Na difícil tarefa de elencar os melhores episódios de 2017, algo que eu tentei levar em consideração foi o quão memorável a série e o episódio conseguiam ser. Pautando-se apenas na qualidade, daria para fazer um ranking das cem melhores séries (e possivelmente os quinhentos melhores episódios) do ano. Como distinguir o que é bom do que é bom? Cada um com seus critérios — no meu caso, o usado foi esse mesmo.
A reflexão não aponta somente para as séries de tevê norte-americanas de canais abertos, mas muitas vezes acaba na Netflix. Não precisamos ir muito longe para achar um exemplo: O Mecanismo estreou há pouco e, se não fosse toda a polêmica que ainda vai dar muito o que falar (leia a crítica aqui), a série seria colocada no limbo daquelas que dizemos que vamos assistir, qualquer dia em qualquer vida. As comédias do serviço sofrem bastante com isso. As mais antigas estão perdendo fôlego (Orange e Grace) e algumas recentes sequer sabemos que existem.

Toda essa introdução para dizer que Santa Clarita Diet fez sua primeira temporada nessa categoria de séries esquecíveis, mas entregou dez novos episódios que lhe deram a oportunidade de ascender. Não é incomum, não. Com diversas séries isso ocorre — a recém renovada One Day at a Time, por exemplo. Com os mesmos roteiristas e carregando muito do humor, precisarei de alguns parágrafos para tentar explicar essa percepção. O importante aqui é reconhecer que houve um esforço maior para estabelecer a comédia dentro de um formato singular e que brinca com seus diversos gêneros. Já dá para recomendar com tranquilidade.
Nos primeiros minutos dessa premiere, pode ser que demoremos para nos situar, o que acontece com toda a série. Nessa, no entanto, acho improvável que alguém tenha retido muita informação. Fica na memória que acompanhamos uma zumbi (?) que é ajudada pelo marido a lidar com suas mudanças pós-morte e a constante necessidade de se alimentar de outras pessoas. No mais extremo da Lei de Murphy que se possa imaginar, os dois são tão péssimos na tarefa de buscar alimento que fariam Dexter Morgan ter um ataque de ansiedade assistindo.
Acompanhamos, no primeiro ano, estreado em fevereiro do ano passado, o estabelecimento da história. Para quem deixou a série passar e para quem vai pular (como eu pulei) o resumo da temporada oferecido pelo serviço: Sheila e Joel são corretores de imóveis que levam uma vida comum até que acontece o que fora descrito no parágrafo anterior. Como é de se esperar, houve a tentativa de estabelecer uma mitologia para esse universo deles, relacionando o estado da protagonista a eventos passados, distantes. Além disso, tivemos conflitos mínimos e que se situam dentro da rotina das personagens, tornando vizinhos os antagonistas da história. Essas duas características continuam fortes nesse seguimento, mas rendem, no mínimo, situações engraçadas.

Santa Clarita Diet é uma série de horror, mas se situa nos limites da classificação. Alguns elementos de subgêneros estão ali, mas não poderíamos, por exemplo, chamá-la de trash — Ash vs Evil Dead e Stan Against Evil, além das séries do Syfy, estão aí para deixar isso claro. Talvez seja um caso de condução do roteiro e de como as cenas de gore aqui aparecem como bônus, nunca catalizadores.
De qualquer forma, essa indecisão não pesa tanto nesses dez episódios. Assumimos, uma vez ou outra, que é uma produção sobre o constrangimento e o ridículo daquilo que chamamos como correto. Esse humor, característico de diversas produções, principalmente da Netlix, chega para cutucar a lupa da problematização que lançamos sobre diversos assuntos e escancarar o problema com nossos discursos. Não é à toa que o texto deixa de ser alegórico, em muitos momentos, para falar diretamente sobre isso, usando palavras de nosso dia a dia com as quais já estamos acostumados.

