E quando a eliminação é justa, mas o bottom não?
Como assim? Como uma eliminação pode ser justa se o bottom não for? Vamos começar falando do que chamamos informalmente de “radar dos jurados”. Com um monte de meninas ainda na competição, o que uma participante mais precisa fazer é tentar passar despercebida por ele se tiver qualquer dúvida a respeito da própria performance. O tal radar, inclusive, funciona para os dois lados, com ótimas performances sendo consideradas apenas “seguras” e terríveis concepções indo para o untucked felizes da vida com o passe livre. É claro que ter ido bem e ser salva é um ganho, mas muitas vezes a escolha do bottom deixa lacunas demais para serem ignoradas. Será mesmo que aquela que deveria dublar não acabou sendo salva injustamente?
Estou dizendo isso porque uma grande rivalidade dessa temporada teve sua trajetória encurtada e isso, obviamente, nos frustou um pouco. A história entre Tamisha e Kandy era mais do que um motivo para ver meninas gritando umas com as outras (o que a gente gosta), mas era também um fragmento do que vem perseguindo a corrida há muitos anos: a difícil convivência entre juventude e maturidade, que sempre se transforma numa medida de talento que é nociva para os dois lados. As drags experientes achando que isso é suficiente e as drags jovens achando que elas estão ali para mostrar que a arte evoluiu. Cada uma esmurrando a ponta de uma faca.
Partindo do histórico, a corrida está contra o passado. Bebe venceu a primeira edição, mas Tyra veio em seguida e se tornou mais marcante. Raja era experiente, mas numa vibe nada convencional. Depois dela, Sharon e Jinkx eram peculiares cada uma a sua maneira. Bianca foi a vencedora que até hoje equilibrou melhor essa balança, em todos os sentidos. Violet, Bob, Sasha, Aquaria e Yvie, numa sequência de vitórias que privilegiavam uma abordagem jovial e out of the box de se fazer drag. Na Season 12, Gigi e Crystal eram a exemplificação desse tipo de vencedora. Uma era a modernidade e a outra a peculiaridade; e pela primeira vez em muito tempo, RuPaul decidiu-se pela estética clássica através de Jayda, que um pouco como Bianca, mostrou que o equilíbrio é possível.

É claro que você pode ser jovem e atrevida como Violet e Aquaria, se garantindo no talento. Ou você pode ser jovem e atrevida como Kandy. O começo do episódio trouxe Utica resumindo a treta: Kandy queria dizer tudo e não ouvir nada. A edição, inclusive, tomou a decisão de fazer um flashback para mostrar como a senhorita Muse estava cega de ira. Distorcendo as palavras de Tamisha, ela continuava a diarreia verbal com Tina de plateia. Gottmik também faz parte da patota, mas consegue se expressar sem afronta, além de ser a mais talentosa do trio, de longe. Porém, ao mesmo tempo em que Kandy se atropela – literalmente – nas palavras, como toda pessoa muito jovem, ela é de verdade muito diferente do que faz questão de mostrar para os outros. Os editores caçam a redenção, que funcionou para Violet lá atrás, mas que ainda é uma incógnita dessa vez.
Tamisha Eleganza Extravaganza
O mini-challange do dia foi jogado em duplas e trios. Era importante saber quem você iria escolher, porque esses seriam seus parceiros no desafio principal. A primeira coisa que a gente faz quando Ru permite que as meninas escolham entre si é olhar para aquelas que a gente já sabe que ficarão por último. Tamisha – provavelmente prevendo o constrangimento – agarrou Utica, que estava ao lado. Utica ignorou deliberadamente o chamado e cedeu ao toque de Olivia, que chegou logo em seguida, depois de perceber que do outro lado quem sobraria era Elliott (outra queen que segue sendo subestimada). O momento, aliás, vale um print:

