No decorrer de O Mecanismo, o protagonista da série chega a uma conclusão que nós, distante de seu posto, chegamos todos os dias ou ouvimos alguém chegar em qualquer conversa de bar. É algo tão óbvio e bobo que me fez perguntar se, na verdade, é preciso esse distanciamento nosso para ver as coisas tão claras como são. A questão também me faz pensar se a produção em si não precisaria de um distanciamento maior para que nós consigamos consumi-la como o produto que se oferece. Essa distância, no entanto, anularia todo o apelo e a justificativa construídos em cima de sua existência. Sendo assim, só nos restam as hipóteses.

De qualquer forma, podemos tirar como certo, antes sequer de nos comprometermos à maratona, que o investimento do maior serviço de streaming em produções nacionais é mais do que bem-vindo, mas esbarra em um problema que conhecemos: a falta de seriados na escala de outros países nos limita a não termos uma linguagem realmente nossa nesse departamento, assim como temos nas novelas ou nos filmes. O resultado é que as séries esbarram nessas outras duas mídias e nos dão episódios novelescos ou cinematográficos demais. Juntando isso à questão do roteiro pouco evoluído para esse setor e da atuação que não compreende muito bem os limites desse trabalho — uma vez que mesmo os diretores não estão lá tão em contato com séries para estabelecer uma lógica artística — formamos um mecanismo que vai além daquele apresentado na série estreada na última sexta 23. Ir contra ele, assim como ir contra o retratado nesse enredo, tem dificuldades semelhantes.

Antes de mais nada, vamos falar sobre o elefante na sala, tudo bem? O Mecanismo se vende como uma obra de ficção e aqui será analisado como tal. É evidente que a forma como acompanhamos os fatos nos quais o roteiro é baseado e a nossa ideologia pessoal pode influenciar no quanto acreditamos ou não na narrativa, mas a série será tratada aqui apenas em suas qualidades e defeitos como produto televisivo. Tanto este não é o espaço adequado para fazer um trabalho histórico-comparativo, como eu possivelmente não sou a pessoa. Além disso, mesmo que a série se propusesse a ser um trabalho documental, ela jamais reproduziria a realidade. Jamais. Isto porque quando a realidade passa a ser captada por alguém, ela deixa de ser realidade e passa a ser a visão de alguém sobre o mundo.

Conversados? Muito bem. Aos desavisados, em resumo muito breve, O Mecanismo, baseada na obra de Vladimir Netto, retrata uma operação que investiga a corrupção envolvendo estatais e empreiteiras. Seguimos as pessoas responsáveis por montá-la, acompanhá-la e lidar com as dificuldades burocráticas de finalizá-la. A estrela aqui é a famosa Lava Jato. A perspectiva segue os delegados Marco Ruffo (Selton Mello) e Verena Cardoni (Caroline Abras) tanto na vida profissional, a qual está constantemente em jogo pela necessidade de seguir regras e a não disponibilidade de ambos para isso, quanto na pessoal. Esta é prejudicada pelos sacrifícios que ambos são obrigados a fazer.

Enrique Diaz (Roberto Ibrahim) e Selton Mello (Marco Ruffo) em O Mecanismo
Enrique Diaz (Roberto Ibrahim) e Selton Mello (Marco Ruffo) em O Mecanismo

Boa parte das últimas séries da Netflix tentaram se validar através da importância que seus temas trouxeram. É importante a validação, porque ninguém gosta de sentir, depois de dez episódios, que jogou seu tempo fora — e nada afasta mais essa sensação do que perceber que há sentido e importância mesmo dentro do que procuramos como entretenimento. Para justificar uma série que basicamente compila os noticiários dos últimos anos e dá a sua versão, temos que nos afastar do que parece ser o foco e buscar um tema maior, talvez um fator universal.

Partindo desse princípio, O Mecanismo não é uma série apenas sobre essa grande operação que marcou a história já terrível de nosso país ou sobre a desesperança geral a respeito do futuro na nossa política. O título da produção nos dá uma pista: ela é sobre a dificuldade de atravessar um muro construído há muito tempo e com tijolos firmes. Não é sobre um lado ou outro, mas como é difícil contestar cada um deles quando cada indivíduo faz parte de algo maior, complexo e completo. O pior de tudo é que boa parte do tempo os protagonistas estão lutando contra palavras e procedimentos que, tecnicamente, estão ali para tornar as coisas justas — mas, nesse sentido, é a presença dessas regras que solidificam algumas injustiças. Se pensarmos assim, a série criada por Elena Soarez e José Padilha alcança seu objetivo, e é impossível que não cheguemos a essa conclusão em alguma parte do caminho.

Para transportar esse conceito para as telas temos a respeitável produção do serviço de streaming, que fica evidente em muitos momentos. Os atores contratados são talentosos, muitos deles conhecidos nossos, e retiram o possível de suas personagens, mesmo quando não têm muito em mãos — alguns mostram uma performance admirável nessas condições. Outro ótimo destaque é a qualidade do som. Contando pontos ainda tempos episódios curtos.

