Depois do imenso fanservice com as cenas Malec no episódio Stay With Me, Shadowhunters volta para a sua trama central em Heavenly Fire, na tentativa de agilizar a narrativa envolvendo a caçada pela espada Estrela da Manhã, mas peca pelo excesso ao jogar em nossas caras diversos personagens retornantes ou estreantes e ao nos impor um número elevado de informações que parecem ter surgido do nada.
Todos nós sabemos que o último episódio de Shadowhunters, para além do desenvolvimento do casal Malec, foi na verdade um grande fanservice (afinal, a série está cancelada e o que muitos fãs querem, além do já impossível salvamento da adaptação televisiva, são os mimos com os seus shipps românticos), portanto, quem gosta do casal Malec retratado nessa série, amou o episódio e agradeceu o service, por outro lado, quem não simpatiza muito com Magnus e Alec e está aqui pela trama geral, deve ter achado um baita desperdício de tempo. Porém, Shadowhunters tem sido, desde sempre, prodigiosa em perder o seu foco e desviar o seu caminho, contudo, sabíamos que mais cedo ou mais tarde – nesse caso, foi bem mais tarde mesmo -, o show voltaria para o seu arco central. Parece que, nesse final de temporada, desenvolver a trama central não estava sendo a prioridade dos roteiristas de Shadowhunters, mas agora chegou a hora do tudo ou nada, fica evidente a correria desenfreada para tentar alinhavar as pontas soltas, finalizar as diversas subtramas, dar um encaminhamento para os emparelhamentos românticos e tentar validar a presença do antagonista dessa história.

Adentrando nos diversos acontecimentos de Heavenly Fire, que, apesar do excesso de informações, não foi um episódio ruim, finalmente tivemos o embate entre Clary e Jonathan, que foi bem melhor do que eu esperava; tivemos Izzy mobilizando esforços em parceria com Simon, Raphael, Helen e Aline para conseguir ter acesso ao fogo celestial; nos deparamos com o retorno de Victor Aldertree (que eu jurava que estava morto) e os seus experimentos secretos, vimos a morte altruísta da feiticeira Iris Rose e também tivemos Alec e Magnus procurando apartamento e quebrando os nossos corações durante o jantar especial. As mãos dos roteiristas de Shadowhunters as vezes pesam demais na hora de dosar o fluxo de informações para um episódio e, em Heavenly Fire, esse fato não passou despercebido. Retornamos ao arco central da temporada com Jonathan contando para Clary como tomou ciência da sua existência através de Lilith, claro que nunca teremos certeza se a história contada por ele é totalmente verdadeira ou fruto dos seus delírios psicóticos incestuosos. Jonathan, através das suas palavras, desenhou para Clary uma Lilith abusiva e dominadora, capaz de queimá-lo como forma de exercer poder e para mantê-lo cativo em seu castelo em Edom, tal qual uma Princesa Rapunzel presa no alto de uma torre por conta de um erro dos seus pais. Com essa analogia, chegamos à conclusão que Jonathan se colocou nessa história como se fosse um erro do seu pai, Valentine, que o abandonou a sua própria sorte, nas mãos de um demônio. Jonathan esclareceu também, que durante muito tempo foi uma pessoa muito ingênua e dominada por Lilith, mas foi através da sua própria mãe que ficou sabendo da existência da espada Estrela da Manhã e da sua ligação com a família Morgenstern, única capaz de abrir uma passagem em Edom para que ele, através da sua metade humana, pudesse sair de lá. Confesso que gostei dessa sequência e do embate travado entre Luke e Anna, eles ficam muito bem juntos em cena. Jonathan conseguiu impressionar Clary com a sua história, ela passou a se sentir culpada por não ter conseguido salvá-lo quando sonhava com um príncipe trancado em uma torre. Faça-me o favor, Clarissa Fairchild, você não consegue salvar a si mesma, quem dirá a uma outra pessoa! Fico chocada como Jace está nessa trama à serviço de Clary. Jace não possui uma história própria nessa trama desde sempre, o personagem parou de caminhar desde o momento que conheceu Clary e, de lá para cá, tudo que ele faz gravita em torno da namorada. Mesmo a sua ligação parabatai com Alec (que deveria ser algo incomum e especial) é pífia e se resume a sentir que o irmão está um pouco nervoso. Acho lamentável que esse show tenha subestimado tanto esse personagem e o tenha colocado quase que exclusivamente como escada para promover Clary.

