Voltamos com a penúltima parte dessa lista de celebração ao que foi exibido na televisão aqui e no exterior no ano passado. Com oitenta nomes mencionados, só restam vinte para completarmos nossa centena e tornar este o segundo ano em que o Série Maníacos se dispôs a expandir sua lista de recomendações. A finalidade do ranking, portanto, é compreender melhor essa indústria.
Lembrando sempre que os textos não contêm spoiler, afinal o objetivo é incentivar que você assista à série, assim segue nossa lista:
20 – Aruanas, 01×10: “Episódio 10” (02/07/2019) [Globoplay]
Escrito por: Estela Renner e Marcos Nisti // Dirigido por: Bruno Safadi, Estela Renner e Lucio Tavares

Algumas séries sobre as quais conversamos por aqui, como The Morning Show e The Mandalorian, foram lançadas junto com os serviços cujo catálogo as inclui. São uma demonstração do que esperar desse serviço, do que vem por aí. Outras produções, no entanto, lançaram séries em 2019 que são uma continuidade do que vem sendo lançado por seus devidos selos. São boas amostras da qualidade de seus canais — quase toda série da HBO exibida no ano passado se encaixa neste exemplo. Aruanas, que hoje inicia nosso debate sobre conteúdo televisivo, também se encaixa no perfil. Assim como Ilha de Ferro, anteriormente mencionada neste ranking, ela é uma nova prova de que a Globoplay tem uma interessante coleção de histórias para se considerar no momento em que estamos à procura de onde investir nosso dinheiro e nosso tempo.
Atualmente em exibição na tevê aberta, Aruanas tem um pequeno problema que preciso adiantar para que minha recomendação faça sentindo: os primeiros episódios. Diversas séries precisam de um tempinho para entrar no ritmo ou nos convencer, e este é o caso da série. Caso você tenha dado uma chance e não tenha chegado ao quinto, devo dizer que aí pode estar a resposta para não ter gostado tanto — isto é, se este for o caso. Lá para o final da quinta parte, a adrenalina e o senso de urgência toma conta do seriado de uma forma que poderíamos colocar diversos episódios nesta posição.
No enredo, acompanhamos uma ONG ambiental que compra uma grande briga na Amazônia ao descobrir uma série de crimes cometidos por lá. As quatro mulheres, com funções e histórias diferentes, tentam conciliar a vida pessoal com esse trabalho e todas as demandas e sacrifícios incluídos. Não há muito charme ou qualquer desenvolvimento realmente empolgante sobre como cada uma se relaciona com o parceiro ou seus filhos — na verdade, uma história envolvendo traição acaba sobrando. No entanto, essa paixão pela natureza e pela briga por conservá-la é interessante e feito de um modo crível, quase contagioso. Percebemos o perigo em cada nova decisão e a dificuldade em se lutar contra o dinheiro e tudo o que o envolve.
O fato de o enredo se voltar a uma interessante questão política também é outro ponto positivo. Através da ficção, entramos em contato com problemas que não são nada ficcionais e que devem ser combatidos em pequena e grande escala com as armas que tivermos à mão. Também ganhamos uma narrativa que foge do habitual cenário Rio-de-Janeiro-São-Paulo, um bom descanso para fugirmos brevemente dessa tradição. Temos uma excelente escolha de elenco, desde as protagonista aos antagonistas da série, resoluções adequadas para seus conflitos e boas cenas em cada um dos episódios. Os mais descrentes com o audiovisual nacional sairão dessa maratona sufocando um “ok, essa série é muito boa”.
O décimo episódio aparece por aqui porque é uma boa conclusão para uma boa história, quase como o último bom parágrafo de um livro muito bom. De alguma forma otimista, mesmo falando sobre uma causa que parece tão perdida (ainda mais se levarmos em conta séries como Nosso Planeta), o Episódio 10 tem seu foco em um grande evento onde temos o famoso momento de acerto de contas. É o episódio no qual percebemos o quanto estamos torcendo por essas mulheres e redescobrimos a importância dessa causa. Tem uma boa sequência de imagens no seu momento mais empolgante, por mais que utilize uma música tão usada em filmes e série que soa quase cafona. Há uma cena envolvendo nomes que é de se arrepiar e outras envolvendo as personagens cantando que nos faz sorrir e conclui, de maneira muito afetiva, a saga desse grupo.
