A busca quase primitiva por liberdade e o imediatismo nas conquistas são inerentes a nós, meros mortais; essa incessante busca que nos dispomos a fazer cotidianamente não mudou e não mudará: o ego, o amor e o reconhecimento se misturam em nossas mentes e nos fazem crer que um é o outro. Deadly Class traz essa dualidade, traz a sujeira aos seus personagens, estes que, de fato, são a fundação da série. Escola, aulas mortais, bullying… São planos de fundo para tratar das maiores perversões humanas, explanando que, com as motivações certas, cada um de nós poderia ser um assassino dúbio.

Personificando o ódio e defendendo sua tese, o roteiro, baseado nas HQ’s escritas por Rick Remender e ilustradas por Wesley Craig, nos apresenta Marcus Lopez (Benjamin Wadsworth): um jovem abandonado, em situação de rua, e com tendências suicidas após fugir do reformatório (no qual já foi exposto a todo tipo de violência). Sua meta de vida é matar o Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, após o mesmo ter cortado verbas para hospitais psiquiátricos no país, o que culminou na morte de seus país pelas mãos de um suicida.

Deste ponto de partida há uma teia que começa a se entrelaçar no entorno de Marcus, todos que o orbitam (assim como seus questionamentos e demônios) refletem na personalidade e ações do então novato. Dentro de situações clichês (que nos quadrinhos base são subvertidas ao máximo) de high school conhecemos cada vez mais nuances de seus interesses amorosos, amigos, inimigos e guias. Temos, ao longo dos dez episódios, toda a Jornada do Herói cimentada com camadas e mais camadas de filosofia.

Qual o nosso papel da sociedade?

Que marcas deixamos naqueles que passam por nossas vidas?

Por que nos desesperamos cotidianamente em busca do reconhecimento e aquiescência das pessoas por nossos feitos?

O diálogo com o público alvo da séria fica claro nesses três questionamentos, afinal, em meio a internet, nossas necessidades não mudaram, na verdade, apenas se adensaram. Esse paralelo entre o hoje e o ontem joga na nossa cara que não avançamos quase nada nossa sociedade, na verdade, nos tornamos ainda mais odiosos uns com os outros sem precisar nos encarar face a face, ao mesmo tempo temos uma relação quase parasitária com desconhecidos que nos dão atenção e nos preenchem, mesmo que na discordância.

A escalação do elenco jovem é irrepreensível em todos os aspectos, com todos tão a vontade em seus personagens que a credibilidade vem fácil apenas com um olhar.

Benjamin Wadsworth traz toda a potência e fragilidade que o protagonista precisa, personificando Marcus do alto de sua arrogância ao mesmo que o isolamento o afeta mais que aos outros. Saya (Lana Condor) é o inverso da moeda, por mais que não pareça solar seja tão quebrada quanto qualquer um ali, a garota se doa demais aos outros, se apega aos bons momentos, mesmo que eles sejam poucos. Sua lealdade é sua fraqueza, e a única forma que ela encontra de sobreviver é colocando uma máscara.

Temos então Maria Gabriela de Faría, defendendo, com vontade, sua Maria. Agarota bipolar, fruto do que há de pior nos seres humanos. Assombrada por um passado não muito distante, um presente sufocante e um futuro sem muitas perspectivas, o arco de Maria é tentar ser mais que mero objeto, se entender, ser sua melhor forma, mesmo com seus problemas de caráter, manipulação abusiva e seu egoísmo latente. O diferencial dentro dessa trama é como a bipolaridade dela é tratada e, com todos os ingredientes, isso a faz implodir. Dentro da narrativa da rainha do cartel, vemos o rei menino Chico (Michel Duval): bully convicto, abusivo e controlador, o típico dono do mundo que o papai deu. Talvez seja o único personagem da trama que não é humanizado. Ele é ruim, gosta de ser assim e não sente necessidade de mudar, afinal, o mundo é todo dele, certo?

Vimos um pouco mais de Billy (Liam James) e, estranhamente, esse núcleo de anarquistas mirins é o mais são em meio ao caos. Assim como Willie (Luke Tennie), tão traumatizado na infância com esse mundo cão que se tornou um pacifista (sim, um pacifista numa escola de assassinos); o debate de legado, família e obrigações é pincelado, mas não há força o suficiente para tal.

Dando a liga nisso tudo temos Mestre Lin (Benedict Wong), força por trás do colégio, com suas dívidas pessoais, tentando fazer um bem pelo mundo pelos meios errados. Lin, em algum momento foi engolido pelo legado, assim como Willie, não restando alternativa além de jogar conforme as regras. A profundidade do personagem impressiona por seu misto de crueldade e apatia: ele carrega o peso do mundo sem hesitar, sem compartilhar e não quer que ninguém espelhe isso. O Mestre é a personificação do faça o que digo, não o que faço…

“Todos nós somos quebrados! Tentando esconder nossos danos, procurar um significado para as coisas ruins… tentando encontrar justiça para aquilo que não deveríamos!”

Na mesma proporção que acerta em cheio com seus personagens, Deadly Class peca na construção de mundo e na progressão narrativa. Temos todas as etapas da Jornada do Herói, temos dez episódios e temos uma variedade gigantesca de personagens que faz a trama se perder. O caráter excessivamente procedural e episódico dos capítulos, com exceção dos dois últimos, dá a sensação de que a trama não engrena. O mesmo vale para o vilão descabido que parece ter sido enfiado às pressas (seja Fuckface ou Gao); as motivações de ambos são extremamente pessoais, mas seus atos são tão excessivos que fica difícil de comprar, afinal, afetam muito mais o entorno dos personagens do que os mesmos propriamente.

Outro ponto desagradável: a não exploração de coadjuvantes que poderiam causar reviravoltas coerentes e inteligentes na trama. Nazis e russos são tratados como meros artifícios, sumariamente esquecidos e apagados e relembrados por conveniência do roteiro.

Apesar dos pesares essa primeira temporada mais acerta que erra entregando um bom produto final. O Scy-Fi só precisa arrumar a casa para uma possível segunda temporada e se concentrar em ritmo e coesão na progressão da trama, afinal, todos os ingredientes e inventividade estão lá, basta trabalha-los com a mesma vontade com a qual trabalham nos personagens.

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P.S.: Os Russo são apenas o nome chamariz, não tendo grande influência, seja na estética ou na narrativa (ficaram conhecidos por suas comédias na televisão e o MCU). Na real, o humor aplicado na Deadly Class é muito mais situacional e cínico dentro dos conflitos abordados.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-deadly-class-sujeira-sanguinolencia-e-perversao-filosoficaApesar dos pesares essa primeira temporada mais acerta que erra entregando um bom produto final..