Big Mouth a primeira vista parecer ser uma animação mal feita, ruim ou ofensiva, mas por trás da sua estética, há um roteiro ligeiro e preciso nas piadas, alfinetadas e críticas sociais.
Esta temporada precisava de um novo vilão e a série nos entregou o maravilhoso Shame Wizard, um personagem irritante e maldito, porém extremamente necessário ao enredo, pois era ele que iria mover as correntes da dramaticidade, da criação de conflitos para os personagens, tarefa na qual ele executou de forma perfeita, assim como o papel mandava e com um toque inteligente do roteiro para melhorar a história. Todo o terror psicológico criado pelo SW em cima de cada mente destas crianças perturbadas e taradas ajudou a entrelaçar todos estes plots num episódio redondinho.
Os roteiristas criaram um contraste entre a individualidade de cada personagem vivendo o seu próprio desafio e, ao mesmo tempo, todos eles se conectando na história, mostrando que todo ser humano passa por transformações, lida com insegurança, medo, dúvida e solidão. Ninguém está sozinho nisso, uma mensagem importante para adolescentes que estão passando pela puberdade, ou para quem tem que encarar desafios e mudança.

Uma das minhas maiores surpresas com a série foi exatamente essa: a forma como ela encarou diversos temas socialmente relevantes de maneira sutil e coerente e apresentado-os, sem soar nada forçado ou deslocado em relação ao roteiro. Pontos como o feminismo e homofobia foram devidamente abordados por cada personagem, inseridos em suas histórias e que levantam pontos importantes a serem discutidos, principalmente hoje em dia. O primeiro foi lindamente explorado por Gina, em sua batalha interna contra a vergonha dos colegas só por ter desenvolvido as mamas precocemente, recebendo críticas das meninas e elogios tarados dos meninos. A diferença de tratamento recebido por ela e por Nick após a fofoca da segunda base foi algo tão verdadeiro que me lembrou da sensibilidade dos roteiros de Bojack.
“Não, todo mundo está feliz por você por ser homem. Você é tipo o Senhor Fodão, mas e eu sou o que para eles? Uma vadia!?”
– Gina
O segundo foi abordado com uma grande adição surpresa ao final da temporada, Matthew, personagem assumidamente gay, ajudou Jay com os medos, dúvidas e quebra de valores e rótulos sobre a sexualidade. Um dos melhores plot twists foi os dois se beijando e vendo o fodedor de travesseiros gostando da idéia e se sentindo confortável com o momento.
O seu diálogo com o sofá e travesseiro explicando a sua identidade sexual foi algo sensacional.
A série conseguiu fortalecer o seu elenco secundário de maneira fenomenal, seja cada um em sua história, primeiramente dando destaque à história de Jessi enquanto lida com o divórcio dos pais, toma decisões erradas e finaliza a narrativa lutando contra a depressão em uma representação da patologia em forma de gato e pesando a personagem. “Você é muito pesada” foi uma frase verdadeira para muita gente que assistiu a série, tenho certeza. Outros que se destacaram foram o Coach Steve e o Jay, os dois alívios cômicos para piadas mais ácidas e idiotas, mas que combinam com os jeitos e identidades de cada personagem, com a ingenuidade e estupidez do primeiro ou com o segundo, um moleque desbocado, sem filtro, proferindo baboseiras impróprias para a idade.

Toda a construção da temporada culminou com o ápice do episódio 8, em que os personagens tem um sleepover no ginásio da escola, situação perfeita para toda o plano maléfico e expositor do Shame Wizard entrar em execução. É nesse capítulo que tudo se encaixa, que todas os plots se entrelaçam e diversas peças encontram a sua ordem e importância na história, um belo exemplo do roteiro milimetricamente elaborado e estruturado deste ano, que mostrou ser uma escrita rápida, inteligente, engraçada, verossímil com a realidade e crua com a verdade exposta, se apoiando em referências culturais acertadas, seja para uma simples piada sobre o órgão genital de alguém ou para fazer críticas ao governo e situação social americana.
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A animação de Nick Kroll e Andrew Goldberg mostrou ser além de toda a temática sexual e esdrúxula vista em sua camada superficial, esse segundo ano veio para expor e firmar todo o propósito das piadas realizadas. A animação mostrou que não é só adolescente transando com travesseiro personificado ou pelos pubianos que conversam, por trás de tudo isso há mensagens, críticas sociais e um ensinamento de ninguém está sozinho quando o assunto é puberdade e como o adolescente lida com essas transformações. É um roteiro ágil, versátil e que sabe explorar diversas temáticas com originalidade, humor e ensinamentos, mostrando apenas um aperitivo nestes 13 capítulos do que pode fazer nas temporadas seguintes.
Considerações Finais:
- Nick tem um leque de histórias a serem exploradas na próxima temporada depois que ele se explorou no finale.
- Featuring Ludacris é o melhor nome de animal das séries.
- O Fantasma do Duke Ellington apareceu pouco, mas pior que eu nem senti tanta falta dele.
- O Jay é o filho perdido animado do Raffi, personagem do Jason Mantzoukas em The League.
- São tantas piadas ridiculamente engraçadas do Steve, mas a minha favorita foi ele e seu gosto por “yogurt baloons”
- Nick Kroll, John Mulaney, Fred Armisen, Jason Mantzoukas, Jordan Peele, Maya Rudolph, Andrew Rannells, Jack McBrayer, Craig Robinson, Kristen Bell, Gina Rodriguez e David Thewlis. Que elenco, meus amigos.















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