Dividida em dez episódios, Aruanas é uma prova de como a Globoplay não tem ficado apenas na promessa e no bom trailer.
[País: Brasil // Idioma: português // Gênero: drama // Status: renovada para a segunda temporada // AP: n/a.]
19 – Big Mouth, 03×11: “Super Mouth” (04/10/2019) [Netflix]
Escrito por: Gil Ozeri // Dirigido por: Bryan Francis & Mike L. Mayfield

Três temporadas depois, já é seguro dizer que Big Mouth vem fazendo uma das mais sólidas jornadas na televisão. Daqueles primeiros episódios que nos pegaram desprevenidos e que nos deixaram um pouco tímidos, chegamos ao final da terceira temporada acompanhados de personagens carismáticas e um enredo que utiliza algo próximo do realismo fantástico. Além disso, diversas sequências aproveitam o formato, aquilo que somente uma animação pode fazer, para nos mergulhar em uma narrativa vibrante e hilária.
A Netflix tem sido uma boa vitrine para o que a animação adulta pode executar, aonde pode chegar. Big Mouth, então, mesmo que não traga algo totalmente inédito em sua forma de fazer humor, fá-lo com certa ruptura e frescor, principalmente dentro da grade de programação em que está inserida. Talvez em outros veículos, como o Adult Swim, a ousadia desta produção não se destacasse tanto quanto o faz aqui, perto de seriados mais tímidos e sem tantos diálogos provocativos. As escolhas visuais e o roteiro são tão bem pensados que acabamos perdoando como o grotesco é utilizado para falarmos sobre essas personagens adolescentes.
Em Super Mouth, último episódio dessa terceira temporada, damos um passo além nesse rumo ao absurdo proposto pela série. Aqui, a garotada ganha superpoderes depois de uma tempestade e os utiliza para confrontar uns aos outros e resolver algumas desavenças. Bom… Mas… Tá bom, Big Mouth, por que não? Através dessa concessão que a série pede e que alegremente damos, passamos quase trinta minutos dentro desse universo em que monstros criados pelo subconsciente e pouco confiáveis aconselham adolescentes de modo desastroso.
Nós conversamos algumas vezes sobre como a paródia está presente na televisão e como diversas séries utilizam o estilo para criticar ou homenagear outras produções. Aqui, os super-heróis que as crianças se tornam elevam esse estilo num cálculo que os mais desatentos definiriam como “se levar pouco a sério”. Na verdade, os roteiristas levam-se tão a sério que fazem uma boa calibragem de constrangimento e disparate para que cheguem a um texto tão atrevido que os telespectadores provavelmente voltarão algumas cenas para conferir o que foi dito ou pausaram para rir com mais folga antes de prosseguirem. É uma boa prova de que novas temporadas de séries veteranas ainda podem render contanto que haja um time esforçado e com energia em constante trabalho para que nada soe preguiçoso demais, fácil demais — e, nesse caso, natural demais.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: comédia // Status: renovada até a sexta temporada // AP: #32.]
18 – Undone, 01×05: “Alone in This (You Have Me)” (13/09/2019) [Prime Video]
Escrito por: Kate Purdy// Dirigido por: Hisko Hulsing

Algumas animações jamais poderiam virar séries live actions — ou porque é humanamente impossível ou porque esbarrariam em questões legais que tornariam a produção controversa demais: Os Simpsons, South Park e a recém citada Big Mouth são bons exemplos. Durante a maratona, em um seguimento mais experimental ou mais ousado, a decisão de transformar tais roteiros em animações vai fazendo sentido para nós. Um dos maiores defeitos, então, seria que qualquer telespectador se perguntasse, enquanto consome o produto final, por que o formato escolhido foi este.
