
Depois de uma temporada que tinha como principal objetivo recuperar o prestígio perdido, será que The Mentalist cumpriu sua meta? É hora de descobrir.
Spoilers Abaixo:
Não é segredo para ninguém que a segunda temporada de The Mentalist deixou muito a desejar. Isso se deve ao fato de a série ter mostrado ao espectador uma fórmula agradável e simples em seu ano de estreia, permitindo que fosse considerada uma das melhores séries estreantes naquele ano. Mas os roteiristas mostraram que não possuem criatividade para pensar além daquela fórmula, criando uma segunda temporada cansativa e repetitiva. Além disso, a trama principal da série parecia caminhar a passos lentíssimos, impedindo que o espectador tivesse ansiedade pelo desenvolvimento desta, já que episódios que a aproveitavam se tornavam cada vez mais raros. Assim, chegamos a setembro de 2010, e com ele a expectativa que The Mentalist voltasse a ser divertida sem causar cansaço. Durante toda a temporada, a série manteve-se instável, mas, com um final inesperado e impressionante, consegue recuperar boa parte do prestígio de outrora.
Quando, no season finale da segunda temporada, Kristina Frye foi sequestrada por Red John, a série pela primeira vez tinha um arco a desenvolver entre uma temporada e outra. Com essa possibilidade, veio a chance de começar um ano em um ritmo ágil, sem entediar o espectador com casos de semana sempre iguais. Afinal, a importância de um bom começo de temporada é enorme para que exista tranquilidade para o desenvolvimento do restante da mesma. Nesse ponto o maior problema que os responsáveis pela série tem começou a aparecer de maneira evidente. A personagem, por quem Jane tem grande carinho, retorna pensando estar morta, causando grande choque no protagonista e em toda a equipe da CBI. Mas, no episódio seguinte, a história se esquece completamente da personagem, seguindo em frente sem dar ao arco nenhum desfecho. Sem dúvida alguma esse foi o ponto baixo da temporada, quando o espectador percebe que está sendo feito de idiota, e que os roteiristas fazem o que bem entendem sem nenhuma preocupação criativa, apenas vomitando fatos sem sentido algum.
No que diz respeito aos casos da semana, não existe maior prova da instabilidade da temporada de The Mentalist como as investigações promovidas pela CBI, capaz de mostrar histórias interessantes e atraentes, como em Red Carpet Treatment e Red Hot, assim como exibe casos sonolentos e repetitivos, como The Red Ponies e Redacted. Se por um lado a volta de episódios com tramas interessantes é um avanço em relação à temporada anterior, por outro representa o fato de a série não ter muito o que fazer para se manter na mesma fórmula sem cansar o espectador. Repare como a estrutura dos episódios torna-se excessivamente rígida, forçando que os fatos ocorram quase sempre na mesma sequência, como se o relógio determinasse o que virá a seguir. The Mentalist caiu muito cedo nessa “armadilha criativa”, temida pela maioria dos procedural da atualidade, mas mostra sinais de tentativas de contornar esse problema. No entanto, a série ainda recai nesse mesmo defeito constantemente, muitas vezes dependendo exclusivamente de Jane para apresentar algo interessante dentro do episódio.
Já que comentei sobre o protagonista da série, aproveito para analisar os personagens de The Mentalist durante essa temporada. É inevitável dizer que essa é uma série criada em torno de Jane, raramente permitindo que seus coadjuvantes tenham grande destaque. Apesar disso, é inegável que dessa vez alguns personagens tenham aparecido de maneira interessante, como LaRoche e Hightower. É verdade que essa última foi introduzida na série de maneira terrivelmente artificial, e que o roteiro jamais procura desenvolver o caráter da chefe, transformando-a em uma personagem importante praticamente da noite para o dia, utilizando-se apenas de um episódio, Red Gold, para tentar criar um background satisfatório para ela, o que se mostra um grande fracasso. Apesar disso, a tentativa dos roteiristas de tirar Jane do posto de estrela solitária é digna de nota, e funciona muito bem na reta final da temporada, principalmente à partir de Red Queen, episódio que marca a tomada de um novo rumo para a trama principal da série, que comentarei mais tarde.