No outro lado do episódio, Izzy ganhando um tempo de tela que ela merecia desde sempre me deixou bem animada. Tudo bem que estou bastante desconfortável com essa situação apelativa de a caçadora não poder dar um passo sem estar atrelada à figura de Simon. Acho essa situação muito reducionista e limitadora para a personagem, quando avalio que até ontem praticamente Izzy mal trocava duas palavras com o vampiro, no máximo ela lhe ofereceu amparo em um momento de grande necessidade, mas não passou disso. Agora, a irmã de Alec, até tem escalado Simon para as suas missões, como se não houvesse um só caçador capacitado naquele Instituto capaz de ajudá-la. Acho tudo isso muito forçado e apressado, a ponto de até o shirtless de Simon ter me incomodado bastante. Mas deixando de lado essas observações, eu gostei bastante do plot da Clave, principalmente por poder rever Raphael, por terem, finalmente, andando com a trama do fogo celestial e por terem introduzido Helen nessa história. Em To the Night Children tivemos a chance de conhecermos a belíssima atriz Jack Lai, que interpreta a nova Aline Penhallow, agora, fomos apresentados a Helen Blackthorn, interpretada pela atriz Sydney Meyer. Dessa forma, o shipp Heline está entre nós! Helen tem sangue feérico, portanto ela é parte fada e parte Nephilim. Na saga literária, em algum momento, ela conhece Aline, as duas começam a namorar e tornam o fato público, apesar da desaprovação da Clave, mesmo assim, eventualmente elas acabam se casando, como a adaptação televisiva corre por fora e não segue a cronologia dos livros, não esperemos ver esses fatos em cena. Em Shadowhunters as duas caçadoras acabam se conhecendo de forma inusitada, porém tardiamente, refleti sobre a possibilidade desse show ter inserido essas duas personagens ao menos na temporada 3A, isso teria sido bem interessante. Teríamos um pouco mais de diversidade e representatividade LGBTQ+ em cena, só que dessa vez com um casal de lésbicas, inclusive, mais um casal formado por uma pessoa branca e outra asiática, mostrando que, para além dos estereótipos e dos padrões, o que importa é estar com quem a pessoa gosta.
Ainda falando sobre a trama da Clave, após a aprovação de Alec, que sequer avaliou as opções ou o risco de mandar uma pessoa pouco treinada para esse tipo de missão que poderia acabar em morte, Simon foi introduzido na prisão secreta com uma identidade falsa, só que usando um anel seelie para se comunicar telepaticamente com Izzy. Chegando na prisão, o vampiro se reencontrou com Raphael, mas tudo nessa prisão era muito estranho, chamando a atenção de Simon para uma possível trama sinistra perpetrada por alguém até então desconhecido para ele. A princípio chegamos a acreditar que Helen estivesse por trás de toda essa trama, mas logo percebemos que o multifacetado Victor Aldertree é quem comandava esse espetáculo de horrores. Essa trama toda mobilizou muitos personagens (achei um pouco demais), enquanto o pessoal da prisão lutava para conseguir o fogo celestial e escapar, Izzy, em um jantar arrojado, tentava ganhar tempo e obter informações de Aldertree (detesto quando colocam Izzy na posição de Betty Boop apenas). Fico passada como Simon é o único diurno vivo (até meio famosinho entre os submundanos) e mesmo assim conseguiu se passar por outra pessoa em uma prisão de segurança máxima. Mas deixa isso para lá e vamos focar em Raphael deixando de ser vampiro e voltando a ser humano, lutando lindamente e batendo nos inimigos. Gosto muito de David Castro e me agrada demais a sua versão de Raphael, eu estava muito triste com a possibilidade de o aprisionamento ser o final destinado a esse personagem, mas vejo que a história dele ainda não acabou. A cena dele se percebendo humano novamente foi muito tocante, mas ao mesmo tempo demostrou como essa história de cura para uma condição existencial é bem polêmica, já que Iris, por outro lado, estava extremamente irritada e descontente, por ter perdido os seus poderes. O discurso dela foi muito parecido com o proferido por Magnus sobre a perda da sua magia, mostrando coerência e pontuando mais uma vez que um feiticeiro sem a sua magia perde a sua própria alma. Achei rápida demais a aceitação da condição humana por parte de Raphael e estranhíssima a forma kamikaze com que Iris se imolou e se deixou matar pelos agentes da Clave. Logo Iris Rose que sempre se mostrou egoísta e disposta a tudo para alcançar o seu intento. Ao menos Aldertree foi preso – se bem que ser preso por uma Clave questionável e corrupta não me parece uma boa solução para essa situação -, o porão secreto da prisão foi destruído e agora existe uma possibilidade real de a pena de Raphael ser reduzida (será que Jia realmente não sabe nada sobre esses acontecimentos macabros acontecendo debaixo do seu nariz?). No final, o plano de Izzy deu certo, mas acho um absurdo que tentos personagens tenham se colocado em risco real (tipo Simon dentro da prisão, Aline acessando informações secretas sem permissão…) só para salvarem Clary da sua ligação com Jonathan. Isso vindo da parte de Simon é algo já esperado por nós, ele é subserviente às vontades da ‘melhor amiga’, mas vindo de Izzy e ainda sendo autorizado pelo Chefe do Instituto é um pouco demais!