Com Undone, ainda falando sobre animação, existe um certo momento em que isso é colocado em perspectiva. Nos primeiros episódios, ou, mais precisamente, no primeiro, a grande pergunta é qual a contribuição da série da Prime Video para sua mídia, em quê a história se beneficia em buscar artistas para transcrever o enredo de forma animada. A dúvida semeada em nossa cabeça chega a ser decepcionante, uma vez que a boa recepção internacional deixou a série com certa fama. No entanto, se tal questionamento passa por nossa cabeça no começo, a série trata de debochar dessa dúvida em seguida e somos mergulhados em um universo criativo, colorido e imaginativo que, sim, funciona justamente por ser animado.
Na história, acompanhamos Alma Winograd-Diaz (Rosa Salazar), uma mulher que sofre um acidente de carro e, a partir dele, começa a conversar de forma mais íntima com seu pai. O que há de estranho a respeito? Bom, seu pai é falecido. Nesse novo contato, os dois refletem sobre a elasticidade do tempo e sobre o que teria acontecido com ele, Jacob Winograd (Bob OdenKirk), no dia de sua morte. Undone começa no lugar comum da televisão e do cinema atual: uma narrativa sobre uma jovem adulta insatisfeita com sua rotina, boa e adequada, mas meio tediosa. Pessimista e quase repulsiva, encontramos uma protagonista não tão fascinante e um cotidiano desagradável. Conforme avançamos, porém, o roteiro vai esticando seus temas e começa a requerer para si a originalidade que pretende alcançar. Passamos a uma história confusa, mas naquela boa confusão que deixou muitas séries carinhosamente marcadas em nossa lembrança.
O quinto episódio, Alone In This (You Have Me), deixa mais evidente quantas camadas compõe o texto da série. Além da relação entre pai e filha, o mistério envolvendo o que pode ter se dado com ele e as reflexões sobre tempo e como manipulá-lo, temos explorado o relacionamento de Alma e seu namorado, Sam (Siddharth Dhananjay). A partir do acidente da protagonista, os dois entram em uma dinâmica problemática que o público conhece, mas não ela. É neste episódio em que o vínculo entre eles é contestado e, ao mesmo tempo, apresentado ao telespectador em seu histórico e sua complexidade. É sensível, mas sem deixar de ser intrigante.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: drama// Status: renovada para a segunda temporada // AP: n/a.]
17 – Dear White People, 03×08: “Chapter VIII” (02/08/2019) [Netflix]
Escrito por: Njeri Brown // Dirigido por: Sam Bailey

O ano passado teve diversas terceiras temporadas. Além de The Handmaid’s Tale, Sob Pressão, The Good Fight e Big Mouth, entre outras séries que apareceram por aqui, tivemos a continuação da controversa Dear White People. Criticada, mas não pelos motivos certos, DWP começou seu ano já fazendo piada de si mesma e do serviço em que está disponível — lá nos primeiros episódios, questiona qual a utilidade de uma série da Netflix que chega à terceira temporada. Assim, a própria série reconhece que há um desafio maior quando se alcança este ponto. O que há ainda precisa ser dito? O que há para ser explorado na narrativa e na jornada das personagens? São sempre pontos visitados (ou pelo menos deveriam ser) nas produções que retornam para a terceira parte de suas tramas.
Dear White People responde ao desafio não somente no humor que encontra na metalinguagem, mas mexendo no formato da própria série. Até então, tínhamos cada episódio centrado em uma das personagens, naquele estilo Skins, sabe? Para seu novo ano, temos esse foco dividido em todos os episódios. Não somos mais sufocados com os problemas e a visão de mundo de uma personagem por vez. A essa altura, nós já as conhecemos, não somos tão carentes desse momento a sós com sua visão de mundo. Visitamos diversos problemas por episódio, portanto. O humor típico da série continua bem presente, mas os assuntos sérios não são deixados de lado.
Preciso ser honesto, no entanto, e assumir que esta não é sua melhor temporada — afirmação que cabe em diversas séries da lista. Ainda assim, o esforço para alterar a dinâmica da série tem bons resultados e diferencia bem o que vemos aqui com o que foi mostrado até então.
