Qual o límite entre acreditar em si mesmo ou ser completamente delusional?

Vou começar esse texto pedindo que vocês olhem para a imagem acima e realizem: essa é a cara de Utica dizendo nas entrevistas o quão maravilhoso para ela foi a experiência de ter ido para a dublagem. Vou usar Utica como objeto do início desse texto não só porque ela foi a última eliminada, mas porque foi em torno dela – e de como ela se enxerga – que girou um dos grandes momentos da corrida até agora: com um sorriso ou não no rosto, RuPaul respondeu para Utica do jeito que queria ter respondido para Pearl lá na temporada sete. Aquele foi quase literalmente um “vá se foder”, que a participante, infelizmente, merecia.

Utica tem um perfil que é importantíssimo para a corrida, que é o da queen peculiar, fora da curva, que surgiu pela primeira vez com Tammy Brown – lá na primeira temporada – mas que só foi ganhar seu espaço derradeiro com Sharon Neddles, que venceu a temporada quatro. Esse tipo de drag é sempre uma controvérsia, porque elas são cobradas na questão do glamour e geralmente são rejeitadas pelas colegas. E elas precisam estar ali, precisam ter sua plataforma, seja vencendo ou não, errando ou não e até recebendo recados de vacas mortas.

O desafio do episódio Freaky Friday foi um dos meus preferidos da vida e espero que ele seja repetido daqui por diante em todas as temporadas. É uma oportunidade perfeita para que uma menina tenha capacidade de olhar para si mesma panoramicamente e de aceitar esse espelho. Quem se conhecia melhor, conseguiu melhores resultados. Quem não entendia direito quem era, não foi capaz de esculpir-se na outra. O mais trágico a respeito desse desafio é que a eliminação não seria pelo que você fez de errado, mas pelo que o outro fez em você. E trágico mesmo, porque a eliminação de Denali foi uma das mais difíceis de aceitar até aqui.

Para entender melhor basta olhar para como funcionaram Tina e Rosé; e Utica e Symone. Tina e Rosé me divertiram imensamente. Não só as duas tem uma noção exata de quem são, como também sabem traduzir isso de uma maneira cômica, como se tirassem sarro uma da outra de forma respeitosa. O trabalho delas foi mais fluído para mim e se não dependessem do look, talvez tivessem vencido. As escolhas estéticas de Tina são questionáveis demais, mas ela não parece nem perto de compreender isso, de realizar isso, aceitar isso. A roupa que escolheu para Rosé foi outra das coisas horrorosas que ela mandou para a passarela e isso desequilibrou a performance.

Já o trabalho de Utica e Symone foi totalmente conceitual. Utica tem um visual e uma passarela que são muito bem marcadas, muito bem destacadas. O mesmo para Symone, só que numa direção oposta. Em todos os casos em que meninas muito peculiares foram eliminadas, elas foram eliminadas até porque se conheciam demais e sentiam dificuldade de arriscar essa persona. Utica conseguiu criar o espelho em Symone por conta de seu total autoconhecimento, o que deve ter, é claro, inspirado Symone a explicar-se da mesma forma. Symone é a favorita até agora por várias razões; saber quem ela é não deixa de ser uma delas.

Gotmik e Kandy para mim foram genéricas, mas Gotmik deu um depoimento muito interessante sobre como ser um homem trans a fez sentir-se obrigada a masculinizar-se por muito tempo, quando na verdade a existência trans nada tem a ver com padrões de gênero. A transformação delas era a mais complexa do ponto de vista físico (os corpos eram muito antagônicos), mas os looks foram bem escolhidos e elas passaram com muitos elogios. Eu não vi a transformação na passarela, mas essa já é uma temporada cheia de elogios estranhos e críticas invisíveis, então, já me acostumei com a correnteza.

