Numa rápida pesquisa na internet sobre o numero 11:11 podemos notar que a maioria dos resultados tem contornos exotéricos. Portais para dimensões superiores, avisos de guias espirituais, sinais do acaso ou pura predisposição para atenção direcionada, cada link sempre acaba terminando em algum ponto do escopo místico da numerologia. No entanto, dentro desses resultados, a sincronicidade se destaca de maneira interessante: “indica um poderoso fluxo de conexão entre pessoas, lugares, coisas, e/ou fenômenos aparentemente diferentes que de alguma forma se torna um número ou uma série de números”. Nesse aspecto, o modo tratado por Jung (o filósofo) como o indicativo de uma realidade sempre presente, mas que somente poucos conseguem ver serve como uma luva em Here and Now.

Conhecido por Six Feet Under e True Blood (além de ter ganhado o Oscar pelo roteiro de “Beleza Americana”), Alan Ball retorna a HBO em uma série que brinca de maneira estranha com esse conceito. Somos apresentados aos Bayer-Boatwright, uma família multiétnica progressista composta por: Greg (Tim Robbins), Audrey (Holly Hunter), Duc (Raymond Lee), Ashley (Jerrika Hinton), Ramon (Daniel Zovato) e Kristen (Sosia Bacon). A série não perde tempo em ir expondo as principais características de cada membro componente da família e com isso ir mostrando os principais pontos de vista de cada um e de como eles são um espelho da realidade americana atual.

Here and Now
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Greg, por exemplo. O professor de filosofia que ao estudar a sociedade acaba acreditando que o mundo não tem mais jeito. Entrando em depressão, ele acaba deixando de lado a família e indo buscar conforto em pessoas fora dela (a prostituta e o aluno que faz às vezes de filho). Já Audrey tenta compensar essa ausência do marido controlando todos os aspectos da vida familiar, agindo intrusivamente na vida dos filhos de modo quase doentio. Kristen é a típica adolescente descolada que esconde os problemas de autoimagem e insegurança em uma fachada de irreverência e humor despretensioso, fugindo assim da pressão materna e da responsabilidade de ser a única filha biológica do casal.

Here and Now
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Mas é no trio de filhos adotados que a série mostra seus melhores momentos. Ramon, Ashley e Duc, por serem representantes de culturas diferentes, mostram a realidade vivida por milhares de pessoas não só nos EUA, mas no mundo todo. Ashley é uma mulher de negócios de sucesso que tem rompantes de irresponsabilidade, colocando em risco a relação com o marido e a filha. Duc lida com as questões pessoais dos seus pacientes e também com as suas próprias, já que vive em celibato. E Ramon é o mais comum de todos. O fato de ser gay e latino não é causador de nenhum problema (é até de certo orgulho por parte da mãe), mas as recentes alucinações e visões referentes ao número 11:11 o deixarão sob o holofote do escrutínio familiar e fora dele. Mas muito mais do que representantes étnicos ou de gênero, os filhos são na verdade propagandas ambulantes do quão “descolados” os pais são, refletindo o egocentrismo de certas atitudes tomadas atualmente, que visam muito mais a autopromoção do que o real significado do ato.

Here and Now
Here and Now

Se há um protagonista até o momento na série seria Ramon. O ponto de ligação entre as duas metades da narrativa, o personagem é o escolhido por Ball para exemplificar o conceito de sincronicidade. Através dele e de suas relações que tivemos as impressões tiradas nessa première. E as conexões já começaram a aparecer em vista de que o psicólogo escolhido para seu tratamento tem uma relação direta com a mulher persa misteriosa que aparece em suas visões. Estas que servem como pontos de respiro entre as diversas camadas de sátiras sociais e ao mesmo tempo tem o papel de mostrar outro lado presente na trama. Afinal Ramon está nesse fluxo de sincronicidade ou tudo não passa de um problema psicológico com ligações aparentemente repletas de coincidências?

Misturando o místico/fantástico com a disfuncionalidade familiar moderna, Here and Now é um prato cheio para Ball analisar os pormenores da sociedade americana, uma marca registrada de seus trabalhos. Constatações provocativas, humor negro e personagens carismáticos. Esse piloto teve diversos elementos que tornam a série estranhamente atrativa, num misto de sátira com drama, com contornos místicos. Sejam por conexões superiores ou simples fatos do acaso é uma daquelas séries que você deveria dar uma chance. Aqui e agora.

> Minha Série Vs. Sua Série #6 feat. Carol Moreira!

PS 1: “Às vezes eu sinto que existem duas mãos invisíveis agarrando meu coração. Apertando com tanta força, que parece que ele vai parar de bater. Eu quase desejo que ele pare. Mas ele não para. Ele continua batendo… e eu continuo vivendo.” O discurso no aniversário já está entre um dos melhores diálogos em séries que já vi na vida;

PS 2: Confundir o namorado do filho com garçom. Quem nunca?

PS 3: Querem que eu continue com as reviews semanais da série aqui no Série Maníacos?

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
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