Se a maioria dos novos episódios são divertidos, mas não tão extraordinários quanto absolutamente todos os seguimentos do segundo ano, o oitavo, Chapter VIII, lembra-nos a capacidade dos roteiristas de Dear. Aqui temos uma discussão que junta a maioria das personagens e que lida com um assunto grave, entre os tantos que a produção traz, mesmo com as piadas entre as cenas. É um debate que temos feito há certo tempo dentro e fora da televisão e um dos tópicos mais delicados de se abordar. A escolha de Njeri Brown é por fazer uma discussão literalmente uma discussão. Isto é, as personagens de fato param para falar a respeito, sem rodeios e sem metáforas. Por mais educativo demais que isso possa parecer, algumas coisas são argumentadas desse modo na vida real.
A opção por dividir o foco narrativo — e não fazer dez seguimentos individuais que contam a mesma história, cada um colaborando com seu pedaço — justifica-se nesse capítulo. Depois de acompanharmos as personagens e suas jornadas pelos episódios anteriores, faz bastante sentido que o tópico debatido assim o seja em grupo, com a participação de todos e com diferentes opiniões e modos de expressá-las. Não que a televisão deva ser totalmente didática em todo seu alcance, mas com Dear White People a sensação é que sempre há algo novo para se aprender, independente de qual lado você esteja deste debate. Para o melhor ou para o pior.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: dramédia // Status: renovada para a quarta e última temporada // AP: #5.]
16 – Irmandade, 01×08: “Palavra Num Faz Curva” (25/10/2019) [Netflix]
Escrito por: Felipe Sant’angelo e Tom Hamburguer // Dirigido por: Pedro Morelli

É interessante que comecemos a falar sobre este episódio a partir do título. Há algo extremo e irremediável nele e nessa atitude de se pensar que não podemos voltar atrás naquilo que falamos, que é tarde demais. A primeira temporada de Irmandade tem isso em sua atmosfera. As personagens não só têm conflitos complicados demais, como tudo o que fazem para tentar resolvê-los acaba piorando suas situações e as colocando em lugares ainda piores do que onde estavam anteriormente. Essa vibração, esse desejo de construir seu roteiro arriscando tudo, é uma das bases da tragédia, da teledramaturgia. Irmandade, por tanto, executa esse exercício muito bem e, ao final da temporada, a pergunta é: aonde iremos daqui? E toda vez que um telespectador se pergunta isso ao final de uma maratona, é porque a série soube se comprometer.
Na história, dois irmãos se reconectam: Edson (Seu Jorge) é um presidiário líder de uma facção criminal, enquanto Cristina (Naruna Costa) é uma advogada. Então, sim, não é a coisa mais fácil e livre de complicação do mundo. O problema é que entrar em contato com ele a faz se questionar sobre as ações de seu passado e no quanto pode ter contribuído para seu destino. Com esse peso na consciência, afinal, nada nos movimenta como a culpa o faz, Cristina decide se comprometer. Em busca da paz, no entanto, ela encontra uma verdadeira guerra pelo caminho e sua vida vira de ponta-cabeça. A partir de certo momento, a advogada começa a agir por conta do medo — e o medo é sempre uma motivação muito complicada para se fazer qualquer coisa.
A relação entre o crime e o audiovisual brasileiro não está apenas no telejornal e no cinema, mas na televisão. Em 2019, tivemos diversas séries que contribuíram para isso. Tivemos as documentais (Bandidos na TV da Netflix, por exemplo), as inventivas (Pico da Neblina da HBO), as biográficas (A Divisão da Globoplay) e as cruéis (Impuros da Fox Premium). Para fazer uma lista diversa tanto em temas quanto em estilos, não coloquei algumas das citadas por aqui. Irmandade, então, representa-as e mostra ao público da Netflix a capacidade de se contar uma história mesmo quando a temática nos é conhecida e já nos causa certa apreensão por conta de sua constante exploração no cinema e na tevê.