Desde os minutos finais do episódio anterior eu tive um sentimento estranho em relação ao pedido de casamento que Alec pretendia fazer para Magnus. Sabia, lá no fundo, que algo aconteceria na hora exata e até especulei que talvez Lilith aparecesse e sequestrasse Magnus para se vingar de Asmodeus ou talvez o próprio feiticeiro dissesse não ao invés do sim que o namorado tanto esperava. No entanto, a situação foi ainda mais desastrosa do que eu imaginei; Magnus apareceu atrasado e bêbado para o jantar romântico planejado por Alec e o que se sucedeu foi algo que eu não esperava ver de um personagem que sempre inspirou sabedoria, alegria e leveza. Apesar das excelentes performances de Harry e Matt na cena do jantar terem sido dignas de menção, tenho cá umas ressalvas para fazer, não sobre os atores, claro, eles são ótimos e estão em um momento especial, mas sobre a narrativa escolhida pelos roteiristas de Shadowhunters envolvendo esses dois personagens.
A temporada 3B desse show tem sido irregular por muitos motivos que nem caberiam nesse texto se eu decidisse enumerá-los, mas a inconstância na personalidade de alguns personagens chega a ser gritante, vide o ridículo plot do Yin Fen envolvendo Izzy anteriormente, algo que eu nunca tolerei, principalmente vindo de uma personagem tão forte, destemida e proativa como Isabelle Lightwood, no entanto, a gente finge que aceita e segue acompanhando o show. Dessa vez essa inconstância atingiu em cheio o casal Malec e, tenho certeza, que esse é um caminho sem volta! Alec ficou muito assustado com a intensidade da situação de Magnus, não é como se ele não soubesse que o feiticeiro está sofrendo pela perda da sua magia, eles até já conversaram um pouco sobre esse assunto, mas Magnus nunca foi totalmente sincero com Alec sobre a dimensão da sua depressão ou sobre outros problemas do passado, ele sempre preferiu se mostrar divertido, alegre e festeiro, mas agora ele deu sinais de que a coisa estava fora do seu controle ao dizer ao namorado, no episódio anterior, que talvez fosse capaz de morrer a abrir mão da sua magia, no entanto, mesmo assim parece que Alec não conseguiu entender a extensão e a gravidade do problema do namorado, já que decidiu fazer o jantar especial e a proposta de casamento, apesar da tempestade que o relacionamento deles está passando. Mas há alguns pontos a se considerar nisso tudo: a) apesar do altruísmo já citado em outros textos, vale lembrar que Magnus barganhou sua magia com Asmodeus por vontade própria, mesmo que sob grande pressão e diante da possibilidade de Alec perder a sua inteireza, Magnus tomou a inciativa de ir ao Edom pedir a ajuda do pai; b) será que ele não mensurou naquele momento que não seria capaz de viver sem a sua magia? c) Será que ele não imaginou que o preço cobrado seria alto demais? Ele salvou Jace e preservou a integralidade da alma de Alec, mas não pensou nele próprio? Realmente eu só posso crer que foi o desespero falando por ele. O feiticeiro não aguentava mais ver Alec sofrendo por causa das desventuras de Jace e queria resolver de uma vez por toda essa problemática, todavia, tudo para Asmodeus tem um preço a ser pago e, dessa forma, o antigo Alto Feiticeiro do Brooklyn caiu em sua própria armadilha.
