Antes de seu centésimo episódio, Agents of S.H.I.E.L.D. decide trazer um pouco de paz e choque em All The Comforts Of Home.

Já comentei várias vezes nas reviews de Agents of S.H.I.E.L.D., desde que substitui meu querido amigo Thiago Lourenço, lá na metade da primeira temporada até hoje, que estamos encarando uma produção com extrema capacidade de transformação. Entretanto com o fim de cada arco a série faz mais do que apenas mudar o tabuleiro, mantendo os mesmos jogadores em posições diferentes e ocasionalmente os substituindo para acrescentar novos depois. Não. A mais velha do universo de séries da Marvel mantém, além de sua habitual característica renovadora de tramas, um ritmo de transformação de personagens palpável e muitas vezes sadista.

Atualmente acompanho outras séries baseadas em um universo de histórias em quadrinhos e de todas, apenas Agents conseguiu transformar tanto seus personagens através das temporadas. Sempre que um ano termina e outro começa o personagem central, principalmente, retorna com algumas características diferentes, mas com a mesma alma. Bom, em MAoS nem mesmo a alma está blindada de transformações e em sua quinta temporada muito mudou – muito mesmo. E mesmo quando a série praticamente telegrafa o que pretende fazer, com o corte dos braços da Yo Yo sendo provocado desde que os kree quase os congelaram no começo do arco de viagem no tempo, ainda é surpreendente e cruel quando o evento de fato acontece.

Após voltarem para o período atual no tempo, depois de sofrer bastante no futuro, a principal missão dos agentes é a de evitar que o mundo seja destruído. É um plano bem simples, mas que demandará uma execução complexa, já que não aprendemos quase nada no futuro. Eu faço parte do grupo que não achou este arco inicial tão bom, pelo menos não como eu imaginava. Quase não recebemos informações válidas no futuro para conseguir acelerar a montagem deste enorme quebra cabeças. Tivemos muitas explicações confusas sobre as leis que imaginamos estarem definidas sobre a viagem no tempo, descobrimos que Daisy talvez seja responsável pelo fim do mundo, mas só.

All The Comforts Of Home chega com a tarefa de oferecer um pequeno alívio para nossos personagens, que estiveram no limite por 9 episódios. E é notável o quanto o sol (e a luz) fazem bem não apenas para os personagens, que estavam precisando de um pouco de vitamina D, mas também para a própria estética da série. Agents, comumente, abusa dos corredores cinzas e dos tons frios, por isso ter um pouco de luz é sempre algo bem-vindo. Falando em corredores sombrios, o retorno para o passado/presente também nos garantiu uma nova base, apesar de ser um espaço físico já “velho”. O Farol, usado no arco do futuro, é a prova definitiva de que nossa querida Agents está com seu orçamento bem apertado. Sem dinheiro para construir um novo cenário, limpar o velho e aproveitá-lo não figurou apenas como uma decisão economicamente viável, mas também inteligente, por nos manter “presos” neste arco, mesmo sem os humanos sofríveis, os alienígenas déspotas e, bom, o mundo partido ao meio.

Começando pela introdução da nova personagem, Ruby, interpretada por Dove Cameron (Descendentes 1 & 2), ficamos logo de cara sabendo que ela é filha da militar que matou dois colegas durante o quinto episódio, Rewind. Apresentada como uma fã da Quake e sem grande potencial, além do arquétipo da filha mimada, a personagem recebe uma nova e terrível luz quando revela sua identidade. É um daqueles momentos que casam perfeitamente com a série, conduzida brilhantemente por Jed Whedon e Maurissa Tancharoen. É algo aparentemente bobo, mas que ganha uma importância gigante após deixarmos de lado o esperado.

E a calmaria de All The Comforts Of Home não chega a durar muito. Guiados pela onda de transmissão similar a usada pelo Hive para atrair os Kree na terceira temporada, Coulson e equipe trabalham para tentar parar parte da visão profética do fim do mundo. Aqui a série mostra quão irregular a trama da viagem no tempo foi. Como não conseguimos nenhuma informação válida, afinal a história deste presente é toda baseada em achismos no futuro. Sabemos sobre uma luz céu, a chegada dos alienígenas, mas até que ponto existe verdade e o que pode ser encarado como ficção? Como não sabemos, a sensação é a de que perdemos tempo precioso que poderia ter oferecido mais iluminação, mesmo que a proposta seja manter esta trama viva por mais tempo. E falando em manter vivo, até a agente Piper voltou, para uma breve aparição e dolorosa traição.