Em seus cinquenta minutos, Palavra Num Faz Curva tem segredos revelados, brigas entre as personagens e muita tensão. Se imaginamos a season finale de uma série como seu ponto climático, é isso que Irmandade nos dá. Talvez a melhor palavra para usarmos seja “proporção”: começamos com um drama muito particular, que sonda a protagonista e sua humilde residência; mas a coisa toda se alarga de uma forma que parece que chegamos à guerra no último episódio. Todas as vidas estão em risco e todas as cenas parecem contribuir para reafirmar a verdade do título e nos dizer que de tal ponto não voltaremos.
(Temos Hermila Guedes no elenco também, vale destacar, motivo suficiente para se começar qualquer coisa.)
[País: Brasil // Idioma: português // Gênero: drama // Status: descobrimento // AP: n/a.]
15 – The Marvelous Mrs Maisel, 03×05: “It’s Comedy or Cabbage” (06/05/12) [Prime Video]
Escrito por: Amy Sherman-Palladino // Dirigido por: Amy Sherman-Palladino

Há sempre algo a respeito do roteiro com todas as séries que eu adiciono à lista. Ou uma reviravolta ou um bom final ou o momento em que a temporada decidiu acordar. De uma forma ou de outra, essa parte do episódio contribui muito em minha consideração pela série. Com The Marvelous Mrs Maisel, no entanto, isso não acontece. A série está aqui, basicamente, porque é visualmente deslumbrante — e seu elenco tem uma performance deslumbrante também. Sempre que retorno à série, e em 2019 foi nossa terceira vez de fazer isso, é essa a sensação que tenho. Os cenários, os figurinos, a fotografia, é tudo tão impecável que é improvável que não suspiremos diante deste retrato do belo.
No que diz respeito ao roteiro: se você assistiu a qualquer série de Amy Sherman-Palladino, você meio que já assistiu à Maisel em certo sentido. Todas as personagens falam absolutamente igual, e isso é algo visto em Gilmore Girls e Bunheads, e até bonitinho no começo, mas, três temporadas depois, não sustenta o charme. Para não me deixar falar mal da série e a sustentar nessa posição, temos um elenco que trabalha ainda mais intensamente para que essa verdade não prevaleça. Então, sim, o humor de todas as personagens se dá no mesmo lugar, elas se comunicam da mesma forma (com os mesmos atropelos e desconexão do que o outro tem a dizer), mas os atores entram no jogo e fazem valer todas as indicações e prêmios que ganharam nos últimos anos. Não dá nem para citar um como exemplo porque todos estão realmente muito bem — o que justifica o prêmio no SAG de melhor elenco.
Na terceira temporada desta série sobre uma mãe solteira tentando se estabelecer como comediante a partir dos anos cinquenta, temos a carreira de Midge (Rachel Bosnahan) entrando numa nova fase e sua família se relacionando com isso. A vida amorosa continua a ser complicada — mas, numa série sobre uma dona de casa que é deixada pelo marido, nós meio que esperamos isso. Ganhamos novos cenários e novos palcos para que a personagem exiba seu talento e seu carisma. A dinâmica da série continua a mesma, mesmo que visite conflitos antigos. Não sendo jamais a minha recomendação por “boa história” ou “história arrebatadora”, Mrs Maisel pode ser por série divertida.
Maravilhosa Sra. Maisel é tão bem cuidada (e em todas as cenas) que qualquer episódio poderia servir de exemplo para esse deslumbramento que eu cito aqui. Seja em uma cena envolvendo uma tropa no primeiro episódio dessa temporada ou nas viagens que Midge e Susie (Alexis Borstein) fazem juntas, dá para pausar a série em qualquer instante e ter algo a se dizer a respeito da fotografia. Para nossa lista, escolhi It’s Comedy or Cabbage. Aqui, temos um bom momento dentro deste humor do seriado que brinca tanto com o embaraçoso. Todas as personagens parecem participar de cenas desconfortáveis (e hilárias) — mesmo e principalmente os pais de Midge. Pode não ser o melhor exemplo de roteiro engajador, mas é minimante charmoso e agradavelmente engraçado.
Mostra a comédia em seu momento de grandes e exuberantes produções — mesmo que as que mais nos toquem o façam em seu núcleo pequeno e intimista, como Fleabag.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: comédia // Status: renovada para a quarta temporada // AP: #3.]
