e desperdiçou morre; e Christian, seu gêmeo que acabou de reencontrar, assume seu lugar. Assim, teremos a mudança de comportamento percebida pela família e pela noiva de Renato (vivida por Aline Moraes) e o luto da família e da amada de Christian (vivida por Andrea Horta), que acha que o moço morreu.

Em torno disso, um elenco estelar composto por Andrea Beltrão, Marieta Severo, Denise Fraga, Regina Braga, Marco Ricca, Ana Beatriz Nogueira e muitos outros, sustenta uma trama que falará também sobre alcolismo, bissexualidade, etarismo e será cercada do já conhecido cuidado textual de Lícia. A novela, contudo, está absolutamente completa e é assim que a autora das 18 horas chega ao ringue de leões do horário nobre.

Eu acho até um pouco desleal comparar essa novela com o que se fazia antes”, defendeu Lícia a respeito. “Foram 107 capítulos feitos durante a pandemia, 107 horas de teledramaturgia, acho que isso foi um heroismo. O ônus da novela estar toda pronta é que eu não consigo ver como o público vai reagir. Mas, o tempo de feitura foi essencial pra mim. Esse foi o bônus. A gente tá trabalhando num ritmo um pouco menos industrial e com isso o cálculo de tudo que pode ser problematizado também é maior. Eu pude ver 30 capítulos e isso também me ajudou a sentir algumas coisas enquanto tudo era feito”.

Maurício Farias, diretor da novela (e que não comanda nenhuma há mais de 20 anos), tomou a palavra para fazer mais uma defesa do formato: “Acho que há, por parte da imprensa e por parte do público a ideia de que a novela pode ser modificada o tempo todo, a cada semana, de acordo com a audiência, de acordo com o que o público fala. Não é assim, nunca foi assim. Há grupos de discussão vez ou outra, mas não é desse jeito”. A declaração, contudo, contradiz outra, onde eles informam que finais alternativos foram gravados para serem decididos de acordo com o que o público receber melhor.

Novela mudar por causa de audiência não é assim, são casos raríssimos”, continuou Maurício. “São pequenas correções que são feitas”, afirmou o diretor, ignorando uma quantidade de exemplos que vão muito além do bissexto não só na forma completa (como nas mudanças radicais de títulos como Babilônia, América, O Sétimo Guardião, Bang Bang, O Mapa da Mina, Vira-Lata e por aí vai) como na forma de mudanças que resultaram na recuperação de títulos como Torre de Babel, O Dono do Mundo, Coração de Estudante e tantas outras. A questão da “obra aberta” pode ser crucial até nos detalhes, como na recente reprise de Renascer, em que a primeira fase precisou ser encurtada para não provocar rejeição da segunda, em que a personagem de Adriana Esteves não funcionou e perdeu destaque, em que Taumaturgo Ferreira foi afastado porque o público não acreditava no personagem…

Dito isso, nenhum artista (de obra aberta ou fechada) entra em um trabalho não apostando no que está disposto a fazer. De fato, uma obra fechada é muito mais um problema do ponto de vista comercial, empresarial. Para o autor, é uma libertação. Lícia, que é uma autora de tons minimalistas, tem muito mais chances de se sair bem nessa empreitada do que autores que arriscam sempre dois tons acima. A ideia de uma “obra que muda de acordo com a resposta” não é um folclore jornalístico ou popular, é uma realidade que salva mas também condena produções. Mas, acima de tudo isso, está um fator determinante: quem ficar com Um Lugar ao Sol até o final, vai ficar porque gostou e terá, para si, uma obra que estará honrando seu público, doa a quem doer.

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