Porrada pra todo lado.

Perigo: spoilers!

“Everything that I have done for you…” – Jesse Pinkman

Como princípio básico em histórias desse tipo, é preciso existir união para que os conflitos floresçam da maneira necessária – afinal, se não acreditamos no começo de uma relação ou de uma empreitada, como vamos nos importar com o seu fim? Mas uma coisa engraçada sobre Breaking Bad é que nunca houve harmonia absoluta entre a sua dupla principal. Claro, o sentimento de parceria entre os dois sempre foi forte, e o tema de Walt como essa figura paterna substituta e absurda sempre foi de grande interesse à série.

Apenas nunca tivemos aquela aceitação perfeita que seria o lugar comum para qualquer outro drama. Não. Gilligan construiu os dois através do conflito, tanto externo quanto interno. Indo e vindo à medida que ameaças como Tuco e os Primos apareciam ou eram eliminadas. Podia ter saído pela culatra, se tornando uma interação tóxica nem agradável ou fascinante de assistir, mas de alguma maneira, Breaking Bad fez com que funcionasse. Há sempre uma inquietação envolvente na conversa dos dois. Uma raiva subentendida, de criança que tocou a panela sabendo que estava quente e culpa o pai pela queimadura.

Só que “Bug” funciona como o oposto disso. Em algum lugar na sua lógica deturpada, Walt ressente Jesse pelo inferno que está vivendo. Ele o culpa pelas escolhas que fez, ele joga todo o motivo dessa confusão na missão que jogou para o garoto, não nos erros que cometeu. E o pior: quase todos ao seu redor são facilitadores esse comportamento. Skyler acredita na mentira de que ele está procurando uma saída, Saul tenta jogar panos frios mesmo sendo o primeiro a privá-lo de responsabilidades, Hank inadvertidamente destrói uma parte importante do seu caso ao ser complacente com o comportamento estranho de Walt… Até o próprio Jesse, aceitando um serviço suicida e o atrasando com mentiras.

Mas então algo interessante acontece. Ele se cansa. O mentor explode com a sua paranóia, como de costume, e Jesse atinge o limite. Os dois se jogam contra as paredes, um tentando tomar controle do outro. É feio, brutal, realista – objetos voam pra todos os lados a cada segundo e até bem perto do fim, a trilha sonora dominante dá uma pausa para que os baques e socos sejam ouvidos. Por um lado, esperado. Um confronto entre os dois era óbvio desde o piloto, com alguns podendo até afirmar que a série toda está circulando isso ou se movimentando na direção de tal ideia. Já por outro, é surpreendente como a temporada nos prepara para a sua chegada – sem em nenhum momento entregar as cartas antes da hora.

O que, ainda assim, faz completo sentido. Jesse passou por um evento terrivelmente traumático e Walter negou qualquer tipo de ajuda. Pelo contrário, fez o seu pupilo reviver cada segundo do assassinato de Gale em “Bullet Points”. Recusou andar de kart com ele em “Open House”. Falhou em perceber o que houve e enfraqueceu a relação que tinha com o parceiro. O ego de Walt afastou Jesse do seu círculo de confiança, tornando real a explosão no final do episódio – tudo enquanto Gus aproveita a oportunidade para mover algumas peças do jogo e tentar ganhar a lealdade do elemento mais instável de sua operação. E se “Bug” cumpre tão bem o que se propõe, é por isso. Por funcionar em vários níveis. À medida que nos movemos na temporada, ficou mais evidente como Gus subiu tão rápido e com tanta força na escala de poder do tráfico – exemplificando a qualidade incrível da escrita de Breaking Bad, com isso representado não só pelas ações dele, mas pelas reações de outros personagens.