A solidão de Tamisha nesse episódio representa o estado recorrente geralmente dedicado às queens maduras. Mas, também representa a trajetória de uma participante que já chegou recolhida, recém-saída de uma situação extremamente grave, ainda em recuperação, que decidiu enfrentar o gigantismo da Drag Race sabendo que ainda tinha uma bolsa de ostomia no estômago. A postura elegantíssima de Tamisha diante do conflito com Kandy já tinha sido impressionante, mas vê-la manter isso em segredo mesmo diante de uma eliminação iminente foi incrível. E seus momentos de pura soberania não ficaram por aqui. Chegamos lá logo adiante.
O desafio disco revelou que as meninas andam estudando pouco antes de entrar. Quase ninguém sabia alguma coisa sobre esse momento da história, mas mesmo assim os números foram divertidos. Contudo, aqui começa o problema da formação desse bottom. Tamisha estava, claro, desconexa do que fazia, com uma expressão claramente consternada e seu look era apenas correto, sem inventividade. A performance de Kandy ia exatamente na mesma direção, com a diferença de que seu look errava pelo exagero. RuPaul poderia escolher qualquer uma, mas não necessariamente as duas; e eu vou dizer porquê.
Na outra ponta desse bottom estava Utica. Suas caras e bocas na hora das performances já vem passando do ponto faz algum tempo, mas essa semana, em especial, ela colocou tudo dois tons acima para disfarçar os problemas com a dança. Até aí, nenhum problema, qualquer queen esperta faria a mesma coisa. A questão é que dos looks que formavam o bottom, o dela era, de longe, o pior. Ainda que tivéssemos entendido de cara que ela era uma versão gigante dos próprios brincos, o look era feio, desinteressante e distante da categoria. Parecia que sua presença na dublagem era certa. De fato, só uma pessoa cumpriu as diretrizes do tema de passarela e de quebra ainda desfilou seu exuberante corpo pós-transição, em outro momento histórico da corrida.

A vitória de Olivia foi merecidíssima, mas dividir o top com Tina pareceu um desatino para mim. Estou como Trixie Mattel no Pit Stop e quando Tina entra com aquela paleta de cores eu quero pular na TV e gritar com ela. Sigo estupefato com Michelle Visage, que nessa temporada parece a Paula Abdul no American Idol. Não só deixou La La Ri passar pela passarela usando aquela coisa desrespeitosa, como até agora não deu uma chamada em Tina por cansar as vistas de qualquer com variações infinitas de amarelo, laranja e vermelho. Fico com pena de Rosé, que toda semana chega perto, mas não ganha porque os looks continuam abaixo do esperado para ela.

Enfim, chegamos ao momento da eliminação de Tamisha, que foi sim, justa. O problema é que a formação do bottom two é que não tinha sido. Ao lado de Tamisha ou ao lado de Kandy, deveria estar Utica. No fim, pareceu que Ru tinha decidido perdoar Utica por conta de sua inventividade, que é realmente legítima. Só que se a sua inventividade não está canalizada para o bem, ela não merece ser perdoada. A de Kandy não foi.
Se Tamisha fosse para a dublagem com Utica ninguém poderia garantir que ela iria ficar, mas ainda que no meio dessas especulações sobre muito pouco de substância, a saída de Tamisha soou prematura por todas as razões explicitadas por ela no episódio. Tamisha é uma das participantes mais austeras e emocionalmente inteligentes que eu já vi passarem pelo programa; e a prova disso é a imagem do abraço espontâneo em sua grande rival. Viu aí, Phi Phi O’Hara? Aprenda.
Sinto que ver-se entre as piores ao lado de Tamisha provocou alguma espécie de epifania em Kandy Muse e as coisas podem ser diferentes daqui por diante. Aquelas lágrimas eram reais e a ansiedade em aplaudir e desculpar-se com Tamisha, também. Torço para isso. Diante desses acontecimentos acho que posso adiantar aquele que é meu Top 4 dos sonhos até agora. Espero que lá perto da última curva estejam Symone, Gottmik, Rosé e Olivia.
RuNotes 1: Falando em “disco”, já ouviram o “Disco” da Kylie Minogue? MEU DEUS!!
RuNotes 2: Aproveitando o ensejo para comentar a chocante saída de Ginny na Drag Race UK. Sei que ela insistiu que a intenção não foi ofender a produção, mas eu achei bastante desrespeitoso abandonar um lipsync. Foi desrespeitoso com RuPaul, com os espectadores e principalmente com a parceira de batalha. Ela tirou justamente da pessoa que dizia querer proteger tanto, o direito de lutar pelo próprio lugar. Ben Delacreme, com toda sua autocentralidade, foi mais elegante e educada. Mas… Foi um BAITA final de episódio.
















