“Somente um homem que sabe o que sente ao ser derrotado pode ir até o fundo de sua alma e tirar dali aquilo que lhe resta de energia para vencer um combate equilibrado.” – Muhammad Ali

Destacamento Blood (Da 5 Blood), o aguardado drama de guerra da Netflix, teve uma estreia marcante e oportuna em meio a convulsão social por equidade que assola o mundo. O filme deveria ser lançado nos cinemas, mas devido a pandemia não foi possível, daí a melhor opção foi lançá-lo através da gigante do streaming, o que parece ter sido uma boa solução. Apesar de Spike Lee já ter feito outros projetos para a Netflix, esse é o seu primeiro longa para a plataforma e, curiosamente, vem alcançando uma grande audiência, inclusive no Brasil. Spike Lee é muito conhecido pelo seu ativismo e por seu engajamento ao trazer a luta do povo negro para a pauta da sua obra. Foi assim em filmes como Faça a Coisa Certa (1989), Febre de Selva (1991), Malcolm X (1992) e Infiltrado na Klan (2018), na sua mais nova produção o diretor não tenta ser sutil e escancara os seus posicionamentos sobre a guerra, fazendo uma impressionante revisão histórica da história não contada nos livros didáticos.

Destacamento Blood segue um grupo de homens veteranos de guerra, todos negros, que lutaram em 1971 no Vietnã, eles se tratam como irmãos de sangue, daí o título original do filme. O grupo é composto por Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis), Melvin (Isiah Whitlock Jr.) e a constante presença em flashback do já falecido Stormin’ Norman (Chadwick Boseman). Otis, uma espécie de mentor arrazoado do grupo, é quem planeja a viagem de volta ao Vietnã, com o intuito de recuperar os restos mortais de Norman, o antigo líder do grupo, e lhe dar um enterro digno em solo americano. Por trás desse resgate existe a intenção secundária de recuperar uma fortuna em ouro enterrado em solo vietnamita. Como podemos imaginar, tudo que envolve dinheiro gera conflitos, aqui a situação não difere disso e, em pouco tempo, as intrigas, as traições e as desconfianças começam a surgir entre todos os elementos envolvidos nessa jornada.

A trama se alicerça primordialmente entra a busca pelos restos mortais do líder e a caça ao ouro, mas não se resume apenas a esse contexto, ela se dilata em uma jornada as vezes alegre e divertida ao passado bélico americano, confrontando cinicamente o seu mito de superioridade militar, apesar de ter perdido a guerra; outras vezes o longa se aventura pelo drama mais denso ao nos apresentar o passado mais injusto e menos cívico dessa nação através da perspectiva desses irmãos de sangue. Aqui temos Spike Lee, sem maniqueísmo, fazendo uma variação em torno do mesmo tema que ele vem tratando ao longo da sua biografia cinematográfica, doa a quem doer.

Por isso, nem de longe o filme é maniqueísta, vemos muito dessa experiência na construção narrativa do personagem Paul, magistralmente interpretado por Delroy Lindo, que apesar de se sentir usado por sua pátria ao longo da sua vida e de lutar por reconhecimento e mais direitos, revela para o seu grupo de amigos ter votado em Donald Trump nas últimas eleições, o que é um contrassenso, porém, justificado pelo cansaço depressivo do personagem e por sua falta de esperança. Paul não é um tipo convencional de herói de guerra, ele não é ruim, mas também não é uma boa pessoa e expressa essa dicotomia em seus momentos de explosão e impulsividade. Ele sofre de Transtorno de Estresse pós-traumático (TEPT), apesar de não admitir e de não aceitar ajuda. Ele é o personagem com mais camadas, carrega muitos segredos e estigmas do seu tempo na guerra, por isso, trava uma luta interna para dissociar a sua realidade atual dos conflitos vivenciados no Vietnã. Nos minutos finais do filme, Paul tem um poderoso monólogo que esclarece para o público os motivos das suas constantes explosões emocionais, explicitando que apesar de ele ter saído da guerra, ela, a guerra, nunca saiu dele.