Admito que por mais que a dramaticidade desse plot da perda da magia de Magnus pareça oportuno e interessante, porque mostra outras camadas de ambos os personagens, creio que ele chegou tardiamente nessa série e, dessa forma, colocou tanto o feiticeiro quanto o Chefe do Instituto em uma situação bem desconfortável. Não me entendam mal, embora goste de ver Alec mostrando esse seu lado mais humano e goste de ver um Magnus menos espetaculoso, me inquieta um pouco ver o arqueiro tão vulnerável, desnorteado e a serviço do seu relacionamento, como se ser líder do Instituto ficasse em segundo plano, como também me impacienta um pouco presenciar um feiticeiro que já viveu tantos embates ao longo dos séculos tão desnorteado e sem uma contingência para lidar com essa situação. O meu apreço pelo shipp Malec permanece intacto, porém, nessa série tudo é uma questão de timing, creio que se boa parte desse drama tivesse acontecido um pouco antes, teríamos agora o casal Malec em um outro patamar, ao invés de estarmos presenciando ambos quebrados e quase incapacitados para a guerra que se aproxima, estaríamos vendo um casal mais amadurecido e eles, Magnus e Alec, formariam o power couple que essa guerra tanto necessita. Admito que me emocionei na cena do jantar ao ver Magnus em crise sendo amparado pelos braços fortes de Alec, no entanto, me pergunto, em que momento Alec amadureceu tanto, ficou tão adulto para compreender e aceitar essa situação com tanta resiliência e perseverança se até ontem ele estava brigando por causa da imortalidade de Magnus e da possibilidade de seu declínio físico os afastar um dia? Por outro lado, também me pergunto em que momento, Magnus perdeu séculos de experiência para se deixar quebrar em mil pedaços ao invés de procurar uma solução para a sua dificuldade do momento? Logo Magnus que sempre procurou uma solução para cada problema apresentado no Mundo de Sobras se deixou nocautear sem ao menos lutar? São essas inconstâncias na personalidade dos personagens de Shadowhunters que me preocupam e, olha, que eu gosto de drama, mas também busco ao menos um pouco de coerência, ademais, Alec está encarcerado nesse arco da perda da magia do namorado, da mesma forma que Magnus está restrito a esse pequeno plot, diminuindo a mobilidade desses dois personagens. Magnus indiretamente partiu o coração de Alec, que retribuirá da mesma forma, tornando isso tudo um ciclo sem fim. Acredito que tudo que veremos a seguir envolvendo Magnus e Alec vai nos fazer crer que o passado foi melhor que o presente, eles vão arrastar esse casal para o fundo do poço, vão quebra-los em mil pedaços, para nos entregar um final feliz no último capítulo e, de fato, não sei se era isso que eu esperava nesse final de temporada/série.
Outras Informações:
Episódio 50 – Heavenly Fire é o episódio de número 50 de Shadowhunters e para marcar o feito, a Freeform liberou um vídeo curto em que Matt e Kat aparecem falando sobre o acontecimento. Veja o vídeo aqui.
Anéis das fadas – São anéis especiais feitos por fadas, que permitem que os usuários se comuniquem através da mente de cada um. Os anéis vêm em pares e são dourados, com o desenho de uma folha.
Matt e Harry – Não sei até que ponto é intencional da parte dos roteiristas de Shadowhunters dar esse tempo de tela maior para esses dois atores, algo que eu já esperava desde a segunda temporada. Foi gerado muito buzz essa semana nas redes sociais sobre o show estar jogando ‘confete’ para Matt (por ele ser um homem branco) e estar desvalorizando o trabalho do Harry (por ele ser um homem asiático). Discordo fortemente disso. Ambos os atores estão em um momento especial do show e, por mais que eu não esteja apreciando tanto o rumo dado ao casal, parabenizo fortemente esses dois atores que vêm entregando cenas caprichadas e honestas, vide o monólogo do Matt no hospital ou a cena do Harry no jantar especial. Foram cenas intensas, de quebrar o coração e fazer chorar.
Simon – Acho estranho Alec questionar a presença de Simon nas dependências do Instituto quando ele mesmo permite a presença de Magnus por ali. Ademais, Simon não é um estranho completo, ele tem laços com Clary e outros Shadowhunters.
Magnus – O fio de cabelo grisalho foi o gatilho para a crise que Magnus entrou durante o jantar especial, deixando claro o seu envelhecimento, a sua mortalidade e o seu problema com álcool, antes tolerado por conta da sua condição de feiticeiro imortal. Mas fico pensando que se Magnus perdeu a sua magia e a sua imortalidade, ele deveria envelhecer rapidamente ou até morrer imediatamente, não é?













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