Dito isso, vou sublinhar os grandes desapontamentos com a série e por que ela oferece pouco ao que a Netflix pode desenvolver por aqui. Para começar, muito do roteiro parece mais teórico do que prático. Ou reformulando: tem um tom mais literário (ou mesmo jornalístico) do que ficcional, o que favorece pouco ao telespectador e deixa a jornada enfadonha. Muitos seguimentos vão para lugares comuns e têm um tom tão brega que parecem amadores. Isso se espalha desde o movimento de câmera, comprometendo a fotografia, passando pelos diálogos e culminando na atuação. Não tem outra palavra além de cafona. Nos primeiros episódios (principalmente o primeiro), a edição é tão estranha e bagunçada que deixa a série parecer um conjunto de retalhos episódicos desordenados típicos de programas televisivos. Quase montado às pressas. Isso influencia bastante para que não entendamos como funciona a passagem de tempo e consigamos sentir as consequências propostas pelos fatos.

Selton Mello (Marco Ruffo) em O Mecanismo
Selton Mello (Marco Ruffo) em O Mecanismo

Muito da atuação se ambienta no exagero, em arquétipos ou caricaturas, mas creio que o problema seja o roteiro, que sem dúvida é o maior por aqui. Temos a construção dos personagens que se dá ou de maneira óbvia ou não se dá de forma alguma. O protagonista, tal qual séries como Unabomber, não nos chama para nada. Estamos do lado dele uma vez ou outra por razões óbvias, mas se a série se passasse em outras circunstâncias, possivelmente não nos importaríamos. E isso é muito grave porque Selton Mello é extremamente carismático. Enrique Díaz também. Aqui a impressão, pelo menos no começo, é que cada ator está atuando em uma série diferente.

A questão então é que o texto não sabe criar interesse no telespectador como Homeland, por exemplo, faz. Aliás, é impossível não fazer diversas comparações com essa ou outras séries. Para que os oito episódios não sejam uma jornada sofrida ao assinante do serviço, seria preciso que o texto não se apoiasse tanto em recursos que já estão desgastados ao gênero dramático, desde a doença mental do protagonista às decisões tomadas no decorrer da investigação.

Não só é importante que compremos seu objetivo, como, no caso da série em específico, essencial. Isso porque a população não está representada em nenhum momento dentro da narrativa. Isto é, não lidamos com “cidadãos comuns”. Temos três lados da história brigando pela razão e não somos nenhum deles. Incomoda bastante porque a sensação é de que uma série que se pretende tão completa e onisciente acaba deixando alguns lados essenciais na narrativa dessa história. Explico: toma-se a liberdade para cutucar os presidentes da história, contar as dificuldades dos antagonistas, a vida pessoal dos investigadores e a questão legal dos juízes, mas em nenhum momento vamos para a mídia com a mesma força que ela teve nos fatos e o lado mais prejudicado: a população. Esta fica de fora. O texto se esquece que os crimes retratados não são apenas contra um departamento que representa a autoridade de uma população, mas contra ela.

Qual o peso disso na experiência como telespectador? Bastante porque se definimos há alguns parágrafos que o objetivo era algo grandioso, não podemos diminui-lo às sagas pessoais de Marco e Verena. Se fizermos isso, estamos de fora porque eles não são desenvolvidos o bastante para que possamos percebê-los como nada além de caricaturas de pessoas naquela situação. Acrescentamos a isso que há uma cena melancólica e trágica sobre como é difícil ganhar o dobro ou o triplo do salário que (possivelmente) o assinante comum do serviço ganha. Ou seja, a trama se fecha para nós.

Carol Abras (Verena Cardoni) em O Mecanismo
Carol Abras (Verena Cardoni) em O Mecanismo

Há uma narração estranha que nos segue desde o começo. Não só estranha porque soa rouca e pesada no começo (algo que vai te incomodar se você estiver assistindo com fones de ouvido), mas porque não se decide se está conversando com o telespectador ou apenas sendo utilizada como um recurso extra na narrativa. Às vezes a voz aparece para contar coisas que as personagens já falaram, sem nunca influenciar uma cena de forma definitiva. Poderia brincar com o que está acontecendo, guiar o telespectador de forma irônica através desses fatos absurdos ou tantas outras possibilidades perdidas. Desperdício também é o humor tímido demais que poderia ter mais presença para quebrar o ritmo cansativo.

Não faço ideia de como a série será recebida pelo público internacional, mas parece feita ao público brasileiro, mesmo que fique incerto como este a receberá. Assim, há muito cuidado para não complicar a trama demais. Entendemos tudo o que ocorre, rendendo à história uma proximidade maior do que com House of Cards, por exemplo, que tem suas qualidades, mas que nos deixa cheios de dúvida na maior parte do tempo. Um ponto positivo, portanto.

> O MECANISMO! Carol Abras e Selton Mello falam sobre a série da Lava Jato!

A conclusão boba e os últimos episódios, rendidos a analogias óbvias sobre câncer, vão integrar o grupo composto pelos ideais políticos pessoais que farão muitos (de qualquer orientação política) odiarem. Assim como Altered Carbon, no entanto, é bem provável que o grande público não passe do primeiro episódio. Mas nesse caso não é mérito nosso, não. É o mecanismo de séries medíocres da Netflix em plena operação, produzindo em demasia para que não seja percebido.

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ps:

Há um problema com as cenas de sexo que vão além do fato de serem bem cafonas. Não comentei no texto, mas fica registrado o incômodo. A gente continua o papo nos comentários se mais alguém se sentir assim.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-mecanismo-serie-publico-brasileiroÉ o mecanismo de séries medíocres da Netflix em plena operação, produzindo em demasia para que não seja percebido.