Vale destacar também que o estado de saúde preocupante de Sheila às vezes vai para segundo plano e é a situação financeira da família que rende debate entre eles. Dessa forma, não importando seu estado físico, o mais importante sempre será conseguir pagar as contas em dia e manter o emprego. Como série que nasce em um mundo constantemente em crise, não dá para deixar esse detalhe passar despercebido. É absurdo porque dialoga conosco do modo mais estranho possível. Quantas mulheres não se veem na situação da protagonista, todos os dias, em ambientes de trabalho tóxicos nos quais precisam devorar partes de si mesmas para continuarem cobertas na CLT?
Mesmo com apenas dez episódios, a trama dá boas avançadas. Encontramos o que seria a razão para a doença, seu surgimento e como impedir que ela se propague. É tudo inacreditável, exagerado e às vezes óbvio, mas isso não incomoda tanto quanto parece na teoria. É certo que o roteiro não compromete seus atores e personagens nos extremos que esperamos (mesmo os exageros são contidos), mas isso não diminui as risadas ocasionais. A produção não se vende pela comédia que nos faz gargalhar o tempo todo, mas aquela que constrói aos poucos os momentos absurdos para que estes nos encurralem ao ponto de não termos outra alternativa, senão rir daquilo.
Aqui lidamos, basicamente, com quatro personagens, variando as participações ocasionais. Sheila e Joel são ótimos protagonistas, e a série sabe conduzir bem sua narrativa para que nenhum se sobreponha ao outro. É importante que isso ocorra porque a história da série é justamente sobre esse casal que se ajuda e que tem nessa dupla a força para encarar os momentos mais difíceis. Engraçados e com boa química, os atores Drew Barrymore e Timothy Olyphant parecem se divertir em seus papéis. Se não vão além, isso talvez se explique pelo roteiro e pela direção que não os levam ao caos visto em Ash vs, por exemplo. Os diálogos são rápidos e têm a energia necessária para que o senso de comédia se estabeleça primeiro entre eles para depois influenciar na narrativa e no restante da cena.

Liv Hewson e sua Abby fazem uma ótima jornada nesse segundo ano, impossibilitando que a personagem caia no velho clichê da filha do casal. É prova de um texto consciente, que sabe desse problema dentro do gênero do horror, quando as crianças/filhos são pouco trabalhados. A interação com seus pais (e os outros atores) também sabe utilizar o tom certo, nunca recaindo para a dramédia — esta não se situaria muito bem na história. Quando Skyler Gisondo (Eric) tira a camiseta, nós acreditamos, por um momento, que ele está interpretando a personagem errada, mas isso logo muda porque o comprometimento do ator com as circunstâncias propostas pelo roteiro é evidente. Seu par com Abby, que funciona mais como amizade mesmo (boa parte do tempo eles parecem irmãos), é ótimo e sabe fazer uma boa transição da dupla representada pelos pais da adolescente.
Nathan Fillion faz uma boa participação aqui: Gary é um dos pontos altos da temporada. O mesmo vale para Ramona (Ramona Young) e Mary Elizabeth Ellis (Lisa) e suas excêntricas personagens. Chris e Christa (Joel McHale e Maggie Lawson) aparecem pouco, mas contribuem de forma tão positiva que só desejamos que pudessem ter mais destaque. Não posso arrastar o elogio para Natalie Morales porque tudo a respeito de Anne Garcia parece off demais, assim como Derek Waters e aquele personagem que não lembraremos o nome ou Leo Howard, que é uma graça, mas rendia mais em Freakish.

Coyote in Yoga Pants (segundo episódio), The Queen of England (quarto) e Easels and War Paint (oitavo) são os grandes destaques da temporada, mas é possível elencar diversos bons momentos. Entre eles, o encontro amoroso de Eric e Ramona, a visita de Joel à terceira vítima, os diálogos entre Abby e Lisa e a emboscada envolvendo os nazistas. Para a conclusão, temos os caminhos esperados para o futuro da série: alguma organização que sabe de tudo e está tentando encobrir toda a história. Não é nada empolgante, mas lhe concedo um voto de confiança.
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É cedo demais para saber se Santa Clarita Diet retornará no ano que vem. A recepção, no lado da crítica, tem sido de fria para mediana, então é esperar para ver. Boa parte do público deve ter adiado a maratona baseado no que viu em 2017. Dá para conferir, e é o que recomendo, os dois primeiros episódios e atestar ou retificar a conclusão da parte que retornou: melhorou. Melhorou bastante.















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