O inferno de Monica Lewinsky eram os outros.

A cobertura dos episódios de American Crime Story tem sido negligenciada nos últimos tempos por conta da minha agenda apertada, mas eu estou aqui para garantir que a gente fale sobre tudo que vem acontecendo nessa temporada; uma temporada que é a menos sangrenta das três, mas que é igualmente chocante no que diz respeito ao impacto social causado na época dos eventos. Não temos assassinatos, não temos caça policial, mas nem por isso Impeachment é menos “criminal”. A cada novo episódio, todo tipo de manobra é feita para capturar o “vilão”, mesmo que isso inclua esmagar mais uma vez uma mulher inocente.

Ryan Murphy sempre quis abordar crimes de negligência. Se a gente parar para pensar bem, embora a primeira e a segunda temporada fossem apoiadas em crimes famosos, elas foram construídas para refletir aspectos comportamentais que levaram aos eventos principais. Em OJ Simpson, por exemplo, o que foi discutido foi o jogo de manipulação de tensões raciais em favor de um assassino. Na outra ponta, vimos o circo da mídia em torno de Marcia Clark. Em Versace, a homofobia foi responsável não só por parte da macabra psiquê de Andrew Cunanan, como também pela demora das autoridades em interromper sua trilha de sangue.

Aqui em Impeachment está claro que o foco é mostrar como interesses pessoais e políticos engoliram Paula Jones e Monica Lewinsky, ambas vítimas de Clinton, mas que acabaram sofrendo muito mais que ele os reflexos do escândalo sexual que explodiu em 1998. Linda Tripp foi malignizada pela mídia nesse processo, mas as tentativas de explicar as motivações da amiga de Monica tem sido difíceis, sobretudo nesse momento em que Linda ainda não dimensionou os resultados de suas atitudes. Se Hillary Clinton também será justamente retratada, ainda não sabemos.

É muito evidente que ninguém estava pensando no bem estar de Monica. Os advogados de Paula Jones só queriam ganhar mais dinheiro com o caso, Linda Tripp queria – em grande parte – se vingar da administração Clinton e também se sentir relevante; e até o funcionário da lojinha da CBS que foi um dos primeiros fofoqueiros da internet, só queria mesmo um furo de reportagem. A antologia, contudo, tem um objetivo: tratar a relação de Linda e Monica com o cuidado que ela merece. Linda passou anos de sua vida dizendo que seus motivos principais eram fazer o que era certo e proteger Monica do que Clinton fazia com ela. Seu método de fazer isso é que foi – em muitas instâncias – questionável.

Até então, a antologia tem sido equilibrada, mostrando a personalidade intensa de Linda, mas com um ou outro flash de verdadeira preocupação com a amiga. O livro de Tobin, no qual a história é baseada, não teve a mesma preocupação. As atitudes de Linda são ilustradas como as de uma egocêntrica voraz, que, inclusive, inventou que havia sabido por uma pessoa próxima, que Clinton não daria o emprego de Monica de volta; enquanto na série essa mentira não aparece de maneira clara.

A decisão de começar a fazer as gravações dos telefonemas foi o primeiro passo de crueldade evidente. Linda passou a instigar Monica nas conversas. Mais tarde, quando deu de cara com o vestido manchado absolutamente por acaso, Linda também passou a trabalhar duro para que Monica não o lavasse. Na época dos eventos, Monica sentiu por Linda um ódio imenso, que perdurou por anos. Mas, olhando em retrospectiva, a decisão de manter o vestido como estava foi essencial para que Clinton fosse desmascarado. Sem ele, seria apenas a palavra de um contra a palavra do outro. E considerando que Clinton mentiu muitas vezes, sem o vestido, Monica teria sofrido ainda mais. Ao menos mentirosa, ela provou não ser.

Parte do público parece incomodado com a maneira vilanesca com a qual Clinton tem sido tratado. Colocando em pauta o comportamento hediondo dele com Paula Jones e com a própria Monica, me parece adequado que ele apareça como um homem incapaz de entender que sexo consensual e assédio são coisas diferentes; e que mesmo que algumas das mulheres tenham topado transar com ele, a partir do momento em que há hierarquia envolvida, a possibilidade de criar uma situação de assédio e abuso é muito grande. Em um dos momentos do livro de Tobin, Clinton é categórico com seus advogados: eu me aposentei. Mas, sua canalhice, desde o começo, foi acima da média.

As incríveis sequências em que Linda grava as conversas com Monica encontraram seu apogeu na conversa registrada no almoço entre as duas. Nesse ponto da narrativa é angustiante ver como Lewinsky está completamente vulnerável. A série ainda não mostrou, mas Clinton e Monica ainda tiveram encontros furtivos em Dezembro (o escândalo estourou em Janeiro). No último, em 28 de Dezembro, eles conversaram muito tempo e ainda se beijaram. Sendo assim, ele ainda estava exercendo domínio sobre ela. Linda, sua única amiga, traiu-a de todas as formas possíveis e seu nome foi lançado na arena como o de uma oportunista. De fato, Linda queria tanto que a coisa explodisse que foi ela mesma quem provocou a intimação da qual fingia querer fugir.

Na segunda parte da temporada vamos entrar no escândalo, enfim. A partir daí a Hillary de Edie Falco deve começar a aparecer, porque começa o ponto da narrativa em que Monica passa a ser tratada como lixo pelo homem que dava presentes secretos para ela. A temporada Impeachment tem sido vista como uma peça cartunesca, com personagens demarcados em posições clássicas: um vilão, uma moça indefesa, uma amiga traíra… Mas, um raciocínio frio nos revela que essas são posições corretas mesmo. Monica foi muito enganada, foi traída, por uma amiga com boas intenções e falhas de caráter; e por um homem poderoso que a deixou apaixonada e iludida.

O pior ainda está por vir… O melhor da série, suspeito que também. Qual é o limite de sacrifícios para se fazer “o que é certo”? No episódio 6, Monica e Linda se falarão pela última vez em suas vidas. Eu mal posso esperar.

Linda’s Tapes:

  • Monica fez muitas visitas e ligações desesperadas à Casa Branca. Em Novembro de 97 ela fez uma das mais humilhantes (e que a série, é claro, preferiu não ilustrar). Combinou com a secretária de Clinton de esperar no carro dela, no estacionamento da Casa Branca, enquanto Bill voltava do Golf. Quando chegou, o carro estava trancado, começou a chover, ela implorou à Betty pra entrar, entrou ensopada na sala de estudos de Clinton e esperou horas por ele. Quando chegou, Monica mostrou a ele um artigo sobre os benefícios de fazer sexo oral depois de mastigar chiclete de menta. Friamente, Clinton recusou o convite alegando falta de tempo e a deixou sozinha na sala.

  • Foi depois de ouvir esse episódio que Linda decidiu punir Clinton de qualquer maneira. Ela então, teve a ideia de provocar a própria intimação para o caso de Paula.

  • Após descobrir do vestido, Linda precisava ter certeza de que ele poderia ser usado. Sua editora tinha um outro cliente, que também ia escrever um livro e que tinha conhecimento sobre como o DNA poderia ganhar casos. Foi ele quem disse à Linda que a mancha de sêmem poderia ser analisada mesmo depois de anos. O nome desse amigo? Mark Furhman, o policial racista que fez OJ Simpson ter sua absolvição.

  • Monica realmente checou a bolsa de Linda quando ela foi ao banheiro, no restaurante.

  • A foto que elas tiraram, a única juntas, é exatamente essa aqui:

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