14 – Peaky Blinders, 05×06: “Mr Jones” (22/09/2019) [BBC One]
Escrito por: Steven Knight // Dirigido por: Anthony Byrne

Se eu disse que muitas séries presentes aqui são “prova” de alguma coisa, Peaky Blinders estreando no nosso ranking de melhores episódios do Série Maníacos é uma prova de que eu estou sempre atento e valorizo as recomendações que vocês me fazem nos comentários. Assim como a ausência de Survivor foi pontuada no ano passado, lembro também de comentários sobre o drama britânico e o quanto ele precisava aparecer por aqui. Já começo agradecendo os que fizeram tal observação: Peaky Blinders é, realmente, tudo isso que estão dizendo.
No ar desde 2013 e fazendo temporadas a certos intervalos, a série conta a história de uma família gangster que tem a pretensão de dominar sua cidade, seja através do dinheiro ou através da violência. Conforme vão conseguindo mais espaço, aprendendo a manipular a polícia e vencendo outras gangues rivais, os autodenominados Peaky Blinders vão se pondo em situações de risco, e isso lhes traz consequências terríveis. Não só pelos cenários e pelo sotaque dos atores, Peaky é um bom exemplo da produção britânica, seu charme e sua elegância. O tema não é inédito ou presente apenas na BBC, mas o estilo narrativo é bem típico do país.
Preciso adiantar, no entanto, que a quinta temporada da série não é sua melhor. Assim como em algumas das séries anteriores, temos um bom ano, boas reviravoltas e bons rumos para a história, mas nada muito perto da angústia e da tensão de outros anos — principalmente a quarta temporada na qual tudo parecia a ponto de se perder. Neste novo ano, as coisas são mais voltadas para a política e como ela é realizada nas terras desses irmãos. Às vezes, a sensação é de que o enredo se desloca, e dessa vez de forma sufocante, para a cabeça do protagonista que está cada vez mais poderoso, mas cada vez mais assustado com a possibilidade de não ter controle sobre aquilo que está sob seu domínio. É uma viagem psicológica bem realizada, mas que deixa certo saudosismo pela dinâmica de outras temporadas.
Os últimos episódios das cinco temporadas de Peaky são sempre decisivos. Nesta quinta, temos um empolgante momento de tensão que possivelmente ditará o futuro da série já prometida até a sétima temporada. De todos os antagonistas mostrados a cada temporada, há algo diferente sobre Oswald Mosley, interpretado por Sam Claflin. Há um perigo a respeito dele e de seu charme. Mesmo não aparecendo em boa parte do episódio, quando isso ocorre, a atmosfera muda totalmente e sabemos que não estamos diante de alguém que será derrotado facilmente. Mr Jones também tem mortes surpreendentes, a mesma trilha enérgica que tanto nos empolgou anteriormente e o elenco entregando em suas performances o cansaço de suas personagens, exaustas pelas constantes lutas.
[País: Reino Unido // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: sexta temporada em planejamento // AP: ausente.]
13 – BoJack Horseman, 06×02: “The New Client” (25/10/2019) [Netflix]
Escrito por: Nick Adams // Dirigido por: Amy Winfrey

É bom que gostemos do protagonista de uma série, mas nem sempre isso acontece. Às vezes, na verdade, nós nos apegamos às personagens coadjuvantes, suas trajetórias e conflitos e apenas relevamos as cenas em que elas não estão presentes. Todos nós já tivemos, acredito, séries que acompanhamos somente porque nos identificávamos com aquela personagem secundária ou porque ela nos cativava de um modo muito distinto. De uma forma ou de outra, odiando ou morrendo de amores pelo herói do enredo, é importante que tenhamos um bom elenco secundário e um roteiro com boas personagens para que, entre outras coisas, ninguém “roube cena” alguma e estejamos suficientemente engajados pela temporada inteira.
