Ben DelaCreme: A história da mártir mais esperta da história de RuPaul’s Drag Race.

Ben DelaCreme estava ao lado de Darienne Lake na passarela da sexta temporada da Drag Race, ouvindo RuPaul eliminá-la a despeito de toda falta de sentido que aquilo tinha. Ela se resignou, retirou-se e reafirmou a estranheza do evento no Reunited, quando a faixa de Miss Simpatia fez uma importante diferença na maneira como ela lidava com o legado da corrida. Acho que antes de discutir qualquer coisa, precisamos estabelecer: Ben nunca se relacionou com a fama da mesma maneira que as outras rainhas da competição.

O primeiro indício disso veio assim que o All Stars 3 começou. Todos devem se lembrar que a grande piada feita sobre a presença de Ben dizia respeito exatamente à presença de Ben. Milk conta na entrevista do episódio que Dela sumiu do circuito drag por anos, desde que sua temporada – a sexta – foi ao ar. Vasculhando nas redes é possível perceber que o investimento da queen no andamento da própria fama é quase zero. Por alguma razão, em algum momento, ela decidiu que se afastar e focar apenas no seu show local seria a melhor forma de desfrutar do que o programa lhe deu.

E por que estou começando esse texto dizendo isso? Porque o principal argumento de quem considera a decisão de Dela um embuste, vem da ideia de que ela quer, sobretudo, aumentar a própria visibilidade, usando para isso os poderes da demagogia. Mas, espera lá: Ben foi uma das competidoras mais populares da Drag Race naquele sexto ano e quando o programa acabou ela simplesmente sumiu. Que grande caçadora de atenções é essa?

Sessão Descarrego

Não se pode negar, contudo, que estamos diante de uma personalidade que tem um claro fetiche pela aprovação alheia. Desde o minuto que chegou no All Stars 3, ela não negou e ainda reforçou que seu principal objetivo era se sair bem sem arranhar – nem por um segundo – a boa imagem construída na primeira participação.  Então, acho que vale a pena voltar a uma entrevista que ela deu em 2016, quando lhe perguntaram se ela voltaria ao show. A resposta foi a seguinte:

“Esses produtores estão dispostos a arruinar amizades e carreiras por causa de entretenimento barato. Você não lembrará dos detalhes de um episódio em uma semana. Algumas das meninas talvez precisem superar essa participação por anos. Eu sou muito grata pela minha experiência, mas já passo o inferno no meu show, não preciso passar pelo inferno no deles”

Em retrospectiva, essa é uma resposta que diz muito sobre como Dela entrou na competição e também uma resposta que passa um delineador em quase tudo que ela disse durante seu tempo no All Stars 3. De repente, voltar passa a não fazer sentido diante dessa resposta, até que finalmente faz:  mesmo que não concorde com os efeitos negativos do show, aquela ainda é uma plataforma de aprovação e Dela quer e precisa de aprovação, sobretudo porque sua eliminação não teria sido justa lá na sexta temporada. Então, como passar pelo show, ter a aprovação desejada e ao mesmo tempo, burlar a armadilha incitada pelos produtores que coloca uma contra a outra, inevitavelmente?

Todo esse sexto episódio constrói sua narrativa de modo brilhante. Sabíamos que o retorno das eliminadas seria tomado de ressentimentos, porque a fórmula do All Stars realmente coloca sobre as participantes uma pressão muito forte. É a pressão que qualquer pessoa na posição de Ru sofre todo dia; e está muito claro que o All Stars virou um estudo do quanto essas competidoras estão dispostas a tomar difíceis decisões. Elas se atrapalham, deixam questões pessoais vazarem e o resultado é aquela sessão de descarrego emocional que para mim chega ao seu apogeu com Milk se perguntando “Eu sou um babaca?”.