Por falar na guerra infinita que quebrou o espírito combativo do personagem Paul, Spike Lee se apropriou de inúmeras referências dos grandes filmes de guerra para montar a sua colcha de retalhos simbólica, criando um paralelo assimétrico entre as guerras da vida real e as guerras imaginadas e retratadas por Hollywood. Algumas dessas referências aparecem de forma óbvia, outras estão escondidas entre uma frase e outra ou na inserção de algumas músicas ou na escolha da fotografia em determinadas cenas. Esse recurso não dificulta a compreensão da proposta do filme, pelo contrário, impulsiona o público a querer conhecer um pouco mais sobre essas obras que inspiraram Lee na confecção do seu próprio filme de guerra, gerando uma sensação de que tudo em cena já foi visto em algum lugar, só que de uma maneira diferente.

É possível ver claramente as referências ao filme Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola (1979), em toda a estética de Destacamento Blood, quer seja no nome do bote que serviu de palco para o reencontro desse homens – que leva o mesmo nome do filme de Coppola -, ou na releitura da conhecida sequência dos helicópteros atacando uma vila ao som da composição de Wagner, Cavalgada das Valquírias, sendo recriada nesse contexto em uma simbólica viagem em um barco de turismo rumo ao desconhecido. Mais adiante ainda é possível localizar referências a alguns grandes filmes de guerra como: A Ponte do Rio Kwai (1957), que conta a história de prisioneiros britânicos que são obrigados a construir uma ponte ferroviária enquanto são motivados pelo seu líder, o Coronel Nicholson, representado aqui por Norman, líder dos Bloods; Três Reis (1999) conta a história de quatro soldados no final da Guerra do Golfo empenhados em encontrar milhões em barras de ouro roubados do Kuwait, coincidentemente a mesma missão dos Bloods, só que no Vietnã; Platoon (1986) premiado filme de Oliver Stone que mostra os horrores da guerra através dos olhos do recruta Chris Taylor, aqui vemos esses horrores através dos olhos desses amigos, principalmente Paul; Kelly’s Heroes (1970) filme com Clint Eastwood que conta a história de um grupo de solados na Segunda Guerra tentando roubar 14 mil barras de ouro atrás das linhas inimigas. Ou seja, ao mesmo tempo que Lee homenageia o gênero ele também tece uma dura crítica à visão unilateral e romântica da guerra produzida pela Indústria Cinematográfica Hollywoodiana; ao evocar filmes como Rambo, Comando para Matar e as produções envolvendo Chuck Norris, Lee escancara que, apesar de terem feito sucesso em determinada época, todos eles são um epítome das fantasias bélicas de uma Hollywood afinada com o ideal armamentista e de segregação do governo de Reagan.

Destacamento Blood alterna a sua narrativa para apresentar dois modelos de flashbacks, o primeiro modelo é destinado a mostrar o passado ficcional dos cinco personagens principais, enquanto o segundo modelo nos exibe algumas imagens históricas reais da guerra do Vietnã e dos diversos Movimentos pela Libertação Negra em território americano. Nessas inserções de imagens reais é possível ver a foto de Kim Phuc, conhecida como a menina do napalm; a dos atletas Tommie Smith e John Carlos com os punhos erguidos nos Jogos Olímpicos de 1968; o lutador de Boxe Muhammad Ali; os ativistas Kwame Ture, Angela Davis e Bobby Seale, entre outros.

Apesar de em muitos momentos o filme apresentar um aspecto documental e fazer uma espécie de revisão histórica exaltando os nomes de personalidades negras que contribuíram para a edificação dos Estados Unidos e que foram expoentes durante essa fatídica guerra, ele faz questão de nos lembrar que enquanto uma guerra era travada em terreno estrangeiro, onde soldados negros defendiam o ponto de vista americano; em seu próprio país um outro tipo de guerra acontecia, a guerra pelos direitos civis e contra e repressão policial. Soa estranho lutar pelas forças armadas de um país que não lhe reconhece enquanto cidadão? Soa estranho constatar que atualmente uma nova geração está lutando pelas mesmas razões?