Quando o foco deixa de ser a história principal e se desvia para uma dessas coadjuvantes, é o momento de testarmos o bom trabalho que o texto fez até então. Diversas séries o fizeram em episódios em que o protagonista tem sua aparição reduzida ou sequer aparece. Trazendo essa discussão para BoJack Horseman, percebemos que, por mais que a história principal seja a mais profunda e engajadora (e devastadora), a série fez um bom papel na construção de suas personagens. O resultado é que nos sentimos próximos não somente do ator problemático e com demônios para vencer, mas de seus amigos e colegas de profissão. The New Client é um bom episódio para se provar isso.
Digo com frequência que um dos problemas que vejo com frequência nas séries brasileiras é o quanto elas sobrecarregam o protagonista da história. Mesmo em Sob Pressão, a melhor coisa que apareceu na televisão nos últimos anos, temos Marjorie Estiano e Júlio Andrade como os grandes centros da série. Sequer conseguimos imaginar, por exemplo, se a atriz deixasse a produção. Sabemos os traumas e conflitos de suas personagens, mas meio que não temos tão decorado o que ocorre com as outras, os médicos colegas na série. É o mesmo problema de Carcereiros, Ilha de Ferro e diversas outras produções, algo que passa em branco acompanhando semanalmente, mas que fica evidente quando assistimos em maratona, proposta dos serviços de streaming.
BoJack, então, não tem este problema tão agravado, por mais que a série leve o nome da personagem principal. É por isso que temos diversos e diversos episódios focados nas crises de outras personagens. Essa opção, vale ressaltar, não pode ser feita de uma hora para outra: se não formos cativados lá no início, é inviável que a série, de repente, decida dar voz a essas pessoas — simplesmente não nos interessaríamos. Mas se há um esforço, desde o princípio, com esta finalidade, ele é valorizado neste momento.
Um retrato realista do cansaço que acompanha a maternidade, The New Client usa os recursos da animação para criar certo desespero nos telespectadores. Ela não é vista aqui apenas em sua beleza, no amor atrelado ou no aspecto quase sagrado a seu respeito, mas em seu compromisso e responsabilidade. Ser mãe é trabalhoso, demanda muito, ocupa muito, o roteiro parece nos dizer. Depois de quase trinta minutos nessa jornada, concordamos, mesmo que estejamos longe de tal experiência. Mesmo em uma temporada pronta para encerrar a saga de Horseman, não deixamos ninguém de lado e todos os conflitos parecem importantes.
Para uma boa série, não precisamos apenas de uma visão de mundo, mas visões de mundo que ajudem a contar uma história. Como na vida real, nada está completo se só contamos com nossa opinião e nossa experiência. Da herança que deixou à televisão e de tudo o que fez muito bem em todos esses anos, fica aqui a lembrança de como BoJack também soube reconhecer a importância dos olhos alheios.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: finalizada // AP: #9.]
12 – Primal, 01×05: “Rage of the Ape-Men” (11/10/2019) [Adult Swim]
Escrito por: David Krentz // Dirigido por: Genndy Tartakovsky

Durante nossa conversa sobre séries, agora perto do fim, eu falo muito sobre texto. Falo que temos um texto ousado, inventivo ou repetitivo, entre outras coisas. Falo sobre diálogos ousados e frases de efeito marcantes. Falo também sobre a construção de personagens através de seus discursos, do que elas têm a dizer sobre o mundo. Mas e uma série que não tem diálogos?
Na quarta animação de hoje — e prometo que só teremos duas no TOP 10 —, temos uma série do Adult Swim que se arriscou nesse sentido. Não chega a ser uma surpresa tão grande, uma vez que o canal tem nos dado provas e mais provas de sua coragem e do quanto está pronto para se comprometer com aquilo que exibe em sua programação. Se já não se sustentasse sozinha por conta da qualidade dos cinco episódios que compuseram sua primeira temporada, Primal estaria por aqui como forma de representar a contribuição que seu canal de origem tem feito ao mundo televisivo.
A história é consideravelmente simples: acompanhamos um homem das cavernas e seus desafios para sobreviver. Depois de ser tocado por uma tragédia, ele acaba fazendo uma estranha e arriscada amizade com um dinossauro, e ambos se aliam para enfrentar os perigos em tal era. Sem diálogos nos explicando as motivações das personagens, Primal se torna uma jornada visual e auditiva: uma animação pouco preocupada com os passos que demos para o realista em seu formato e uma trilha e edição de som que são bons acompanhamentos às aventuras da dupla.