Dela assiste ao confronto com uma expressão consternada. Isso piora quando acontece aquilo que jamais poderia acontecer: ela dá material negativo para a edição, porque embora Morgan merecesse ir embora, Dela acabou indo contra uma fala que ela mesma dera anteriormente. Naquele momento, os produtores tinham conseguido armar uma arapuca poderosa e a cabeça de Dela não parou um só minuto de pensar em como contornar a situação e vencê-los usando contra eles aquele mesmo senso de controle.

Sejamos honestos com outra coisa: Ben é uma grande artista. A forma como ela pegou os sentimentos gerados pelo confronto com Morgan e transformou em um personagem que se destacava completamente dos outros, foi linda de se ver. O desafio era bom em várias instâncias e deu outra chance para as eliminadas mostrarem um pouco mais de talento. Ainda ficou ruim para Thorgy (que só aparecia na edição com falas ressentidas) e Milk (ainda se elegendo a melhor em coisas que as pessoas nem lembram que ela fez), mas todo mundo fez um trabalho digno e apareceu um pouco mais.

Ben DelaCristo

A apresentação das que ainda estão no jogo foi realmente melhor e Bebe merecia estar no Top 2. Bebe teria, aliás, vencido se não tivesse usado aquele truque batido e superado de arrancar peruca para dramatizar a dublagem. Bebe é muito elegante e competente, mas está visivelmente datada e sua postura com relação a Aja não foi das mais bonitas. Mesmo assim, ela dublou melhor e teria vencido. Se Ru elegeu Ben sabendo ou não o que ela escrevera no batom, não importa para mim. Teria declarado a derrota de Bebe no minuto em que ela tirou aquela peruca.

Nos minutos finais, Ben se vê no ateliê, tendo que decidir quem volta e quem sai, pela quinta vez. É emblemático, porque enquanto a edição vai mostrando a forma como ela vai avaliando o papel de cada colega na competição, sabemos que a engrenagem dentro de Dela está gritando: ela não vai deixar o que aconteceu com Morgan acontecer de novo. Então, é como se ela compreendesse que o poder está nas mãos dos produtores porque supostamente elas fariam qualquer coisa pela coroa. Mas, se uma menina não tem interesse no título, a produção perde o poder. Dela burla as regras do programa criando sua própria base que inclui não só se recusar a fazer o que mandam as diretrizes, como consertando o que essas mesmas diretrizes lhe obrigaram a fazer antes.

Desistir foi a jogada mais brilhante de Dela durante sua participação e também uma das mais brilhantes da história do show. Se todas as teorias não corresponderem a verdade, ainda assim ficará para quem vencer a sensação de que esse não é um título que lhe cabe, uma espécie de Mágoa Coco Montrese, que assombrará a escolhida para sempre, sobretudo se a escolhida não for Shangela (o que parece já estar cantado em verso e prosa).

Com apenas mais um episódio antes da final, a presença de Morgan entre as meninas é uma aberração. Não porque ela não seja talentosa, mas porque ela ficou quase toda a temporada fora e sua vitória é impossível. Mais do que isso: o All Stars 3 foi todo sobre controle de danos e apenas Ben e Shangela conseguiram trabalhar isso unindo talento e presença à receita. Ainda assim, não se pode negar que Ru jamais deve ter imaginado que o formato opressor do All Stars fosse ser desafiado por alguém determinado a confrontar essa opressão. E sim, Thorgy tem razão: a atitude de Ben foi condescendente e onipotente, mas isso não muda o fato de que ela tornou-se absolutamente inesquecível.

RuNotes:

  • Chi Chi maravilhosa fazendo humor com a própria situação. E a cara dela no fundo do quadro em que Bem faz seu discurso é a melhor.
  • Que lindo ter a Emma na bancada.
  • Trixie continua sendo declarada como alguém que finalmente conseguiu acordar pro jogo. Mas, pra mim ainda soa tudo igual. Mas, inteligente ela é e muito.
  • Kennedy e Milk: Casos de Família.
  • A miniatura de RuPaul, pelo amor de Deus, alguém me dá?
REVISÃO GERAL
Nota:
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