Em uma temporada de complexidades nada mais adequado que ter uma das vencedoras mais complexas da história da corrida.
Vamos começar esse texto sendo francos: a Drag Race vinha de duas temporadas bastante medianas. Monet gosta de pensar que a décima foi maravilhosa, mas não foi. Ambas, nona e décima, tiveram bons personagens, mas foram irregulares e com resultados insatisfatórios. A prova disso foi Vanjie, eliminada na primeira semana da décima, se tornando a mais notória menina daquele ano. Desde o ano 8 não tínhamos uma temporada coesa, forte, dosando drama e talento nas medidas certas; e com um caminho de vitória que fosse provocativo e desafiador, daqueles que fizeram vencedoras como Tyra, Sharon, Jinkx, Bianca… Enfim, essa temporada veio.
O décimo primeiro ciclo de RuPaul’s Drag Race começou bem e terminou bem. Além da boa escolha de elenco, tivemos bons novos desafios, ótimos embates e momentos que se registrarão gentilmente na história do show. Mesmo que as pessoas se desagradem de nomes como Silky, Yvie, Ra’Jah e até da própria Vanjie, é inegável que cada uma funcionou como peça fundamental do enredo da temporada, oscilando brilhantemente entre ser personagem e ser humano, entre ser peão e soldado, entre corresponder às expectativas de um programa de TV e também transgredi-las, afastando qualquer possibilidade de maniqueísmo e demagogia.
Foi um ótimo momento para termos uma boa temporada, visto que nos últimos tempos a Drag Race sofreu arranhões em sua reputação. Ao constatar, lá pelo meio do ano, que Silky se tornara persona non grata entre a maioria dos fãs, eu me preocupei. Negra, afeminada, gorda, ela era a síntese de toda a discriminação que impera não só na corrida, mas na comunidade gay como um todo. Seria uma ótima oportunidade para ela, inclusive, se sua personalidade não fosse tóxica. De fato, a toxicidade de Yvie não é menos notória que a de Silky, com a diferença de que a corrida – como costuma acontecer – serviu como filtro para uma e como catalisador para outra. Elas são, claramente, as costuras principais desse ano, maravilhosas e falhas, necessárias e questionáveis, na mesma medida.

Reunion
Outra coisa precisamos admitir: Mama Ru ama Vanjie; e eu consigo entender porque. Foi ela de novo quem abriu o episódio Reunion, mostrando sua trajetória e o resultado final de sua relação com Brooke. Brooke, aliás, surpreendeu admitindo que a relação não poderia ir para frente porque ela não estava pronta para se amarrar. Vanjie, claramente, ainda tem sentimentos fortes por ela. A filha da casa Matteo está sempre na fronteira entre ser boa e ser péssima, o que pode ser reiterado pelas escolhas de look. No Reunion estava simples demais e na Finale estava HEDIONDAMENTE cafona. Mas, acredito que em mais alguns anos ela pode até ganhar o All Stars, porque aquela personalidade é realmente cativante.
O Reunion precisava falar de algumas coisas específicas e Ra’Jah era uma delas. Ela não abaixou a cabeça totalmente para as coisas que fez, mas precisou pedir desculpas a Yvie pelas coisas que disse. Ra’Jah fez parte da trupe de iludidas da temporada, aquelas meninas que se acham maravilhosas e ainda precisam melhorar muito. Scarlet, Silky e até Akeria fazem parte da patota. Akeria, aliás, além de insistir em looks azuis horrorosos, foi tentar fazer a sonsa ao dizer que não instigava nada. Sei… A edição mostrou direitinho como ela mentia descaradamente. Foi engraçado ver Plastique (linda como sempre) ouvindo tudo com aquela cara de “não estou entendendo”, quando, de fato, a coisa da família, da cultura pop, da CPI das perucas, foi realmente bem estranha. Plastique é a rainha da Poker Face e faz o papel da desentendida como ninguém. É tão dedicada nesse papel que eu chego a achar admirável.

Durante a temporada repeti várias vezes sobre como era preocupante que o comportamento egocêntrico confrontativo de Yvie fosse visto como uma qualidade. No Reunion foi importante vê-la admitir que parte daquilo era uma compreensão sobre estar num programa de TV. Ru endossou algumas das colocações dela sobre as meninas estarem em constante delusional, e, de fato, elas estavam. O curioso foi ver Silky bastante diplomática. Essa oportunidade também foi essencial para que ela esclarecesse que não estava falando da doença de Yvie e sim de seu tornozelo. Ainda é ruim, mas é bem menos cruel.
Antes de resolver a CPI das perucas, foi a vez do capítulo Todos Odeiam Scarlet. Nenhum dos assuntos foi resolvido, aliás. Ra’Jah foi escrota jogando a peruca de Ariel no chão, mas Ariel insistindo nesse assunto também é cansativo. Já Mercedes só serviu para repetir o episódio do Opulant com Kahara e Honey saiu muda e estática, uma coisa impressionante. Até Soju falou mais que ela. Enfim, Ru fez mais uma propaganda da Finale e lá fomos nós para a batalha final.
Finale
Outro ano e outra edição que manteve as batalhas de lipsync, o que é – para todo fã da corrida – uma preocupação constante. E nossa preocupação era ver Yvie e Brooke tendo que dublar juntas logo na primeira batalha. Contudo, se a roda não parasse nem para Yvie e nem para Brooke, as outras duas tinham uma missão: forçar o lipsync entre elas. As chances aumentariam de provocar uma desestabilização de expectativas. E eram chances altas de conseguir executar esse plano. Mas, inesperadamente, o destino provou ser dono de outro caminho. Um que facilitou as coisas para quem já era dona do favoritismo.
O formato da finale não apresentou grandes mudanças. A maior delas foi a inserção de um VT de apresentação das finalistas mais longo, com algumas brincadeirinhas que não necessariamente foram engraçadas, mas que nos ajudaram a conhecer ainda mais delas. O mais esquisito é que Vanjie não era finalista, mas não só ganhou um VT só para ela como adentrou o palco para conversar com Mama Ru, um privilégio que nenhuma outra menina teve. Me lembrou o destaque recebido por Katya na finale da sétima temporada. Pode não ser agora ou no ano que vem, mas Vanjie volta em algum All Star sem a menor sombra de dúvida.

