Explicar o favoritismo de quinta-feira entre os dias da semana é fácil, mas arrasta muita coisa consigo. A introdução do motivo dialoga com anos atrás, na rotina de escritório, primeiro emprego, quando a sexta-feira, por mais que descanso, por mais que alívio, era sempre conturbada e exigia o máximo de mim. Não que eu queira fazer uma transição para a Literatura da abordagem da realidade diante dos nossos sonhos, presente no filme de Mark Webb, também na ala dos favoritos, mas penso que a expectativa é sempre mais doce — e digo naquele sempre perdido em generalizações, modo-de-dizer, não se chateie. A expectativa tem uma graça de esperança, quase fantástica, e não sei se há algo mais encantador do que o ser que reluz em esperança, nem que seja por um só momento. Quinta-feira, portanto, era expectativa, e, portanto, era mais belo.

Deixo de fora, nessa minha divagação, o que deixou a quinta-feira especial, o que quase resgatou o comum dos dias para um evento especial, ocorrido pontualmente nesse dia. Um seriado. Este tem seu reinado às quintas-feiras já faz certo tempo. Apareceu por aqui pelo SBT, quase pai da carreira de muitos seriemaníacos. Sua jornada foi instável e engraçada, mas fiel às quintas-feiras, pelo menos no primeiro momento. A Cristina tinha uma voz bonita, e era tudo distante, mágico, norte-americano. Em época de pensar a profissão, lá estavam os protagonistas, esbarrando na realidade nada enfeitada da vida de-fora.

O medo dos fãs mais tradicionais está registrado pela internet, assustados com a possibilidade de virar febre por aqui uma produção que já era febre em seu país de origem. Acho que a gente superou essas contradições, não? Depois da terceira temporada, só mesmo na Sony, em época que TV à cabo não tinha quase a obrigação moral de existir, assim como o Wi-fi de hoje em dia. Pelo menos não aqui pelo bairro. Restava o RMVB — mesmo formato de One Tree Hill, que vinha, ainda bem, legendado, afinal, o inglês era muito bonito, mas não tão próximo. Hoje em dia, quando o episódio é chato, eu fico fazendo tradução simultânea na minha mente. Às vezes eu repito as falas também. Coisa de ator talvez; coisa de gente ansiosa, talvez.

Todos os telespectadores de seriados devem ter sua história quase íntima, quase não publicável. A questão não é nem o pudor relacionado às ligações da ficção e do aqui-fora, mas o porquê é que ter segredo é até bom, história bem nossa. Algumas são cômicas. Vou dar um exemplo antiético: um primo meu começou Grey’s Anatomy pela sexta temporada. Foi um erro bem difícil de se explicar, baixou talvez numa quase audição às cegas, será? Enfim, passou as primeiras temporadas bem apaixonado pelo George. Esse meu primo só começou a acompanhar na faculdade, fazendo o caminho contrário de muita gente. Ele se apaixonou pela Yang, paixão tanta que foi adiando assistir à temporada que ela sairia. Nem gostava tanto da Izzie, que eu sempre gostei tanto. Penso na Stevens deitada no chão, mas não só nisso. Penso na Stevens do lado de fora do casamento — e algo deixa essa cena, ou o sentimento dessa cena, bem próximo. Sem contar que o drama é uma paixão minha em diversos sentidos. Não só o texto dramático, não só o gênero de filme, mas o ato, a própria palavra.

Lembro-me também de como fui apresentado a muito artista, e alguns dialogam ainda hoje comigo, por mais que eu já não seja a mesma pessoa que foi apresentada a eles. Tegan and Sara é o exemplo principal. As irmãs faziam parte de um gênero ausente na minha playlist, ainda em formação, e meio que em formação até hoje. Vários álbuns, várias boas composições para se olhar a letra traduzida e pensar um pouco na vida. Dediquei-me a escutá-las quando descobri que certa amiga do curso também ouvia. Ela me dizia, na época, que ouvia os álbuns aos poucos, bem poucos. Sabia, sim, dos vários CDs, mas queria descobrir aos poucos, tirando um laço do presente por mês. Eu, bem alvoroçado, nunca entendi isso. Não fui só com sede ao pote: joguei a água por cima de mim. Achei So Jealous e me distraí com os versos, inventando histórias. Eu disse Fix You Up é a música mais bonita que eu conheço (no que alguém conhece aos quinze), e ela concordou. No atual, encontrei essa menina, cabelos loiros cortados, no ônibus e a gente se desconheceu. Ela ficou de olhos fechados, lá na frente, várias amigas, sorrindo muito, e eu pensando em uma música do Gotye.

Naquela época, Where Does the Good Go? se tornou minha música favorita. Pulo a explicação. Dava para ouvir o dia inteiro, acompanhado por uma vizinha que passava em casa de vez em quando e acompanhava a letra comigo na internet. Nós nos dividíamos para fazer a voz da Tegan e a voz da Sara perto do final. Era essa música, aliás, que tocava quando eu comecei a conversar com um garoto XYZ, sulista, online. Lembro-me de que chovia no dia e essa música tocava no celular. Nós nos conhecemos em um fórum online (vou chamar assim) sobre Grey’s. Era a temporada pós-avião. Comentamos brevemente sobre como a série estava estranha.  Depois, fomos para a vida, tanto nos assuntos quanto nos encontros, combinando algo anos passados. Aqui e lá, ponte SC-SP, viagem de ônibus de primeiras vezes: sozinho, fora do estado, de ônibus. Dizia, o menino, aquela frase I’m-your-person o tempo todo, repetia os monólgos da série, as frases essenciais. Pick me. Enquanto isso, nesse tempo todo, tentando entender para onde vão os bons. Não acho que eu tenha adquirido uma resposta. Há outra pergunta essencial pelos versos: Como você sabe quando deixar pra lá?