Agora, ver como Olivia DESTRUIU as chances de Denali foi uma lástima. O correto seria que o bottom fosse de quem não conseguiu criar o espelho. E foi Olivia quem não conseguiu criar o espelho. Aquele bottom deveria ter sido de Olivia e de Tina (que errou o look). Denali não escolheu a imagem mais original, mas Olivia era um reflexo da colega. Quando vi Denali entrando com aquele vestido de Pageant Queen eu fiquei apavorado. É daquele jeito que Olivia vê a si mesma? É daquele jeito? A pobre Denali ainda teve que enfrentar a fúria de Kandy, que já vem com 800 pedras na mão a qualquer sinal de crítica.

Denali estava derrotada no Untucked como nunca havia sido. Se desculpou com Kandy (que também tem esse negócio de ser muito acolhedora se não estiver sendo criticada) e sabia, desde o começo, que iria para o bottom. Vou dizer: a postura de Olivia diante dessa responsabilidade me surpreendeu. Eu esperava que ela estivesse tão arrasada quanto Denali, que estivesse mortificada e fizesse o número da chorona, mas ela meio que cagou para o fato de que não tem uma identidade e que ainda mandou a colega para casa. Sei não… Aquela dublagem foi bem disputada e seria a hora de reconhecer que o erro foi de Olivia e mandá-la para casa.

Se vocês acham que isso é um exagero, basta olhar para o desafio seguinte em que Olivia também foi incapaz de imprimir a própria marca no refrigerante. Utica, Gotmik e Tina (que também se deram mal), sabiam quais eram as próprias marcas, mas erraram no desenvolvimento. E de novo, Olivia estava sendo salva sabe-se lá pelo quê. O salvamento de Gotmik eu sou capaz de aceitar depois de semanas de top, embora, dessa vez, sem dúvida nenhuma, ela merecesse um bottom. A criação da bebida de Mik está no mesmo patamar do perfume que Coco Montrese criou na quinta temporada e que tinha o nome de RuPaul ao invés do dela.

Enfim, o tema da passarela era “Beast” e me aparece Kandy com isso aqui:

Os jurados mandaram um papo de “não estamos entendendo” e mano… Sem essa! Depois de não criticarem Tina o suficiente por conta daquela paleta de cores hedionda, me deixaram LaLaRi pisar na passarela com aquelas bolsinhas grudadas de qualquer jeito sem ser eliminada na hora e – de novo – deixaram Kandy passar pelas críticas sem NENHUMA provocação. Aquilo não era “incompreensível”, era FEIO. Era horroroso. E não de um jeito polido ou editorial. Era só feio mesmo. Feio.

Mas, a vitória dupla de Symone e Rosé eu gostei muito. Aliás, Rosé é uma participante que eu gosto muito desde o primeiro dia e esse afeto só vem crescendo. Ela é carismática, competente, amável, diz coisas interessantes nas entrevistas e tem uma elegância e uma austeridade que combinam com uma vencedora. Entre Rosé, Symone e Gotmik eu realmente tenho dificuldades de saber quem eu gostaria mais que vencesse. Rosé e Symone tem o pacote completo, mas Gotmik seria um homem trans vencendo por criar uma ilusão feminina. Isso é sensacional demais.

Antes de ver o episódio 12 eu torci para Utica sair, mas depois de Nice Girls Roast eu percebi que Utica precisava ficar. Ela e sua inquebrável e imutável visão de si mesma se mostrou cristalizada desde o começo, piorou no desafio da bebida e ficou insustentável no constrangedor episódio do Roast.

Sabemos que na temporada UK a ordem de um desafio quase deu BO (parabéns, Lawrence), mas Kandy e Rosé resolveram cada uma ir numa parte polêmica dessa fila: uma no começo e uma no final. Problema resolvido e lá foram as meninas para suas piadas em homenagem a Nina West, Heidi e Valentina. A gente já sabia que Rosé tiraria tudo de letra, porque isso é o que ela faz. A dúvida era saber se Kandy daria conta do recado ou se enrolaria no planejamento, já que a segunda aposta era nela. Symone e Mik também eram uma possibilidade, mas eu tinha certeza que Olivia e Utica iam bombar. Olivia porque não consegue não ser legal e Utica porque não ouve, não processa e isso a impede de fazer qualquer olhar panorâmico sobre o outro. Deu certo para ela fazer Symone de espelho porque, enfim, era ela mesma.

