Comédias românticas geralmente seguem um padrão bastante definido: garoto(a) conhece o amor da sua vida, um triângulo amoroso ou situações externas atrapalham esse objetivo e finalmente o casal termina junto, após uma apoteótica declaração de amor. Alguns fatores dessa fórmula podem mudar  dependendo do contexto, mas o fator em comum sempre continua o mesmo: a orientação sexual do casal. Com a (aparente)  modernidade em que vivemos essa regra ainda deveria ser válida? “Com Amor, Simon” (Love, Simon, 2018) chega com a certeza de que não. Afinal, todo mundo não merece a sua grande história de amor?

Simon (Nick Robinson)  é um adolescente normal como todos os outros. Mora com uma família normal, tem ótimos amigos e estuda num colégio típico. Simon só tem um segredo: ele é gay. Tudo fica ainda mais complicado quando ele começa a trocar e-mails com outro aluno também gay, mas de quem ele não sabe a identidade. Quando o relacionamento virtual começa a ficar sério, é hora de Simon lidar com a família, os amigos e o primeiro amor verdadeiro.

Greg Berlanti é um cara esperto. Ele pode não ter muito sucessos na carreira cinematográfica, mas é o rei do domínio teen da CW. E ele usa bastante dessa experiência televisiva para construir uma narrativa que, se não inova em estrutura, consegue se sobressair pela temática. Protagonistas gays não são novidade no cinema. Filmes como “Brokeback Mountain“, “Moonlight“, “Me Chame Pelo Seu Nome” e “God’s Own Country” são ótimos exemplos, mas são filmes geralmente direcionados a um público de festivais/premiações e geralmente não possuem finais felizes. O que Berlanti faz é subverter a estrutura da comédia romântica ao levar um protagonista gay para um filme totalmente mainstream. Essa jogada de colocar o filme em circuitos comerciais abertos é arriscada, visto o esquema de lançamento do filme aqui no Brasil (com pré estreias começando no dia 22 de março e sendo lançado oficialmente no dia 05 de abril nos cinemas), mas compensa com uma obra carismática e leve.

Ao adaptar “Simon vs a Agenda Homo Sapiens” da escritora Becky Albertalli, Berlanti imbui o filme num clima oitentista que parece ter saído dos filmes de John Hughes sem deixar de incluir a modernidade dos millennials que passam o dia em frente a telas de celular, além de enxugar alguns elementos que não funcionariam no cinema e dar contexto e profundidade para passagens que carecem disso no livro.  Esse viés oitentista fica ainda mais presenta na trilha composta por Rob Simonsen (Bleachers), repleta de acordes de sintetizadores e batidas eletrônicas do período.

Além de Robinson, Katherine Langford, Alexandra Shipp e Jorge Lendeborg Jr conseguem convencer como os amigos inseparáveis que estão presentes nos vários momentos chaves da trama. Do elenco “adulto”, Josh Duhamel e Jennifer Gardner não só funcionam junto do elenco jovem, como imprimem as camadas necessárias no que diz respeito ao convívio familiar de Simon e emocionam, principalmente nas cenas que envolvem a revelação da sexualidade do filho.

Muitos podem reclamar da falta de “severidade” do filme, da ausência de levantar bandeiras ou politizar atos. Muitos outros podem criticar a questão de um relacionamento do tipo retratado para as massas. Isso só reforçar ainda mais um dos diálogos mais interessantes do filme: “é difícil se assumir para o mundo porque o mundo pode não gostar de você”. Todas as formas de amor são válidas e “Com Amor, Simon” é apenas o primeiro passo num caminho mais do que necessário. Já passou do tempo de jogar os velhos modelos fora e começar novos que atendam todos os espectros, sejam eles héteros, gays, bis ou trans. Se antes perguntava, agora afirmo: todo mundo merece uma grande história de amor.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Fox Film do Brasil

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Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
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