Um a um os VT’s acompanharam a pequena conversa com Ru e não tivemos nada sensacional a ouvir. O pai de Yvie foi o que mais fez sucesso na rede. Michelle Visage também chamou a atenção ao falar sobre sua decisão de retirar os famosos implantes de silicone que eram sua marca registrada. A edição fez piada com o assunto, mas se qualquer um de nós se colocar no lugar de Michelle, a nova realidade não vai parecer tão leve assim. Mexe com a autoestima da mulher, com sua autoconfiança e ela foi extremamente corajosa em fazê-lo antes de ter maiores problemas. Foi um momento extremamente sério para o programa e que provavelmente fez um grande serviço para a comunidade.
Começamos, então, com as competições do dia. Como havia dito, a chance de forçar uma disputa inicial entre Brooke e Yvie era preciosa, mas Silky – escolhida primeiro – tinha outro plano. Passou a temporada inteira dizendo que venceria Yvie, mas escolheu Brooke, provavelmente achando que se sairia bem e a encontraria no último confronto. Em termos de look, Yvie e Brooke eram as mais polidas, indiscutivelmente. Mas, mesmo sabendo que Silky não conseguiria alcançar esse nível, fiquei surpreso com o HORROR que foi sua apresentação. Ela ainda estava perdida no palco, com zero envolvimento com a música, mas o pior mesmo foi aquela roupa, que tinha camadas e camadas de feiura. Até precisamos dar-lhe o crédito de ter tirado uma das perucas de um jeito diferente, mas a que ficou por último parecia ter custado 5 dólares. Uma lástima. Um despreparo imperdoável para uma finale.
O duelo entre Akeria e Yvie não foi menos desnivelado. Yvie quis homenagear os fãs vestindo uma versão live-action de um desenho feito por um deles, mas embora a roupa não fosse muito prática, era duzentas vezes melhor que aquela fantasia de bailarina do Faustão que Akeria vestia. Os reveals continuam não compreendendo o trabalho de Sasha e surgem nos tempos errados das músicas. Akeria, aliás, poderia ter mantido o que já era ruim como estava, mas preferiu revelar aquele pavor (era terrível, indefensável). Yvie tinha uma mensagem na calcinha (Free Britney), mas não subiu a saia o suficiente e perdeu o impacto. Mesmo assim, fez o trabalho mais digno e mereceu a vitória.
Monet voltou para entregar o troféu de Miss Simpatia e na noite dos looks errados ela também marcou seu pontinho. Era totalmente desproporcional e parecia que ela tinha a menor cabeça do mundo. Nina venceu, claro – aliás, Nina tinha um dos poucos bons looks da noite. Ela não perdeu a chance de fazer uma piada com Ru ao repetir seu “meh” no discurso; e vendo o terrível trabalho de Silky nessa finale ficou claro que Mama Ru errou com aquele Top4. Não que Nina fosse vencer, não ia. Mas, ela provavelmente se dedicaria muito mais a impressionar e honrar seus fãs. Ela saiu muito bem da temporada e depois de Latrice ter se queimado um pouco no All Stars, Miss West pode ser a nova dona do coração do fãs.
Não deu pra entender a obsessão das meninas por penas nessa temporada e até Aquaria apareceu com o look meio carnavalesco. Era bonito, bem executado, mas toda vez que tem esplendor de penas eu perco a visão drag e entro na visão passista. Não seria minha escolha, mas é a vida. Brooke me animou quando entrou fazendo ironia com os reveals, mas para alguém que ficou conhecida por aquela passarela épica, ela só estava pensando em tontear pelo palco com passos aleatórios. O look de Yvie, contudo, era um DESBUNDE. A ilusão dos três rostos, outro atrás, o formato de gala que impedia movimentos mas que antecipava um fato: ela ia interpretar.
No vídeo acima temos a reação verdadeira das finalistas ao assistirem a vitória sendo anunciada. Yvie foi uma participante intensa, que não teve medo de mostrar suas cores mais polêmicas e que fez de sua trajetória uma trajetória de talento e criatividade. Foi uma vitória justa, certa, merecida, não só pelo que ela mostrou por todo esse ciclo, mas pelo trabalho que fez na finale. E enfim, pudemos ter um desfecho de temporada tranquilo, sem acusações, sem hesitações, sem ódio. A Drag Race é nosso patrimônio, é uma de nossas conquistas, é um resultado primoroso de uma luta – que como bem disse o lindo VT dentro do episódio – começou a ser travada lá em Stonewall, naquele conturbado 28 de Junho.
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Ano que vem estaremos aqui, sem dúvida nenhuma, como espero que estejamos por muitos e muitos anos. Sou feliz demais com a corrida, mas saber que tenho esse espaço para dividir com vocês é melhor ainda. Vou me despedindo por aqui, mas antes preciso dizer que a partir de hoje toda vez que precisar escolher um número ele será, indiscutivalmente: (sussurrando) 96.
