Abro aqui um pequeno espaço para discorrer brevemente sobre Norman, personagem de Boseman, um homem comum, mas com status de líder, a verdadeira corporificação do herói e do mentor desses Bloods; apesar de morto em guerra, ele é uma presença constante nos flashbacks e, sobretudo, no ideário imagético de Paul, que o enxerga como uma mescla de Martin Luther King Jr., e Malcolm X, uma espécie de fantasma que o segue por todo lugar e que condensa os principais pensamentos pacifistas, mas também defende a luta armada. Ao personagem é reservado o espaço para as falas mais emblemáticas que traçam um paralelo entre as desigualdades sociais e civis dos negros americanos do período da guerra do Vietnã e as dificuldades vivenciadas por essa comunidade na atualidade, mostrando que, apesar de conservarem o espírito de patriotismo nas trincheiras, ainda precisavam/precisam travar uma outra luta em seu próprio território.

Falando em patriotismo, cabe aqui uma consideração sobre o desagrado da comunidade vietnamita quanto à forma caricata, segundo eles, com que foram representados nesse longa. Creio que essa representação pouco aprofundada, no meu ponto de vista, não se deu intencionalmente, já que dentro do universo do blaxploitation – onde Lee tem lugar de fala -, ele usualmente se vale da caricatura para chocar o público ou evocar de forma acentuada elementos comuns à cultura negra, no entanto, mesmo reconhecendo esse elemento como um ponto estético recorrente dentro da obra do diretor, necessariamente não quer dizer que ele possa ser utilizado acertadamente para referenciar uma outra cultura, que também sofreu os horrores da guerra, só que do outro lado das trincheiras. Suponho que Lee estava demasiadamente focado em contar a história dos Bloods com tamanha riqueza de detalhes que não se atentou para ser mais detalhista em relação a representação dos vietnamitas nesse longa.

Apesar de dialogar diretamente com o momento atual e com um público específico, que pode ser a comunidade negra americana ou de qualquer outro país, o filme proporciona uma justa revisão histórica que vale para qualquer indivíduo que procura se educar e aprender com os erros do passado. Destacamento Blood gera um estranhamento para quem não está familiarizado com o estilo de Spike Lee ou só o conhece através do seu recente filme Infiltrado na Klan. Lee é um diretor bastante experiente e engajado, sendo difícil, às vezes, dissociar a sua obra do seu próprio ativismo. Contudo, o seu didatismo, a sua técnica e a sua forma de referenciar as circunstâncias de modo intelectualizado, irônico, caricato, poético e caótico podem gerar uma incompreensão da sua proposta. Compreendo claramente quem não gostou desse filme, da mesma forma que compreendo aqueles que não alcançaram todas as referências contidas no mesmo ou classificaram o filme como muito longo e com narrativas desconexas, sobretudo o ato final, bastante surreal, mas a grande proposta do filme não é uma aventura ao estilo Indiana Jones de caça ao tesouro, é um mergulho no interior daqueles personagens, consequentemente, um mergulho no interior do próprio Movimento Negro Americano e as suas diversas facetas ao longo da história da sociedade americana.

Spike Lee, nesse longa, não procurou o caminho mais fácil para retratar as diversas facetas do Movimento Negro Americano e a sua constante luta por direitos civis e equidade, ele enveredou por um caminho catártico, tal qual uma cerca de arame farpado que machuca dos dois lados, ele de alguma forma tentou exorcizar os pecados cometidos na guerra e em solo americano contra a população negra, ao mesmo tempo ele lançou um novo olhar sobre a forma como os livros didáticos de história referenciam os seus heróis, quase sempre brancos, ocultando a história do povo negro que ajudou a construir a nação. Sendo assim, ao assistirmos esse filme, tenhamos em mente que a interpretação é livre; que ele pode gerar estranheza por se tratar de um filme didático, por isso, tem a duração que Lee achou necessária para contar a sua história, que poderia ser a nossa história também e independente de apreciarmos ou não esse gênero de filme, tentemos absorver a sua importante mensagem.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-destacamento-blood-da-netflix-e-uma-impressionante-revisao-historica-da-historia-nao-contadaSpike Lee, nesse longa, não procurou o caminho mais fácil para retratar as diversas facetas do Movimento Negro Americano e a sua constante luta por direitos civis e equidade, ele enveredou por um caminho catártico, tal qual uma cerca de arame farpado que machuca dos dois lados, ele de alguma forma tentou exorcizar os pecados cometidos na guerra e em solo americano contra a população negra, ao mesmo tempo ele lançou um novo olhar sobre a forma como os livros didáticos de história referenciam os seus heróis, quase sempre brancos, ocultando a história do povo negro que ajudou a construir a nação.