Após 170 episódios, Arrow entrega o fim de sua história.
Com uma temporada final voltada majoritariamente para Crise nas Infinitas Terras, Arrow ganhou pelo menos seu episódio final para fechar suas pontas e homenagear sua história sem precisar se preocupar com universos se destruindo e vilões intergalácticos. E, apesar de Fadeout ainda falhar em alguns pontos, podemos considerar como um encerramento digno da trama por conseguir reviver grande parte de sua trajetória trazendo o maior número de elementos possíveis para este ato final.
Como vimos na Crise, Oliver Queen se sacrificou para salvar o multiverso e, com isso, criar uma realidade perfeita onde o Arqueiro Verde é, enfim, considerado um herói à altura e recebe todas as honrarias por proporcionar uma segunda chance a todos. O que já não era sem tempo, uma vez que uma das coisas mais aborrecidas da série era presenciar o pouco caso que Star City fazia de seu herói, que foi perseguido por anos quando devia, na verdade, receber uma homenagem por cada grande ameaça combatida na cidade – Empreendimento de Malcolm Meryln, exército de Slade Wilson, Damien Darhk, entre tantas outras. Mas aqui não estamos falando de heróis iluminados como Supergirl ou Flash, que volta e meia estão recebendo as chaves da cidade, mas sim de um homem que abdicou muito de sua vida para trilhar um caminho sombrio que levava à um objetivo nobre. Sim, o Arqueiro Verde, em seu início de carreira, fazia o que achava ser necessário para limpar a cidade que estava cada vez mais mergulhada em crimes, não importando quantos tivessem que retirar do caminho para isso, e, por essa razão, nunca foi capaz de conquistar o amor do povo que protegia, mesmo se mostrando, com o passar dos anos cada vez mais digno disso.
Gostei de ver que Fadeout teve o cuidado de estabelecer esse paralelo entre o Arqueiro de 2012, uma verdadeira máquina de matar, com o homem que deu sua vida pelo universo. Através de flashbacks da época da primeira temporada, nos recordamos da missão original com a qual Oliver saiu de Lian Yu: Desintoxicar a cidade riscando nomes de um caderno semana após semana. Uma premissa procedural que funcionou na época, mas que logo precisou se tornar algo mais, para o próprio bem da história, afinal, como bem foi enfatizado no episódio, a missão nunca irá acabar.
Um episódio final de Arrow sem flashbacks não seria perfeito, afinal, foi este elemento que diferenciou a série de muitas produções por sempre tentar conectar o passado do Arqueiro com alguma situação que ele estava vivenciando. E mesmo que tenha se tornado cansativo com o passar das temporadas, o recurso foi muito bem utilizado aqui, por nos transportar para uma época perdida aonde Oliver ia sozinho para o campo atrás dos nomes de seu fatídico caderno. A narrativa escolhida para esta última visita ao passado foi John Diggle tentando impedir Oliver de matar de modo desnecessário, nos dando um vislumbre de como o vínculo dos dois começou a ser formado e de como John foi a bússola moral por diversas vezes de Oliver. Acompanhar a relação entre a dupla, que viraram verdadeiramente irmãos, será um dos aspectos em que Arrow mais fará falta.
Mas não só de diálogos entre Oliver e John foram feitos os flashbacks, pois também fomos presenteados com a melhor cena de luta que Arrow – e muitas outras séries – nos entregou nos últimos anos. Uma sequência cuidadosamente criada e dirigida para homenagear um dos pontos altos da produção: O combate cru e visceral que, mesmo poupando no sangue, consegue empolgar a audiência. E, ao final de flechas lançadas, ossos quebrados e golpes muito bem trabalhados, o Arqueiro Verde começa a mostrar seus primeiros sinais de que é um verdadeiro herói e poupa seu alvo, o que nos leva diretamente aos dias atuais.
O “vilão da semana” e sua justificativa insossa de se vingar do homem que o prendeu – que poderia muito bem tê-lo matado – serviu apenas para reunir o time uma última vez e mostrar para a cidade que Oliver Queen pode estar morto, mas que o legado do Arqueiro Verde ainda vive na forma daquelas pessoas que por ele foram treinadas e inspiradas.
O caso do milésimo sequestro de William foi esquecível e seria inadmissível tê-lo como último da série se não fosse o retorno de toda a equipe para reunir forças para encontrá-lo. Ter tanta gente envolvida na “operação” nem era tão necessário assim, mas pelo fator nostalgia podemos aceitar.
Tivemos o retorno de Rory Regan, o Retalho, nome que fez muita falta na equipe à despeito das personalidades volúveis de Dinah, René e Curtis. Fomos agraciados, também, com Thea e Roy, finalmente conseguiram colocar o relacionamento nos eixos depois de uma história cheia de buracos que foi improvisada após ambos deixarem o elenco fixo da série. E claro, Mia Queen vindo diretamente de 2040 para mostrar que o Arqueiro Verde está mais vivo que nunca.
Mesmo com esses retornos, a trama do sequestro de William poderia muito bem ser cortada, afinal, o funeral de Oliver era motivo suficiente para termos todos os nomes que fizeram história em Arrow de volta, e aqui entramos no eixo mais fraco do episódio.