Em Rage of the Ape-Men, temos um novo perigo. Enquanto a amizade ainda é algo incerto e parece perigosa a ambos, os dois são surpreendidos por um grupo de animais que cruza seu caminho. Em número menor, Spear e seu companheiro terão que usar não somente a força e o instinto, mas a astúcia para vencer esse obstáculo. Somente então, quando acuados, os dois perceberão o quanto a vida do parceiro é valiosa e o que farão para defendê-la. É criativo, empolgante e consegue nos tocar sem apelar para as grandes palavras que tanto mexem conosco.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: aventura // Status: renovada para a segunda temporada // AP: n/a.]
11 – Mindhunter, 02×05: “Episode 5” (10/11/2019) [Netflix]
Escrito por: Pamela Cederquist e Liz Hannah // Dirigido por: Andrew Dominik

Voltamos ao crime.
Qualquer pessoa que acompanha o estudo que se faz a respeito de assassinos em série estava esperando por este episódio. Aqui o foco é no mais famoso e terrível e tantos outros adjetivos desses criminosos: Charles Manson. Não chega a ser um spoiler (espero), porque desde o primeiro episódio sabemos que este chegaria. Era um interesse das personagens e era um interesse nosso — e sabe-se lá por que ambos, as personagens em tela e nós em nosso sofá, estávamos tão entusiasmados com isso.
Mas como o objetivo do ranking não é fazer um estudo de nosso fascínio, mas elencar os melhores episódios do ano passado, foquemos não no nosso interesse, mas em como Mindhunter soube explorá-lo. Tivemos cenas e mais cenas desconfortáveis nessas duas temporadas, com muitos presidiários fazendo descrições que possivelmente provocaram reações físicas em seus telespectadores. Ainda assim, nada te prepara muito bem ao discurso de Manson.
Interpretado por Damon Herriman, e fico te devendo as comparações porque haja estômago para aqueles vídeos no YouTube, gostei de sua participação. Jonathan Groff e Holt McCallany, que servem de contraponto na cena, realizam o bom trabalho que já estamos acostumados: o primeiro como a (irritante) figura em transe com o comportamento e a mente dos assassinos em série, enquanto o segundo tem pouca paciência para isso, até porque sua vida pessoal está ficando alinhada demais com as narrativas que tem ouvido no trabalho.
Antes e depois da cena envolvendo Manson, temos bons momentos com Bill e Wendy (Anna Torv), nos quais as vidas pessoais deles são exploradas — novamente batendo na tecla do que eu falei sobre a série anterior. Há uma boa interação no quarteto principal, sempre muito crível como pessoas apaixonadas pelo seu trabalho. Temos Holden sendo a porta que sempre é em interações sociais e uma participação recorrente sempre bem-vinda, mesmo que sempre incômoda.
O quanto há de hipnótico e perigoso no que tanto Charles quanto seus seguidores têm a dizer é bem retratado pela série, no estilo e charme que são quase lugares-comuns por agora. É até complicado juntar algumas palavras e dizer que Mindhunter é elegante mesmo enquanto retrata crimes bárbaros e de nos deixar perturbados por dias. Ainda assim, parece adequado e fazer sentido, uma vez que o nome de David Fincher está nos créditos, e ele já nos provou no passado que dá para encontrar estilo e personalidade enquanto se retrata os maiores horrores da mente humana.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: em hiato indefinido // AP: n/a.]
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Chegamos ao fim da penúltima parte. Nos próximos dias, volto com o TOP 10 final dos 100 melhores episódios desse ano — e, de bônus, teremos as melhores cenas, melhores temporadas e as melhores personagens. Quais séries vocês acham que compõe os últimos dez nomes e quais não podem faltar?
As capas desses rankings são do André Zuil, que generosamente aceitou participar novamente este ano.















