E não é que The Mentalist saiu de sua zona de conforto?

Spoilers Abaixo:

The Mentalist sempre se escondeu atrás de seu sucesso. A série sempre utilizou de seus bons índices de audiência para preservar uma fórmula que em sua terceira temporada já se encontra desgastada. Os roteiristas nunca tentaram se arriscar muito, mesmo com personagens sem grande importância. Em uma situação dessas, cria-se um círculo muito difícil de ser superado, onde os responsáveis pela série preferem não mexer em um time que está ganhando. Até que, após sucessivamente decepcionar seu espectador, The Mentalist aparece com o ousado Red Queen, que consegue reunir todas as qualidades da série e apresentar algo novo e interessante.

Pela primeira vez em muito tempo, o caso da semana não é exatamente “da semana”. O assassinato de um vendedor de antiguidades traz para a CBI mais uma investigação de rotina, mas logo os agentes descobrem que há muito por trás desse crime. Ao descobrirem que a vítima era amiga de infância de Todd Johnson, cujo assassinato ainda é investigado pela Assuntos Internos da agência, todos os olhos se voltam para dentro da CBI, onde Hightower surge como principal suspeita de J.J LaRoche. Apenas Jane parece imaginar que exista algo além da investigação, envolvendo Red John. O problema é que ele não está em condições de opinar.

Red Queen talvez seja o episódio mais diferente que The Mentalist apresentou desde sempre. Mesmo levando-se em conta que a série já criou situações que fugiam a normalidade, nunca tivemos a oportunidade de ver The Mentalist dando total destaque a um arco dentro de um episódio. E é muito bom que os roteiristas tenham percebido o quanto isso é importante. Red Queen é ponto fora da curva nessa temporada, e é daqueles episódios que marcam uma temporada inteira. Se os responsáveis pela série vão continuar investindo nesse tipo de tentativa é impossível prever, mas audiência não fugiu por ver um episódio desse estilo. Pelo contrário, Red Queen foi uma das maiores audiências da temporada.

Começando a análise do episódio em si, temos o assassinato de Montero, que serve de base para toda a construção de Red Queen. E nesse ponto o episódio não faz nada diferente do que costumamos ver, com as costumeiras investigações e intervenções inconvenientes de Jane. Dessa vez o alívio cômico ficou para as trapalhadas de Rigsby, que conseguem divertir até certo ponto. O problema aqui é que as etapas iniciais da investigação jamais convencem o espectador de que aquilo representa algo interessante, uma vez que o flashforward dos primeiros minutos volta todas as atenções para os fatos que se desenrolarão dentro da CBI dentro de 36 horas, e isso prejudica a introdução desse caso. Esse tipo de recurso é muito comum em produções para TV, principalmente procedurals, e não é a forma de atrair seu público que mais me agrada em termos criativos, mas em Red Queen isso funciona muito bem, não só prendendo a atenção do espectador como construindo de maneira eficiente os eventos que levaram àquela cena. Apesar disso, talvez a abordagem do assasinato de Montero pudesse ser mais relevante nos primeiros momentos do episódio, uma vez que o espectador chega a perder o interesse por essa história.

Se o caso da semana serve como base para algo maior, Hightower é a estrela desse algo. A personagem aproveita bem o destaque e se mostra interessante pela primeira vez desde a sua entrada na série. Contudo, é exatamente nela que está o maior erro de Red Queen. Na verdade, o problema não ocorre no episódio em si, mas nos anteriores. Gosto de pensar em uma série como um todo, procurando não analisar o episódio friamente, relacionando-o com outras situações. Pensando dessa forma, é impossível não classificar a construção de Hightower aqui como no mínimo incoerente. A personagem nunca teve destaque algum na série, limitando-se a aceitar as loucuras de Jane. No episódio passado, os roteiristas procuraram dar destaque a ela, mas jamais criam o potencial para ela se tornar o que vemos em Red Queen, apesar de deixar claro que a agente é capaz de matar a sangue frio, como vimos bem no final de Red Gold.

Quem é responsável pelos acontecimentos de Red Queen é LaRoche, que conduz sua investigação com grande profissionalismo. É interessante perceber como o agente tem poder dentro da CBI, e como seus pequenos atos podem desestabilizar seu suspeito. Na cena em que ele interroga Hightower na sala da agente, a primeira coisa que faz é tirar a cadeira da posição habitual e colocá-la ao lado da suspeita, afastando o porta-retrato das crianças, em um clara tentativa de causar nervosismo e espanto em Hightower, que cai direitinho na armadilha. Além disso, a atitude de LaRoche mostra a autoridade dele perante Madeleine, uma vez que o simples movimento da cadeira a tira de sua posição de respeito e a rebaixa para uma suspeita comum.

Enquanto Hightower e LaRoche recebem um destaque que nunca tiveram, Jane vive aqui seu momento de menor atenção em toda a série. É claro que ele teve uma importância imensa para o desenvolvimento da história, mas pela primeira vez ele não reina absoluto. Mesmo em episódios que focam-se em outros personagens, Jane sempre foi soberano. Aqui, mais contido, ele consegue criar seus jogos mentais, manipulando toda a CBI para que pense que está ameaçado. Essa também é a primeira vez que vejo The Mentalist sendo sutil ao usar uma informação. Jane já fez uso da lista de suspeitos obtida por Minelli há alguns episódios e o roteiro não precisou informar o espectador disso em momento algum, simplesmente deixando com que as pessoas se lembrassem do fato, ou sequer pensarem nisso caso não tenham visto o episódio em questão.

Aliás, a lista de Minelli deverá ganhar mais atenção nos próximos episódios, quando o culpado pela morte de Montero e aliado de Red John começará a ser desmascarado. É evidente que ele está na lista de suspeitos iniciais de LaRoche, mas pelo simples motivo de não ter matado Todd Johnson acabou descartado. Dessa vez The Mentalist investe em um arco sólido, ligado diretamente à trama principal da série. Espero que nos próximos episódios os roteiristas não voltem a decepcionar com episódios completamente descartáveis. Dessa forma, até o fim da temporada é possível construir uma história inteligente e intrigante, como The Mentalist nunca conseguiu fazer por muito tempo.

Criando um ambiente novo e com bom potencial criativo, The Mentalist se recupera de uma série de episódios medíocres para investir em um campo pelo qual nunca percorreu. Se isso vai continuar por muito tempo, só o tempo dirá. Enquanto isso, é muito bom ver um episódio de The Mentalist desse nível.

@GabrielOliveira

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