Acreditamos que são nossas escolhas, nossas tomadas de decisão, que nos tornam os humanos que somos. Mas poderíamos muito bem viver sem elas. São nossas memórias que nos fazem ter identidade. Através das lembranças que temos é que criamos os panoramas com os quais tomamos essas decisões; são nossas percepções, nosso banco de dados mental que nos guia. O grande problema é que como todo banco de dados ele está disponível para adulteração. Esse jogo que travamos diariamente com nossas memórias é a semente para grande parte dos sentimentos conflitantes que nos assola: o ciúme, a dúvida, a cobiça, a crença…
Os deuses, assim como os humanos, sofrem dos mesmos males. Tirando as religiões monoteístas, todas as outras retratam seus panteões com características terrenas. São seres que têm ciúmes, traem, vingam, desejam, enfim, sentem. Isso acaba tendo um efeito duplo, ao mesmo que tempo que os distância do seu séquito, também os aproxima. E “American Gods” focou nessa semana em retratar esse lado humano dos deuses, sejam eles velhos ou novos.
A narrativa vai se bifurcando ainda mais, numa espécie de árvore de plots que vai espalhando mais e mais suas raízes. Algumas tramas ganham mais tempo de tela que outras. Alguns personagens têm mais importância que outros, mas no contexto geral tudo funciona bem e dá ainda mais fôlego para a série, acelerando as coisas e mostrando uma elevação de qualidade que a aproxima da temporada de estreia.

O mito de Argos (contado aqui numa bela adaptação por Mr Ibis) é a grande estrela desse episódio. Um personagem menor da mitologia grega, que na série ganha contornos divinos e expõe as interações inesperadas e as verdadeiras faces dos deuses (entre eles e entre eles e os mortais). Relegado de guardião de uma das amantes de Zeus ao deus da vigilância moderna, Argos funcionou como um ponto focal para onde todos os caminhos convergiam. A estrada que levou Wednesday e Laura talvez seja o mais interessante desses percursos. O prédio da divindade, que ia alternando entre planos e com isso mostrando como o acúmulo das memórias ia avançando as eras (sempre às custas de sacrifícios) foi uma daquelas cenas que estava sentindo falta na série. O campo grego, a biblioteca de Alexandria e por fim, a versão tecnológica do gigante são metáforas visuais do estado de sítio no qual vivemos com a tecnologia moderna.

Não à toa, Argos é um dos personagens que foram assimilados pelos novos deuses. Antes numa missão honrada, agora sob a supervisão (mesmo que relutante) de um deus mimado e arredio. A relação familiar disfuncional dos novos deuses ficou muito mais vívida nesse episódio, principalmente com a aparição da Nova Media. Sou do time que achava Gillian Anderson fenomenal no papel da deusa, mas Kahyun Kim (mesmo que não tenha o mesmo apelo magnético de Anderson) não faz feio em sua estreia. Nada mais condizente com a época em que vivemos que a nova face da deusa seja uma mistura de instagrammer com integrante de banda k-pop, que se comunica através de emojis, memes e um cinismo típico da internet. O papel das redes sociais em ditar o que é ou não aceitável, no poder de persuasão e no controle da vida público e privada, ultrapassa a tecnologia onde ela está inserida e talvez até o próprio Mr. World em capacidade de poder destrutivo. Há bastante potencial aqui se bem trabalhado.

Outro novo rosto adicionado foi o de Sam Black Crow, papel de Kawennáhere Devery Jacobs. Com uma interessante inversão de papeis, a personagem surge como um contraponto para Shadow, de alguém que sabe que está inserido em um contexto maior e igualmente complicado. Mas ao invés do protagonista, ela aceita e abraça as características de seu passado. O conceito de “dois espíritos” que a personagem trás consigo é bastante interessante, mostrando a riqueza e evolução das religiões nativas americanas, além de ecoar diretamente nos conceitos modernos de identidade de gênero e sexualidade.
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Mas no final das contas tudo se resume ao relacionamento unilateral que todos nós possuímos com aqueles que nos cercam. No final do dia, são nossas necessidades, nosso egoísmo intrínseco que importa. E para os divinos não seria diferente. Ambos os lados, Wednesday e Mr. World, usam todos ao redor como peças de um jogo conturbado de xadrez, não importando se essas peças chegarão ou não vivas no final da partida. Quando se trata de deuses, sacrifícios são sempre necessários. Sejam eles de memória ou físicos.
Pequeno Panteão
– Iktomi (interpretado por Julian Richings)
Origem: Povo Lakota
Iktomi é o deus das linguagens e das invenções para o povo Lakota. É conhecido também como o “deus aranha” já que está e a principal forma que assume. É conhecido por suas poções capazes de enganar tanto humanos como deuses e por manipular as pessoas como marionetes com suas teias. Quando em forma humana é reconhecido por usar anéis de tinta preta ao redor dos olhos e usar tinta vermelha, amarela e branca em suas pinturas corporais. Outros povos nativos também possuem seus próprios nomes para o deus. É considerado um deus trapaceiro, mas que ajuda o povo Lakota em tempos de necessidade. Pode ser comparado em alguns pontos com Anansi.
– Argos Panoptes (interpretado por Christian Lloyd)
Origem: Grega
Argos dos “cem olhos” era um gigante guardião que recebeu de Hera a missão de esconder Io de Zeus. O mito transcorre de acordo com a versão contada na série. Só que após ser morto por Hermes, Hera o transforma em um pavão (seu animal símbolo) com os olhos nos desenhos das penas da cauda. Na série ele ganha status de divindade subordinada aos novos deuses.
– New Media (interpretada por Kahyun Kim)
“Upgrade” da antiga forma da deusa. Se antes ela agia por meio do rádio e da televisão, nesta nova versão ela age através das redes sociais e da internet.
Anotações de Ibis 1: Essa pegada de comédia que a trama do Mad Sweeney ganha quando entra na maré de azar é uma das melhores coisas da série. Ri alto quando ele pensou que ia ser salvo por uma banda de rock e era uma banda de rock cristão;
Anotações de Ibis 2: Outra risada garantida foi ver Mr. Ibis mascando os vermes da carne da Laura como se fossem chicletes;
Anotações de Ibis 3: Sexo virtual ganhou novos sentidos com aquela cena entre New Media e Argos;
Anotações de Ibis 4: Ifrit e Salim ainda continuam juntando as armas de Odin;
Anotações de Ibis 5: Falando nelas, o carro dele é um berserkr. Na mitologia nórdica um berserkr era um guerreiro fiel ao culto de Odin. Antes das batalhas entrava em um transe de fúria frenética que, dizem, lhe concedia invencibilidade e tornava sua pele dura como metal.















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