Sentimos tudo misturado. Tudo é um turbilhão o tempo todo. Ainda assim, quando precisamos explicar nossos sentimentos, partimos para creditá-los como puros, separá-los dos restantes. Não só os sentimentos, mas as próprias ações. Esquecemos, por exemplo, que quando falamos sobre proteção, também falamos sobre privação. Quando obtemos algo, tiramos este algo de onde estava. Tudo se completa nesses dois pontos da questão que nem sempre enxergamos ou nem sempre falamos a respeito. Fica mais fácil explicar isso quando pensamos na relação que uma criança tem com seus pais. Eles entendem que não podem representar apenas o amor, a concessão e o acolhimento para ela, mas outras facetas que lhe ajudarão a entender o mundo e a pluralidade na personalidade das pessoas.
Se pensarmos no horror, podemos fazer uma relação com a forma como as narrativas se dão, os diversos planos dentro do texto, suas metáforas, seu grande percentual do que fica subentendido. Channel Zero, por exemplo, teve quatro temporadas sobre assuntos bem diferentes, mesmo que desconfiemos que façam parte do mesmo universo.

Falamos sobre um programa de televisão infantil que pode ou não ter existido na primeira temporada. Falamos sobre uma casa com diversos níveis de assombração para os que ousam frequentá-la na segunda temporada. Falamos sobre uma família de canibais que assombra um bairro na terceira. Nesta quarta, nosso assunto hoje, falamos sobre aquilo que nos assusta e ao mesmo tempo nos conforta, assim como o horror por si só, gênero que oferece companhia e diversão a tantas pessoas. Em The Dream Door, começamos como a criança que não percebe as ligações entre os sentimentos e define os pais como bons ou maus dependendo de como eles se comportam diante delas. Logo, vemos que a coisa não é tão simples, assim como a própria série, finalizada com essa temporada, também nunca o foi.

The Dream Door estreou no final de outubro do ano passado e fez uma contagem regressiva para o Halloween lá no SyFy, tendo seus seis episódios exibidos em dias seguidos, entre 26 e 31 de outubro. Na história, um casal volta à cidade em que cresceram para recomeçar sua vida. Não é um local com lembranças tão boas assim, afinal, Jillian (Maria Sten) lembra-se do pai que a teria abandonado para compor outra família depois de trair sua mãe. Isso a deixa desconfiada a ponto de suspeitar do marido quando este conversa com mulheres desconhecidas por aí. Tom (o ator Brandon Scott retorna para outro papel), paciente a princípio, tenta tranquilizar a esposa e focar nesse futuro que terão juntos. Nesse ambiente onde a desconfiança está já fazendo sementes, para mostrar pra gente desde o princípio a mistura da qual relacionamentos são feitos, algo inusitado acontece.
Uma noite, uma porta aparece em seu porão. É uma porta que claramente não estava lá. É uma porta cujo destino não é tão claro. E pior: é uma porta trancada. Para investigar esse mistério, o casal chama Jason (Nicholas Tucci), um amigo que compõe com eles um trio inusitado. Depois de muito brigar com a porta, eis que descobrimos o que há dentro dela. Tudo no primeiro episódio, é claro — Channel Zero nunca foi uma série de se apoiar em apenas um mistério. Na porta, uma criatura que casa um visual macabro com um visual infantil. É o Pretzel Jack (Troy James), uma versão em carne e osso (?) de um boneco que Jillian tinha na infância.

Temos nossa série, então. Jillian e o marido lutarão contra essa criatura sobrenatural, elaborando uma forma de matar aquilo que não se sabe ao certo como ou se está vivo. Certo? Errado. Há muito para se descobrir dentro dessa história. Entre os desdobramentos, percebemos que a mente da protagonista é responsável por ter criado aquela porta misteriosa e por aquilo que aparece dentro dela. Pretzel é chamado à vida em um momento que algo precisava vir para resgatar a personagem, já que a terapia não parece ser o bastante. Pretzel é gerado através de muito medo e muita tristeza, o que se reflete em seu comportamento. A criatura é tão violenta com aqueles que encontra no caminho como os homens da vida de Jillian parecem ter sido com ela, mesmo que violência não seja física.
Estamos, portanto, diante de uma história sobre mecanismos de defesa, sobre como a nossa mente pode criar métodos para que escapemos da realidade ou para que intercedamos na realidade de maneira indireta. Muitas pessoas criam alter egos para passar por situações de constrangimento ou que exijam um desprendimento, alguém mais desinibido. É nesse sentido que Jillian encontra seu amigo da infância, uma corporificação de todos os sentimentos negativos que vem carregando como herança da relação com o pai e que agora encontram espelho no comportamento suspeito do marido.

Os mecanismos que criamos às vezes nos livram de muita coisa. Às vezes, no entanto, levantam barreiras e paredes que não somos capazes de derrubar tão facilmente. Na história, a protagonista traz o amigo de volta para lhe ajudar, mas não é tão capaz de controlar suas ações, o que ele pode fazer e o perigo que representa às outras pessoas. Isso porque, dentro da ótica da história, seus sentimentos não poderiam fazer mal a si, mas aos outros. O ciúme, o tão nocivo sentimento de posse que vemos por aí, leva a tragédia para muitas histórias; tantas vezes num impulso que, no fim, não se justifica. Jillian, por exemplo, descobre que os segredos do marido não são bem aquilo que ela imaginava.
Temos novamente uma temporada que cuida muito da própria história, brincando com os ritmos dos episódios. Parece que começamos a mil, com tanto acontecendo no primeiro capítulo, mas isso não dificulta o andamento da história, que tem muitos degraus à frente. Channel cuida também do visual e nos apresenta sequências deslumbrantes. O visual do macabro vai se construindo com tanto tato que não deixa de ser encantador em algum ponto.

Uma coisa que o roteiro sabe fazer bem é brincar com a noção de antagonismo dentro da história. Isso acontece desde a primeira temporada. Mudamos com frequência nossa pergunta sobre “onde está o monstro?”. Parece fácil, parece óbvio. O monstro é a figura grotesca, que parece sangrar leite e que viera daquela porta que nunca deveria ter sido aberta. Mas esse tal monstro é tão monstro quanto os animais que alimentamos com muita fúria para que protejam nossos muros. Parece ser uma ferramenta de nosso medo, não algo que por si só consegue produzir o medo. Há uma responsabilidade da protagonista sobre essa figura, e vamos assistindo como ela se comporta com essa noção — ou como ignora isso.
> Quando Está Ozymandias? Teoria Watchmen!!
Há um episódio que se chama “Triângulo amoroso bizarro”. Quando descobrimos qual é esse triângulo e o interesse de uma das pontas, não dá para não chegar à mesma conclusão que o título. Longe de só nos chocar, a reviravolta cria um histórico para esses poderes de Jillian e a coloca em contato com qual pode ter sido sua fonte. É quando esbarramos na figura do pai e percebemos que, metaforicamente, a capacidade de manifestar erroneamente seu ódio pelo mundo pode ser genérico, como tristeza às vezes é.

Muita metáfora e muita personagem bizarra, não falta espaço para boas sequências de ação. Perseguições recheiam os episódios para intercalar com as reflexões que temos em mãos. Essa é a grande herança que Channel Zero deixa para a televisão: é possível polir sua produção, mesmo que ela seja de horror. O medo é um sentimento complexo e somente séries interessadas em debater essa complexidade conseguirão livrar-se do grande preconceito em volta do gênero.
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MAPA DAS TEMPORADAS:
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Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.
