Além disso, The Mentalist mostra nessa terceira temporada uma incrível habilidade de enrolar seu espectador. Não vejam esse comentário como uma crítica, embora em alguns momentos o seja. “Encher linguiça” não é necessariamente algo ruim. Tudo depende da maneira como o roteiro o faz. Em muitos episódios, a série parece realmente determinada a enganar seu público, ignorando fatos importantes para desenvolver um caso muitas vezes tedioso. Em outros, parece reviver os bons momentos, apresentando casos que, embora ignorem a trama principal da mesma forma, divertem o espectador a ponto dele não se sentir enganado. O já citado Red Hot faz isso muito bem, trazendo um carismático personagem de volta e divertindo do começo ao fim. Por isso, o fato de a série realmente enrolar de maneira excessiva, isso nem sempre é algo ruim.
Mas sem dúvidas a maior fonte de irritação do público de The Mentalist é também a maior virtude da série. Trata-se de Patrick Jane. O que atrai uma pessoa para assistir à série é evidentemente a capacidade do protagonista em solucionar casos baseando-se unicamente em sua capacidade de observação do ambiente e de pessoas. Nesse ponto, os roteiristas cometem o erro de muitas vezes exagerar nessa habilidade, fazendo com que Jane aproxime-se perigosamente de um verdadeiro vidente, utilizando-se de técnicas sobrenaturais. Mas, nessa terceira temporada, Jane volta a ser verossímil, mas cada vez mais infalível. É essa “incapacidade de errar” que acaba tornando o personagem muitas vezes irritante, quando não pedante.
Apesar disso, Jane revela-se nessa temporada cada vez mais confuso em relação a Red John, principalmente pelo fato de estar cada vez mais próximo do serial killer. A morte de Todd Johnson, nesse sentido, acaba mostrando-se importantíssima para o aprofundamento do personagem. Além disso, a belíssima última cena de The Red Mile, quando Jane presencia a morte do Dr. Steiner, em um raro bom trabalho de direção e fotografia da série, leva o consultor da CBI a uma situação que ele evitara por tanto tempo: encarar a morte de frente. Esse momento é importante para os acontecimentos finais da temporada, uma vez que revela uma essencial transição do protagonista. Sem ela, talvez o desfecho encontrado pelo roteiro seria completamente diferente (isso supondo, é claro, que o roteiro sempre busque a coerência em primeiro lugar).
Assim chegamos ao final da temporada, com o misterioso Strawberries and Cream. Pela primeira vez, The Mentalist apresenta um episódio de duas horas (na prática, 1h30), o que inevitavelmente traz o temor por uma grande enrolação. Nesse ponto, temos finalmente o desfecho do ocorrido com Todd Johnson, queimado vivo dentro da CBI. É incrível como o roteiro se sai bem ao descrever a investigação tratada na primeira metade do episódio, situando-a rapidamente no contexto da trama principal, sem que ela jamais pareça sem importância. Mas é na metade final do episódio que o season finale se revela o melhor episódio já exibido pela série. Como comentei na review do episódio, o roteiro é extremamente feliz ao contornar a previsibilidade de sua trama, criando momentos de tensão que independem de surpresas ou de plot twists.
É quando chegamos na última cena, e com ela o aguardado encontro entre Jane e Red John. Quando o consultor chega à conclusão que aquele é mesmo o assassino de sua mulher e filha (repare que somente nesse momento o motivo do nome do episódio é revelado), Jane não hesita em atirar em seu maior inimigo, fazendo-o de maneira impetuosa e repentina, até irracional, se considerarmos que Jane sempre prevê cada passo antes de executá-lo. Então, já relaxado, ele se senta e continua tomando seu café. Repare como o roteiro aproveita para fazer uma rima temática com o já citado The Red Mile, evidenciando a influência deste nos acontecimentos de Strawberries and Cream.
É, sem dúvidas, um final de temporada espetacular, capaz de tornar as instabilidades ocorridas durante a temporada quase insignificantes, embora não possam jamais ser ignoradas. Com ele, The Mentalist tem a possibilidade de criar uma quarta temporada intrigante e inteligente. Só depende dos roteiristas.
Melhores episódios
Piores episódios
Obs: Na review do season finale, reparei que a grande maioria acredita que a pessoa assassinada por Jane não é o verdadeiro Red John. Nesse texto, escrevi como se fosse porque o episódio se desenvolve de uma maneira que torna importante que aquele homem seja realmente o serial killer. Não digo que será absurdo se não for, mas esse episódio perderia grande parte da poesia nesse caso.














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