O número foi 99,17% e a pergunta que paira é a seguinte: por que a eliminação de Karol Conká acabou sendo tão anticlimática?

Eu tenho duas lembranças grandes sobre as eliminações do BBB. Lembranças daquelas que ficam por conta do quanto de catarse provocaram. Uma delas é a vitória do Jean, no BBB5. Para aquele Brasil do início dos anos 2000, ter um nordestino, gay, como vencedor do programa era um sinal precioso de possíveis avanços. Ledo engano… O BBB funciona muito menos dentro dos impulsos sociológicos e muito mais por como são montadas suas narrativas. O público do programa quer defender seus favoritos, que podem nem ter começado como favoritos, mas se tornam quando passam de opressores a oprimidos. O público quer defender e por consequência, quer castigar.

Às vezes o castigo funciona a favor da corrente. A minha segunda grande lembrança do programa foi no ano passado, na edição 20, quando a eliminação do Prior pôde ser ouvida a distância pelas casas do país. Aquilo tinha muito menos a ver com Manu Gavassi (que de fato nem precisava de tanta proteção) e muito mais a ver com Prior (que precisava de castigo). Mesmo com um fandom extenso, o participante não foi capaz de vencer o propulsor definitivo do público do Big Brother: a vingança.

Parte da beleza do programa – talvez a maior dela – está nessa dinâmica provocativa do “bem contra o mal”, que no caso do BBB sempre foi mais acentuada que em outros realities ao redor do mundo. Esse ano, mesmo os fãs mais adeptos do jogo agressivo visto em realities como Survivor, recuaram e permitiram que o afeto, as emoções, viessem na frente da observação psicológica de pessoas como Karol, Lumena e Projota. E isso é perfeitamente compreensível. As razões que fizeram de Karol Conká uma pária nacional não tiveram bases no jogo (que ela sabia como jogar) e sim no que ela demonstrou ser como pessoa: egoísta, egocêntrica, egomaníaca, todos os “egos” que puderem ser encontrados no estudo da mente humana.

Não é a primeira vez que acontece, mas é a primeira vez que saiu completamente do controle. Arriscar-se a cavucar por entre as mensagens de ódio pode ser uma tarefa impopular. A internet – do perfil mais amador ao mais “verificado” – está infestada do que chamo de “personalidades foda-se”. Mas, ok, vamos lá… O cinismo e o conflitismo são direitos protegidos pela “constituição existencial”. Nem eu, nem você, nem ninguém, pode tentar tirar do outro o direito de não estar nem aí. Eu mesmo, que comemorei a vitória do Jean, também celebrei o “castigo” do Prior, gritando em transe catártico pela minha janela. É fato que o Prior não teve uma rejeição nem próxima da Karol, mas, já chegamos lá.

Ali, no meu quarto, comendo meu chocolate nervosamente, eu esperei aquela mesma emoção do dia em que Prior saiu. Não estamos desde que o BBB21 começou pedindo pela eliminação de Karol? Se a do Prior parecia um jogo do Brasil na Copa, o mínimo esperado para essa eliminação era uma Micareta. No dia seguinte, enquanto dava entrevistas constrangidas pela Globo, Karol ficaria sabendo que o povo estaria nas ruas, furando a pandemia para “malhar” bonecos de espuma, como faziam com o Judas no sábado de aleluia. Claro, um exagero. Mas, ao menos um grito de “AGORA TOMBA” eu esperava dar.

E eis que quando Tiago Leifert (depois de um discurso acertadíssimo) anunciou sua eliminação e a porcentagem apareceu na tela, eu percebi que a euforia não viria e que – pelo contrário – eu lutava contra as lágrimas desde o momento em que o apresentador tinha começado a falar. Era como a antecipação do desastre, era como assistir o andar do condenado a caminho da guilhotina, eu sabia o que vinha, eu sabia que ela tinha feito por merecer, mas eu não conseguia comemorar. Ela estava ali, com um discurso lúcido pronto, típico dela (que já tinha tido flashes de lucidez entre os surtos contínuos de fantasia); e quanto mais ela falava mais eu chorava. E era estranho. Metade de mim deixava fluir e a outra ficava se criticando. Não era que estivesse aprovando Karol ou entendendo Karol. Não era um descaso com o pesar das vítimas que ela fez enquanto esteve lá dentro. Era uma realidade pura e simples: eu estava triste, profundamente triste.