Nos ensaios Utica usou todos os truques ofensivos que lhe passaram pela cabeça, mas ignorou todos os toques de que aquilo estava indo longe demais. Era melhor ter sido óbvia e fazer piadas com a idade de RuPaul ou as desafinadas de Valentina em Rent Live (que podem nem ter sido culpa dela, afinal o protagonista quebrou a perna, o show foi cancelado e eles resolveram transmitir um ensaio). Era muito melhor ter contado uma piada suja ou cantado uma música como Courtney Act fez para fugir de seu StandUp. Tudo teria sido melhor que aquilo.

Kandy começou um pouco lenta, mas a coisa engatou e ela foi muito bem. Já Symone se afundou nas pausas, tentou fazer aquele mesmo personagem do pescocinho que fez no comercial da bebida e foi uma tristeza. Foi duro de assistir. Quando Utica chegou, parecia que ela só iria mal mesmo, engasgando, sem graça, mas ela começou a apelar para a pura agressividade e mau gosto. Era como ver um acidente de trem se aproximando.

A coisa ficou realmente terrível quando Utica fez uma piada com o talento para a comédia de Loni Love e ela – no meio de uma gargalhada – revidou, zombando do fato de que quem estava se ferrando era Utica. Aí meu filho…. As meninas surtaram, as convidadas gargalharam e Utica se tornou o objeto do escárnio, o que foi, para ela, muito humilhante. Sua reação imediata foi se voltar para RuPaul e pedir que ela levantasse (RuPaul não levanta nem se a Cher pedir). A resposta foi inevitável:

Como bem disse Gotmik: “Não dá nem pra saber como rastejar pra fora daquilo”. A derrota galopante de Olivia nem teve muita importância, embora eu já esteja cansado dela. Se colocar no lugar de Utica era penoso porque sabemos como é horrível passar por uma vergonha dessa em público. Mas, Utica sabia, ela sabia que estava errado, ela ouviu dos jurados no ensaio, e, novamente – e como vez no Snatch Game – decidiu não ouvir.

Eu adoraria que Rosé tivesse sido tão boa quanto no ensaio, porque amo Rosé cada vez mais (e ela foi a única que decorou tudo). Mas, tudo bem. A vitória de Kandy foi justa. Só gostaria de ter ouvido mais das piadas das convidadas. Especialmente de Nina. Só aquela sobre Kandy já me fez rir e assistir novamente várias vezes.

Um double sashay teria sido maravilhoso para mandar Olivia e Utica para casa, mas Olivia – PELO AMOR DE DEUS – escapou novamente. Symone deu um show na dublagem e o constrangimento público de Utica chegou ao fim.

Semana que vem vamos ter que aturar mais um desafio de atuação com roteiro ruim e aí sobram 4. Será o episódio 13. Pode ou não haver um episódio seguinte com dança e música para testar o top 4 e aí seria o 14. Depois vem o Reunion, o episódio 15 e a final, no episódio 16. Com isso ainda há bastante tempo para planejar um evento semi-presencial, como aconteceu no Grammy e como vai acontecer no Oscar. Espero de verdade que a finale não seja virtual de novo e que as meninas do ano passado sejam chamadas para desfilarem também. O processo de vacinação na California já está bem avançado (todos os adultos já serão elegíveis em Abril) e até lá estará ainda mais. Meu sonho colorido seria uma final de pelo menos uma hora e meia, com as meninas do ano passado e as desse ano dividindo os spots.

E só queria terminar esse texto dizendo uma coisa: A corrida chegou na reta final e eu já estou com saudades. Pra mim, esse formato longo só me fez feliz. Drag Race is always giving me LIFE.

REVISÃO GERAL
Nota:
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