Como parte da realidade perfeita, Oliver com seus poderes infinitos como Espectro acabou por trazer de volta personagens que foram mortos durante a série e cuja perda teve forte impacto para nosso protagonista. Assim, Moira, Tommy e Quentin foram revividos, invalidando muito da história da série que precisou dessas mortes para aprofundar seu arco dramático. Até mesmo Emiko retornou, nome que eu até senti falta de ser reverenciado na temporada mas que não havia necessidade de ter retornando como uma persona grata dentro do seio da reestruturada família Queen.

E não há como não falar nos retornos sem notar o grande vazio que foi a ausência da Laurel Lance original. Com Katie Cassidy ali disponível para atuar em quantas versões da personagem os roteiristas inventarem, não ter a ex-Canário Negro de volta foi uma bofetada sem mão para qualquer um que reconheça minimamente a história de Laurel e o quanto esta foi maltratada e ignorada até o fim pela alta cúpula de Arrow. Passando de ex traída para alcoólatra e heroína em ascensão – para logo em seguida encontrar sua morte e retornar, um ano depois, na pele de uma sósia de outra Terra que seria vilã mas se redimiu para se tornar uma heroína com certos desvios de caráter – o nome de Laurel sempre foi sinônimo de péssima escrita e bagunça de narrativa, e é triste ver que nem no episódio final da série os roteiristas tiveram a decência de tratar bem a personagem, com até mesmo as justificativas dadas para sua ausência, dentro e fora das telas, sendo completamente vazias e sem sentido. Em que mundo Oliver não traria Laurel de volta, logo aquela de quem esteve ao lado até o fim? Pelo menos, com o encerramento da série, não precisaremos mais engolir sapo com produtores que pegam um personagem para Cristo. Que Katie Cassidy tenha melhor sorte lá em Green Arrow & The Canaries, porque aqui a situação foi deplorável.
Mas não podemos falar de escrita ruim se formos falar do trio clássico da série formado por Oliver, Felicity e John. Falando primeiramente de John, o Espartano teve um tratamento bem linear na série, sendo poucos os momentos em que ficamos em dúvida sobre como a personalidade do personagem estava sendo retratada. E Diggle teve grandes momentos em Fadeout, sendo inclusive entregue a ele o discurso final em reverência à vida e morte de Oliver Queen. E como não se empolgar com sua cena final, com os produtores oficializando um flerte que vinha sendo feito nos últimos anos? No dia mais claro, na noite mais densa…
Sobre Oliver não há mais muita coisa que eu possa falar, depois de anos cobrindo a série e acompanhando o personagem de perto, sinto que tivemos o melhor final possível para ele: Reconhecido como o grande herói que é e ao lado de sua esposa, a quem por tanto tempo esperou.
Felicity Smoak era um nome essencial para uma conclusão com chave de ouro e, felizmente, Emily Bett Rickards retornou para o último adeus de sua personagem, após uma conclusão que já havia sido bem competente no final da sétima temporada. O roteiro precisou se adaptar para comportar a agenda apertada de Emily e, por isso, Felicity acabou tendo menos cenas do que eu gostaria para uma ocasião desta, porém ela estava ali nas ocasiões que mais importavam: A homenagem e o funeral de Oliver e o encontro com Mia, descobrindo que a filha também conhecera o pai e que se tornara uma heroína, sendo o perfeito retrato do casal que se conhecera lá nos primórdios da série e principal rosto de toda uma nova geração de heróis.
Para sua cena final, Arrow optou por retornar ao final da sétima temporada onde o Monitor levava a Felicity de 2040 a fim de reencontrar o marido. Aqui vimos que o portal levava à uma outra dimensão criada pelo Espectro especialmente para receber a mulher, mostrando que Oliver Queen pode não estar mais entre seus queridos, mas, agora com poderes de um deus, nunca estará realmente morto. Um final perfeito para um herói que criou um universo, tanto em sua história quanto para quem acompanha sua série e todas as outras que nasceram a partir desta.
Com Oliver e Felicity novamente juntos para aproveitar todo o tempo do mundo, Arrow se despede depois de oito anos em uma verdadeira montanha-russa, com um episódio que pode não ser tão atrativo isoladamente falhando, mas sintetiza com cuidado tudo que a série apresentou e representou, afinal, o show pode ter terminado, mas o Arqueiro Verde está, mais do que nunca, fixado na cultura pop através do meticuloso trabalho realizado entre a parceria DC/CW e seus frutos serão colhidos por ainda muitos anos.
Flechadas:
– A família Diggle se mudou para Metrópolis, será que poderemos vê-los em Superman & Lois? Vale lembrar que John em breve fará uma participação em The Flash.
– Quer dizer que Oliver criou uma realidade em que Tommy e Laurel se casaram mas mesmo assim a deixou morta? Ok.
– Gostei de ver o breve diálogo entre Nyssa e Talia sobre o nefasto pai, nos fazendo recordar de toda a trama da Liga dos Assuntos. E o que dizer de Nyssa chamando Sara de sua amada? Aqui está um casal que nunca deveria ter terminado.
– Por pouco Artémis e Caçadora não retornaram também. Eu bem que queria ver Helena Bertinelli de volta, principalmente por conta de ter sido citada no piloto de Green Arrow & The Canaries. Já a outra eu dispenso.
– Gostaria de agradecer a todos que acompanharam, rigorosa ou esporadicamente, minha cobertura da série desde sua sexta temporada. Foi um prazer e também um desafio assumir essa tarefa, 55 críticas escritas com muita dedicação. Muito obrigado e até uma próxima oportunidade ➳