Perdas e Danos

Como bem disse o Tiago, Karol teve muitas chances de redenção e desperdiçou todas elas. Os momentos em que ela era racional (e ela era racional e lúcida a partir do ponto em que admitimos que ninguém é uma coisa só) não conseguiam se sobrepor aos momentos em que ela permitia que o próprio primitivismo viesse à tona. Sob pressão, obrigada a lidar com frustração, ela reagia com artilharia pesada. Qualquer pessoa que já assistiu RuPaul’s Drag Race, por exemplo, sabe que o histórico de participantes pretas que reiteraram o perigoso estereótipo da “Angry Black Woman” é imenso. Não é com um textinho de internet como esse que chegaremos ao âmago da questão, mas isso tem que ser mantido em perspectiva.

Lá pelo meio da participação de Karol, a produção do BBB já tentava limpar sua barra, amenizar os efeitos daquela narrativa vilanesca descontrolada. Mas, o imbróglio era tão mais denso… Como você consegue organizar reações emocionais de um público que está ali para avaliar, julgar e executar? O BBB é basicamente isso: entra aí que eu vou te observar o dia inteiro, te julgar e decretar sua sentença. Se em edições menos complexas já era difícil, imagina numa em que quando Karol diz que é mais fácil para o público gostar da Carla porque ela parece uma boneca, ela está certa; mas, ao mesmo tempo, quando Camilla diz que militância está sendo usada para mascarar questões de afinidade, ela está certa também.

Durante semanas, apontamentos importantes, que poderiam ajudar alguns participantes no próprio crescimento foram misturados a clichês superficiais; e clichês superficiais foram usados ridiculamente como chaves do conhecimento. Lucas na primeira festa tomou decisões e disse coisas que também estão no livro de registros do programa como peças do mais completo e nocivo absurdo. No dia seguinte, o twitter o tratava com a mesma “cortesia” que Karol foi tratada depois. Mas, quando ela o fez se retirar da mesa sem comer, o público deu a volta, se permitiu enxergar Lucas de outra maneira e fez aquilo que está programado para fazer: defendeu e se vingou.

A maçaroca de significados contraditórios se manteve aqui fora. O voto para Karol sair é uma busca pela justiça, é uma busca pela retratação, é uma punição metafórica, tudo junto. E é – por mais que não gostemos disso – uma vingança contra o que ela representa, não enquanto mulher preta, mas enquanto embaixadora do que é “certo” dizer. Ela entrou com a reputação do sábio que corrige, como é a reputação atribuída a toda e qualquer voz da militância; e agora ela está pagando, com o Brasil todo dizendo na forma dos 99%, que agora quem diz o que é certo somos nós. E esse é o mesmo julgo que Lumena vai experimentar, que Projota vai experimentar… Claro, você votou porque ela é um ser humano terrível. Eu votei por isso. Mas, será mesmo que um motivo exclui o outro?

Logo depois da entrevista com Tiago Leifert, Karol foi para a outra entrevista com Ana Clara. A empáfia e prepotência voltaram. Ela tem dificuldades de enxergar a realidade, mas ela não vai sair do programa, sentar com a Ana Clara na MESMA NOITE e já sair tendo uma compreensão absoluta de tudo que ela fez e disse. Os flashes de lucidez entre os picos de egomania são parte do transtorno. Essa ficha aí, se cair, não vai ser hoje. E em muitos momentos, parece que parte dos 99% torce secretamente para que nunca caia e que em looping, Karol passe o resto da vida provando que a nossa observação e nosso julgamento estavam certos: ela é uma megera incorrigível.

É bobagem dizer que o que acontece no programa fica no programa. Não fica. Mas, com sorte, ela não vai sofrer mais do que os outros grandes rejeitados sofreram (e que não deve ter sido pouco). Nós, no nosso afã de punir, esquecemos o entorno, a família, o filho, o trabalho, a sobrevivência… Mas, será mesmo que é nosso dever lembrar? Se eles sabem que isso pode acontecer quando entram, é meu papel ser piedoso? Eu achava que não. Mas, quando o programa acabou eu estava triste, choroso, cabisbaixo, eu entendi que eu não tinha prazer com aquela “execução”, que ela ia longe demais pro meu nível de “personalidade foda-se”, que eu, de verdade, torcia para que com isso tudo, ela pudesse encontrar uma chance de mudar.

Todos nós somos vingadores do destino de Karol Conká no BBB. Que bom que no que diz respeito ao lado de fora, ela pode continuar vivendo a própria pegada, no próprio ritmo, se Deus quiser ciente do erro, que agora, enfim, ela pode escolher não reincidir.

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