Claro que o feito memorável aqui é o corte dos braços da Yo Yo, trazendo de volta a sensação de que o futuro é mesmo imutável e que nossos personagens estão presos em um loop cruel de sofrimento. Bom, é verdade que Agents é uma série que mantém vários traços sádicos e de grande crueldade. Quase ninguém ali chegou a atingir qualquer momento de felicidade e a cada nova temporada uma nova cicatriz surge. Neste aspecto, apesar de não querer o fim, eu até compreendo a série não ser renovada e ter em seu season finale deste ano a conclusão de toda a produção. Estas pessoas precisam de um final feliz, mesmo que momentâneo.

E falando em final feliz ou o mais próximo possível de algo parecido, Deke conseguiu uma chance de ver e experimentar uma nova vida, no passado. Não sei ao certo o que a série pretendo com o personagem nesta linha do tempo, mas espero que ele não esteja aqui para oferecer novas informações a respeito do futuro, já que este recurso terminaria jogando mais sal na ferida que foi o primeiro arco desta temporada. Por enquanto suas interações com a Daisy estão interessantes.

Agents of S.H.I.E.L.D. fez de seu episódio de retorno um evento frio, depois de um agradável retorno para a luz. É aquela prova de que quando tudo está bem, prepare-se, vai piorar. E mesmo depois de quatro anos com estes personagens, roteiristas e time criativo, eu ainda me surpreendo quando eles entregam nada mais do que haviam prometido. Será uma pena se despedir desta série, caso ela não consiga ser renovada, porém, ficarei feliz por qualquer brecha de esperança e felicidade que estes personagens receberem. Bom, pelo menos os que sobreviverem ao centésimo episódio da série.

Easter eggs e outras informações

– Tivemos o retorno do Homem Absorvente (pior nome possível) e ele fez sua volta enquanto corria, vestido de forma bem similar a lutadores de boxe. Na nona arte Crusher Creel é um boxeador e chega a enfrentar o pai de Matt Murdock, o Demolidor. Existe um easter egg em Daredevil da luta entre Crusher e o Diabo Murdock.

– O holograma que dá as boas-vindas aos agentes, interpretado por Patrick Warburton, é o do diretor Rick Stoner. Nos quadrinhos Stoner foi o primeiro diretor da S.H.I.E.L.D. (e enquanto escrevo este easter egg meus olhos lacrimejam ao se lembrar de Agent Carter). Sua primeira aparição foi em Nick Fury #1, de 1994.

– Noah, o talvez morto Chronicom, menciona que um asgardiano foi visto em Nova York, colocando Agents of S.H.I.E.L.D. na mesma linha cronológica de Thor: Ragnarok. Isso pode ser a conexão com a visita que Thor fez ao Doutor Estranho.

– Até a viagem no tempo dos agentes a linha cronológica de Agents seguia a dos filmes dos Vingadores. Será que teremos alguma mudança até Guerra Infinita? Isso poderia minar até mesmo qualquer menção a invasão do Thanos. É…

– Bom, já falei outras duas vezes, mas Yo Yo perdendo os braços nada mais é do que um reflexo de sua contraparte nos quadrinhos. Lá Yo Yo teve os braços cortados pelo Górgon, agente da Hydra.

– O episódio fez algumas conexões com cada vilão e evento circunstancial desde que Ward jogou Jemma e Fitz no oceano, enquanto eles estavam em um container. Mãe e pai da Daisy/Skye, robôs assassinos e… dança.

– May falando sobre o “pequeno, mas ativo” fandom que eles tem. Sim, estamos aqui e não vamos para lugar nenhum. Pelo menos eu não vou.

– Próximo episódio já é o centésimo! AHHHHHH

REVISÃO GERAL
Nota:
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