O Check Mate da Anitta virou série. É assim que se poderia definir a série documentário que promete promover a cantora nos quase 200 países em que a Netflix está disponível. Tirando uma peça ou outra, a série não tem nenhum propósito a não ser vangloriar-se, merecidamente, pelo feito que o projeto representou. Se você não sabe nem por onde passa essa conversa, saiba que foi desse projeto que saíram Downtown e Vai Malandra, dois dos maiores sucessos da cantora e que certamente você já ouviu tocar por aí (e nem assim você entendeu, a Anitta atingiu seu objetivo: público novo). E é situando a série nesse espaço temporal que se percebe que o maior problema dela é querer se vender como uma autobiografia autorizada da cantora. A série não é sobre a vida e carreira da Anitta, mas sim sobre a Anitta pessoa jurídica e aqueles que a circundavam nesses quatro meses de projeto. Vai Anitta é mais um passo na empreitada internacional que a cantora trava, de forma confessional, desde Paradinha, mas que deu seus primeiros passos com Ginza e Sim ou Não, no início de 2016 – informações que não estão na série, por exemplo – para alcançar a fama internacional. E só isso.
E por que dizer que a série pode ser limitada a apenas mais um passo da cantora em sua carreira internacional? Porque fica bem evidente, ao longo dos seus seis episódios, que a série não foi feita para quem já a conhece e quer estreitar essa relação, ou seja, para fãs, mas sim para um novo mercado, gringo, que ficaria bem impressionado em descobrir os feitos da cantora. Obviamente, pela abrangência da Netflix, esse deveria sim ser um dos objetivos dela, afinal, não é só de fã brasileiro que a Anitta quer viver. No entanto, ao focar nesse objetivo, ela esquece quase que por inteiro que tem um público gigante brasileiro e que, muito provavelmente, já conhecia boa parte do que foi tratado ali. Ao tomar esse caminho, ele deu espaço para um sentimento de frustração de quem esperava uma espécie de Big Brother da vida da Anitta ou, sem exageros, conhecer um pouco mais da Larissa – nome real dela – além do que já se consegue achar no Google.
Aliás, mais um fato que reforça que a série tem um tom mais promocional do que documental é de que ela foi produzida pela Shots Studios, que é a empresa que gerencia a carreira da cantora fora do Brasil. Pesquisando mais um pouquinho, percebe-se que a Netflix é somente uma espécie de distribuidora da série, que foi inteiramente pensada pela Shots. Apesar de todo documentário ter um tom de subjetividade e a escolha daquilo em que se dará ênfase, é mais difícil encontrar esse tom menos ficcional quando não há um agente externo, que no caso seria a Netflix, para dar um pitaco e mitigar o anseio de não querer se retratar com uma pessoa somente louvável. Não que a série não mostre certas fraquezas ou lados não tão admiráveis da cantora, mas o Vai Anitta é quase que um tributo a genialidade dela e se perde por focar somente nisso. Anitta é incrível no que se propõe, de fato, mas todos os outros lados que certamente existem, não estão ali.
A título de exemplo podemos citar o momento em que é narrada a depressão que Anitta sofreu no auge do sucesso, no final do ano passado, enquanto Vai Malandra capturava 19 milhões de visualizações em seu primeiro dia de lançamento. Não há espaço para esse assunto na série, por dois motivos: porque não foi dado tempo de tela para ele e porque o clima de sucesso está tão exacerbado, que soa pequeno, meio bobo, meio frescura. E aí a série pede a oportunidade não só de retratar essa fraqueza da cantora, mas também de falar de um assunto importante que já é visto exatamente com os adjetivos citados acima. Pelo contrário, a série acaba reforçando essa ideia. Sabe-se, pela série, que, em tese, a Anitta deveria estar feliz pelo sucesso, mas não encontrava nenhuma razão para estar. Porém, como ela reconheceu essa condição, quem estava do lado dela nesse momento, como ela buscou ajuda, se ela tomou remédios, se teve alguma crise súbita, nada é contado. Aliás, assim que ela narra o momento depressivo, já pula para as gravações do single da música Indecente e parece que tudo foi fácil e rápido.
É assim, também, quando contam sobre os problemas respiratórios e nas articulações da cantora. Um nebulizador, acupuntura, massagem e logo depois ela está num trio elétrico de carnaval com meio bilhão de pessoas. São dois minutos de Larissa e vinte e oito de Anitta. Os espinhos estão escondidos, submersos, como os de uma vitória-régia (aliás, obrigado Anitta pela aula de biologia na gravação de Is That For Me).
Voltando a questão temporal, há outro problema, além do fato de se restringir ao projeto Check Mate, que não contribuem para a fluidez e andamento da série. É a presença do ex-marido da Anitta. É ex porque sabemos, pois somos brasileiros com acesso à internet. Mesmo que você não se interesse por esses assuntos, ele chegou até você. Se não chegou, sorte sua, mas aos fãs ou admiradores, principal público da série, obviamente chegou. E se faltou tempo de tela para o episódio da depressão, por ex., o Thiago teve tempo de sobra, quase material suficiente para um spin-off. Mas a questão aqui não é o fato dele simplesmente aparecer muito, mas, principalmente, porque ele não está ali para falar sobre a Anitta, mas para falar da relação deles. E é difícil se emocionar ou comprar algo que, no plano da realidade, do presente, não existe mais. A máxima do foi bom enquanto durou, nunca fez tão sentido. As frases românticas, os momentos de afeto e até mesmo o casamento simbólico no meio da floresta amazônica, apesar de serem imagens novas para o público, são velhas na prática. Funcionaria, talvez, com um público que sabe pouco sobre ela – e fica para esse público, de fora ou não, fazer uma review falando sobre isso – mas, insisto, essa série tem como público interessado majoritário os fãs, então fica difícil se importar ou achar fofo um discurso que já passou.
No mais, vale ressaltar, que apesar dos problemas, a série se sai muito bem em contar sobre a Anitta e seus sucessos. Pelo menos sobre os sucessos da era Check Mate, como já dissemos. Há cenas incríveis de estúdio com o compositor Poo Bear, em que eles tentam encontrar, juntos, o tom certo da voz, da nota, da afinação, para cada palavra ou verso das músicas, mostrando, com detalhes, todo o processo de produção de uma canção e o quão difícil pode ser para um artista atingir as expectativas de toda uma equipe. Há muita coisa por trás e a série faz questão de explicar esse desenvolvimento, sobretudo as estratégias que justificam cada decisão e a ordem de cada uma. Dá pra entender, inclusive, o porquê Anitta é, hoje, referência no cenário empresarial e tem reais chances de atingir o estrelato internacional. Além disso, tem, também, bastidores das gravações dos videoclipes e de alguns shows importantes, esses, resumidos aos internacionais, mas que chamam atenção para a redescoberta da cantora com um público diferente, que não a vê como uma superstar.
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De tudo que poderia ser, enfim, Vai Anitta está muito aquém do que se espera de uma série documental. Saímos os mesmos depois da série: cientes do sucesso que Anitta é e um pouco mais distantes do que imaginamos que a Larissa possa ser. Anitta quer ser uma estrela e decidiu, nesse caso, que estrelas só podem brilhar.