Se Walt é impulso impulso impulso, Gus leva todo o tempo do mundo para agir. É diplomático sempre que possível, e quando não, sabe impor sua vontade dentro dos limites. Na primeira “cena chamariz” do episódio, ele CAMINHA NO MEIO DE BALAS E ABRE OS BRAÇOS. O que por si só é apenas legal, mas ganha contornos dramáticos ao refletir a ascensão do personagem e o estado dele naquela posição. Afinal de contas, ações falam mais do que palavras. Para Walt, um papinho de macho sobre ser o perigo é suficiente. Para Gus – como mostrado na sua conversa com Jesse -, é um sinal de fraqueza.

Ainda assim, não é evitar essas falhas que faz dele o líder que Walt anseia ser e que provavelmente nunca será. É a habilidade em se perceber. Aprender com os erros, algo tão, tão raro nesse universo de cabeças duras. Como contraste e para exemplo, o episódio corta de Gus para Skyler e Hank, ambos repetindo velhos padrões de comportamento, pontuando o quanto aquele homem domina todos ao seu redor – mesmo finalmente cedendo aos desejos do cartel, ele consegue fazer isso com total controle da situação (em uma de suas melhores e mais simples cenas).

O que é conveniente para o episódio – mostrar falta de controle dos personagens A B C D para frisar o controle que personagem E possuiu. Mas também se esconde por baixo de tantas camadas de tramas sendo movidas e personagens sendo acometidos por tragédias, que só acaba tornando a hora mais rica. Skyler quer mudar, ela expressa várias vezes esse desejo… Apenas não consegue. O conforto é demais, o medo é demais, os problemas são justificativas suficientemente fortes. E se o universo diz pra ela abandonar tudo isso, ele também segue jogando tentações no seu caminho.

Assim como a investigação de Hank, existe um motivo por trás do retorno do Ted e de toda a trama do lava-rápido. Só que enquanto esse motivo não chega, a série precisa arrumar maneiras de entreter com essas histórias, algo que é feito de maneira mórbido-hilária com mais um exemplo da corrupção de Skyler, e com um lembrete de que mesmo de volta, Hank ainda está preso. Limitado pela perda do físico que tanto o definia em temporadas anteriores.

Nesse ponto, aliás, os paralelos com o resto da história se tornam interessantes. Existe um grande sentimento de falta no mundo de Breaking Bad, aquele pedacinho de realização própria que nenhum personagem parece alcançar. O rancor de Gus pela morte de Max não passou, Walt ainda é tão impotente quanto antes, somos sempre lembrados do tédio mortal que Jesse passa fora do trabalho ou de como Marie parece sempre estranhar algo no marido, como se o homem que ela casou não fosse o homem com o qual ela vive agora. Claro, Mike escapa disso. O seu desdém sempre parece tão… Conformado. Mas essa é a beleza de Mike – junto de tudo que a série não mostra dele.

Afinal, o que você precisa dizer quando o seu personagem mais realizado é um assassino profissional?

Outras observações:

– Imagino quando o Jesse vai parar de chamar Walter de Mr. White.

– Se tudo der certo (ou errado, dependendo do ponto de vista), parece que uma viagem para o México ocorrerá nos próximos episódios. Estou curioso para ver como Breaking Bad vai lidar com isso, já que dramas recentes tiveram resultados variados com aventuras para o exterior: The Sopranos em Paris foi uma das histórias mais fracas de sua respectiva temporada e Sons of Anarchy quase se destruiu passando metade do ano em Belfast, mas uma das melhores análises do casamento dos Draper em Mad Men veio na Itália. Sem falar na brilhante reintrodução porto-riquenha do Omar na quinta temporada de The Wire.

– Só por curiosidade, alguém adivinhou o resultado dos últimos flashforwards? Aquele bem rápido da água no flashback em “Hermanos” e o da abertura desse aqui.

– Estou considerando fazer uma espécie de “Perguntas e Respostas” no final de cada uma das próximas quatro reviews. O que vocês acham? Dúvidas, questões, teorias, confusões, qualquer coisa que você queira me perguntar – é só colocar aí nos comentários. Vamos ver se dá certo.

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