Conheci várias séries, busquei refúgio na ficção, elaborei listas, e Grey’s intacta no topo, favoritada, filha das quintas-feiras. Quando se tornou difícil e o amor ficou arriscado, deixei de lado certo tempo. Não só porque Alicia Florrick brigava com Meredith Grey pelo topo. Não só porque o elenco foi diminuindo, assim como o carisma das personagens. Defendo-me: foi uma ação protecional. A vontade é guardar o amor pelo hospital da forma como estava, sem começar a me chatear com ele. Nos momentos de saudade, ir ao YouTube e rever algumas coisas, ver os rankings criados pelos fãs — constantemente esbarro nos que elencam os momentos mais tristes. Cada um com suas chagas.

Tenho isso com Grey’s. Quando a saudade aperta, volto ao começo e vou assistindo em doses diárias, bem aos poucos, propondo-me não apressar a experiência. Revisitar o começo tem a grandiosidade que revisitar o começo poderia ter. Nunca perde nada. Talvez seja o Piloto que eu mais revi na vida. Um episódio por dia, buscando companhia ou arrancar da nostalgia alguma coisa que complemente a semana. Lembra-me a coisa-bem-repetida que eu falo sobre Clarice: que não é de se ler, mas de se reler. Grey’s Anatomy não é série para assistir, mas reassistir.

E a série continua lá, com aquele humor que não se perde, com aqueles conflitos novelescos que nunca se perdem. Independente do hoje, o ontem está lá. Assim como as conversas salvas com o garoto XYZ, as cartas enviadas, as fotos tiradas. Tudo coroado pela dança final de Meredith e Yang, que rompeu algo, mas nada permanente. Quase um susto ver minha música ali, dançada; principalmente porque não há ritmo algum para isso — e olha que eu danço com Radiohead.

Ontem, voltando do teatro, fiquei pensando em uma ideia maluca para uma peça. Fiquei pensando em uma que não tivesse fim. A plateia se formaria, os atores se apresentariam e diriam assim: essa peça não tem fim, cabe a cada pessoa aqui presente decidir o momento de ir embora. Ou seja, quando você sentir que a história se concluiu, pode levantar e fazer o caminho da vida, de ida ou de volta. Talvez alguns ficariam minutos, outros, horas. Os atores continuariam a atuar, investigando novos conflitos, acrescentando elementos e explorando a história.

Pensando nesse argumento, talvez quem perde muito não é quem sai, mas quem fica. A saída propõe conclusão. Grey’s está na minha mente assim, apresentada ao público que ainda a acompanha. Sair ou ficar é opção. A história está sempre por lá, esperando os mais pacientes na atualização da trama, ou esperando os saudosos, nas maratonas infindáveis das primeiras temporadas. Aquela série para se reassistir esticando as pernas, andando pela casa, fechando os olhos em descanso de vez em quando. Alcançou recentemente a marca dos 300 episódios, quase-quase um para cada dia do ano. Uma jornada. Como a vida. Como nós: sobreviventes de tragédias internas e externas, de plantões extensos, da ideia de carreira, das canções que se ouve no escuro.

Sentados, ainda, na plateia, recebemos com carinho os novos fãs, que devoram as temporadas na Netflix e nos mandam mensagens compartilhando as impressões. Daí respondemos com: assim que assistir a esse episódio, me manda uma mensagem. E ouça essa música. Decoramos com fofocas de bastidores, falamos sobre Prive Practice. Tentamos explicar por que a Heigl não pode voltar. Mais espaço na plateia, por favor! Não deixem ninguém de fora. Alguns se sentam nas escadas, outros não se importam com o chão.

E nós ficamos.

E ficamos.

Ontem foi dia de Grey’s Anatomy, pensamos. Mesmo aquele que acaba de descer do ônibus pode vir correndo, amparado na playlist, motivado por saudade: ainda está passando.

——

ps

Retomando o projeto de crônicas aqui no SM, decidi escrever um texto diferente das resenhas que escrevo por aqui e que falasse sobre a relação afetiva e tão íntima que temos com algumas séries, o modo como a relacionamos a pessoas, lugares e momentos. Quase sensitivo. Grey’s, como podem ter percebido pelo texto, foi uma das responsáveis pelo amor por séries em geral.

Você pode ler o texto sobre o episódio que cravou os 300 por aqui. A quem interessar possa: outros textos de minha autoria, não sobre séries, mas também maníacos, podem ser lidos aqui.

Com o espaço aberto para contarmos nossas histórias, dividirmos essa experiência tão coletiva/individual, e não somente fazermos uma retrospectiva (daquelas maravilhosas espalhadas pela internet), fica o convite para que você divida também nos comentários como foi a jornada para ti. Aos que abandonaram, como eu fiz tantas vezes, pode ser também sobre o período que acompanhou. Ou mesmo outras séries. Todas as histórias são bem-vindas.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.