O ano é 2021 – o estranhíssimo 2021, diga-se de passagem – e cada empresa tem o seu próprio serviço de streaming. Cada pessoa dedica 80% do seu salário para o pagamento dessas plataformas para ter acesso de forma legal ao conteúdo de séries e filmes. Dentre essas opções, uma das menos pop e menos priorizadas perante outras plataformas, mas que tem se destacado gradualmente em premiações e entre o público em geral, é o Apple TV+. Ted Lasso, The Morning Show, Servant são alguns exemplos de produções que valem a pena ser conferidas, mesmo que ainda tenham muito potencial a ser explorado. Calls (2021) é a nova adição ao tímido catálogo da “Maçã” que, embora não seja um carro-chefe e não justifique uma assinatura, é uma deliciosa série pitoresca e singular.
Em tempos pandêmicos, em que novelas globais sofrem adiamentos terríveis e reprises intermináveis são transmitidas, em que filmes bilionários estadunidenses são adiados infinitamente por pavor de não terem suas receitas minimamente pagas, Calls surge como uma saída muito inteligente para as restrições sanitárias surgidas devido ao COVID-19. Embora seja uma adaptação estadunidense de uma série homônima francesa (já com três temporadas) e em processo de produção desde 2018, Calls é quase um audiodrama feito sob medida para os tempos em que vivemos: simples de ser realizado, não é preciso reunir os profissionais no mesmo espaço. Foi preciso um roteiro muito bem elaborado, atuações muito afinadas e precisas dirigidas pelo interessantíssimo e promissor Fede Álvarez, de A Morte do Demônio (2013) e O Homem nas Trevas (2016).
O uruguaio é o principal nome “por trás das câmeras” por ser o diretor de todos os episódios e ter forte participação em quase todos os roteiros. Uso aspas ao me referir às câmeras porque ninguém é visualmente registrado: Calls se apoia 95% na interpretação de voz de suas atrizes e atores, alguns muito famosos como Karen Gillan, Judy Geer, Nick Jonas, Aaron Taylor-Johnson, Lily Collins, Pedro Pascal, dentre tantos outros que estão ali, invisíveis, mas nos créditos sempre rola aquele sorrisinho de “ah, eu sabia que conhecia essa voz de algum lugar”.
A parte visual da série é bem minimalista. É um artifício sutil, bem elegante, mas pode incomodar quem não embarcar na viagem imaginativa que a série propõe. Essas pessoas só conseguirão enxergar aquelas pulsações/vibrações de onda dos reprodutores de música dos computadores antigos.
Os menos de 20 minutos por episódio misturam drama, suspense e ficção científica em nove histórias independentes, a princípio, mas depois se mostram (minimamente) interconectadas. Algumas mais interessantes que outras, certamente várias renderiam histórias completas de longa metragens. Forma e conteúdo estão em forte sintonia. O estilo quase em found footage, apoiado apenas pelo áudio das ligações, é um convite de exercício ao imaginário. Nada é mostrado, mas muito é visto. Todo o mistério da série se fortalece desse nebuloso cenário e personagens ocultos.
Sobre o conteúdo, a série não desaponta e honra ao terror, um gênero tão esnobado em premiações, mas que sempre que é bem executado traz discussões tão ricas e pertinentes. Nada é muito aprofundado, já que cada episódio é tão breve e trata de um assunto diferente, mas temas como ausência paterna, traição, xenofobia, feminicídio estão ali misturados com corpos derretendo e alterações do passado/futuro em realidades paralelas.
Calls é uma série super divertida e imersiva, com ótimos roteiros, atuações e direção. Bastante ágil, a produção pode ser vista em um dia sem problemas (embora as histórias sejam bem densas. Sugiro uns 5 minutinhos de respiro entre cada uma). Ela não justifica a assinatura do serviço de streaming, mas caso outras temporadas surjam, a conversa pode mudar. Nem todo episódio é empolgante e, em uma temporada curta, isso pode ser um problema. Como um suspense secundário na sua lista de reprodução, Calls pode ser uma ótima pedida.














