Segundo as leis da física, todo objeto pode ser submetido a um esforço qualquer e dependendo de sua composição ele se arrebenta ou aguenta a força aplicada até o ponto limite. Como um elástico, que é sólido, mas se estica até onde sua estrutura química permite. As franquias hollywoodianas atuais são “elásticos” narrativos, levando uma obra até o limite do aceitável, esticando a história até o ponto em que as fissuras começam a ficar aparentes e seus pontos fracos começam a ganhar mais destaque do que seus pontos fortes. Quando o primeiro “Invocação do Mal” se mostrou uma pequena mina de ouro em potencial para os cofres da Warner, era só uma questão de tempo até que o estúdio explorasse todos os vértices possíveis da mitologia criada por James Wan, alternando passado e presente e no processo construindo o panteão profano das criaturas que aparecem em menor ou maior quantidade. Então, A Freira (The Nun, 2018), que chega essa semana aos cinemas brasileiros, acaba contrariando as expectativas. Numa obra que mostra que sim, o elástico sempre pode ser esticado um pouco mais longe do que se pensava.

Desta vez voltamos no tempo, a um convento na Romênia que esconde a origem do demônio que assume a forma de uma freira e que aparece nos filmes anteriores, o famoso Valak. Quando uma freira se suicida nesse convento, o Vaticano envia o padre Burke (Demián Bichir) para investigar o motivo. Especialista em casos sobrenaturais, ele acaba recebendo a ajuda da irmã Irene (Taissa Farmiga), uma noviça em vias de assumir o manto de freira e que tem visões desde a infância. Juntos eles vão descobrir que dentro das paredes do convento há uma presença maligna capaz de fazer tudo para se libertar da sua prisão.

A Freira
A Freira

O (relativamente novato) direto Corin Hardy cria uma obra coesa. Filmada toda na Romênia, o filme usa e abusa de uma fotografia escura e opressora, fazendo tudo aparecer entre penumbras e tons de cinza, demonstrando o clima tétrico que o roteiro pretende evocar. Em auxilio disso a trilha sonora espectral e igualmente opressiva pontua as voltas e sustos, como em todo filme de terror que siga a cartilha das obras do gênero atualmente. E isso não é ruim, já que aqui os clichês são bem trabalhados e o filme está repleto deles. Das sombras e vultos que se movimentam por trás dos personagens aos elementos de cenário que sofrem influência das forças do mal, tudo é enquadrado em close-ups e planos médios que dão o clima de tensão constante e apreensão necessária. A narrativa também se baseia nos clássicos do gênero, bebendo dos ícones da eterna luta entre o bem e o mal, usando demônios, possessões e outros elementos criativos para chocar e surpreender o espectador. A narrativa ainda surpreende e acrescenta uma pequena (mas bem-vinda) dose de humor, servindo como um respiro entre as constantes aparições e tentações maléficas.

O elenco está à vontade, seguindo as obviedades da narrativa na medida do possível. Bichir até tenta imprimir uma seriedade ao seu papel, mas acaba soando um tanto quanto canastrão em alguns momentos. O francês Jonas Bloquet é o responsável pelas sequências de ação, servindo como a força (literal e figurada) necessária para a proteção da comitiva e é também o responsável pelas tiradas que acabam ganhando alguma graça no decorrer do filme. Farmiga é a que tem mais tempo de tela e, portanto, acaba carregando mais nuances na sua atuação, mesmo que ela não tenha o mesmo alcance de sua irmã mais velha, Vera.

A Freira
A Freira

Se o filme consegue trabalhar com a inerência de seus clichês, é ao se colocar como obra de um universo maior que ele onde mora seu maior erro. Como uma obra isolada o filme conseguiria se safar com considerável desenvoltura. Mas ao se colocar como parte e necessitar de ligações com as obras anteriores (que na linha temporal acabam sendo posteriores), muito dessa força se perde. As constantes conexões acabam roubando um pouco de brilho, ficando evidente no começo e no clímax que são corridos e mostram a fraqueza de tais escolhas.

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A Freira é um daqueles filmes que tem potencial para ser algo maior, mas acaba tendo de lidar com o peso do passado onde está inserido (assim como seus personagens). É até irônico que o titulo possa ser aplicado em diversos momentos a diversas pessoas, refletindo um pouco das conexões forçadas que são utilizadas aqui. No entanto, deve se mostrar uma obra de considerável apelo (principalmente aos já fãs do universo produzido pela Warner). Se o sangue de Jesus tem poder, a mente de James Wan para criar novos e deturpados universos tem mais poder ainda.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Warner Bros Pictures Brasil 

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REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
freira-universo-compartilhado-erroA Freira é um daqueles filmes que tem potencial para ser algo maior, mas acaba tendo de lidar com o peso do passado onde está inserido (assim como seus personagens).