Os progenitores da fúria convergem na reta tinal de Cult.
Tudo é uma questão de legado, vamos deixar isso bem claro. Todos os líderes de cultos que chocaram o mundo eram fracassados sociais em busca de alimento para o ego e que queriam ser lembrados pela humanidade para o todo o sempre. Esses homens encontraram seu “talento”, encontraram sua plateia, encontraram o canal midiático perfeito para que se marcassem na cultura pop do modo mais subvertido possível. Os anos se passam, se passam e seguidores desses sujeitos brotam do nosso quintal de falsas verdades políticas e morais… O perigo do culto nunca vai nos abandonar porque o extremismo sempre vai existir.
A cada semana, a figura de Kai vai sendo descrita por camadas, cada uma delas ligada a uma persona real que liderou um culto. Isso é constantemente confundido com falha de planejando, mas todos os homens reais que Kai visita constituem uma parte importante de sua personalidade distorcida. No começo do episódio vimos o personagem ser humilhado por uma das amigas da irmã e sem seguida, Bebe lhe conduz por um raciocínio que molda seus objetivos dali por diante: o medo e a ira é que realmente movem a sociedade e calculadamente, fazê-la crescer usando a controvérsia é o mesmo que colecionar soldados indiretos para seus objetivos.
Já falei de Charles Manson muitas vezes aqui no site. Conheci sua história por causa da primeira temporada de AHS, quando fui pesquisar sobre os crimes mais famosos de Los Angeles. Escrevi sobre como fiquei obcecado com a história e com os crimes e como isso tinha me feito mal na mesma proporção. Em 1969, Manson conseguiu espalhar o terror pela cidade quando enviou seus seguidores para matar aleatoriamente pessoas dentro de suas próprias casas. Essa espécie de terrorismo urbano afetou toda a população justamente porque o medo da morte que invade sua casa sem motivo é um dos mais assustadores. Manson tinham propósitos estapafúrdios, usava simbologias estúpidas, mas convencia seus seguidores a matar em nome dele.
Pigs
A decisão de recriar o crime na mansão de Cielo Drive foi animadora. Nunca fizeram nenhuma produção realmente boa sobre o assunto. Mas, embora Ryan tenha acertado na escalação dos que viveriam os criminosos, a edição corrida truncou os eventos. Algumas licenças poéticas, erros de figurino, a ausência do cenário da mansão em detalhes e que fazem diferença no que os crimes têm de marcantes. Paulson vivendo a loucura de Susan Atkins foi muito acertado, mas Billie fazendo Linda Kasabian foi mais uma prova de que ela não tem nenhuma versatilidade. As sequências são sempre intensas de se ver, mas por alguma razão, achei que a série não lhe fez jus, preservando certos choques visuais que ela não costuma preservar.

Na foto acima, as mulheres que mataram com dezenas de facadas pessoas completamente estranhas, andam pelos corredores do tribunal sorrindo e cantando. Por muito tempo, a lavagem cerebral promovida por Charles resistiu e predominou. As mulheres continuavam dizendo que mataram por um propósito, que mataram por amor e foram elas, elas que promoveram o nome de Manson. Elas, que ele sempre desprezava. Não há nenhuma incoerência nas atitudes de Kai ou dos que estão lhe seguindo. Os crimes de Manson são a grande prova de que não há limites para o alcance da sugestão e da submissão.
Kai usa as “regras de Manson” para convencer os seus de que uma revolução apocalíptica precisa ser iniciada pelo sangue. Com o Helter Skelter não deu certo porque – segundo Kai – ele foi traído (Linda Kasabian mais tarde testemunhou em troca de imunidade) e foram elas, as mulheres, quem também provocaram a aproximação da polícia, que por meses não tivera a menor pista dos assassinos. A tal guerra racial nunca chegou nem perto de acontecer, mas esse é apenas um detalhe para os que compartilham das argumentações cheias de torpor que conduzem o raciocínio de um monstro como Manson. Espertamente, Murphy providenciou para que esses eventos de 1969 se refletissem na trama agora.
O resultado não foi bem-sucedido no todo. As aparições de Manson se deslocaram na edição e o texto, embora inteligente, não conseguiu se condensar com clareza. Sabemos que AHS é uma série em que os personagens podem ter pouquíssimo tempo de vida, mesmo que só tenham sido vistos em uma cena. As mortes de Bebe e Winter são a síntese disso e ambas são fruto do estágio absoluto de personalidade maníaca de Kai. Os seguidores ficam pelo caminho e cada um desses estágios vividos pelo protagonista estão totalmente pautados na realidade. Começa com uma utopia e termina em vísceras. E desse jeito é que chegaremos até a finale.
> Minha Série Vs. Sua Série #4 feat Natalia Kreuser
American Horror Story Cult não se organiza sempre da maneira mais eficiente, mas ela tem um tratado de profunda compreensão com as engrenagens sociais vigentes. Nenhuma outra produção vasculhou tanto as ignorâncias interpessoais e exercitou a ideia de que a monstruosidade contada em ficção pela nossa arte não é páreo para a realidade.
Murphy’s Cult: Se quiserem saber mais sobre os crimes de Manson, clique aqui.
Murphy’s Cult 2: Dias depois da morte da esposa, Roman Polanski voltou até a casa e aceitou tirar uma foto em frente à porta que tinha a palavra PIG escrita com o sangue da esposa.

Murphy’s Cult 3: Assim como em Asylum e Coven, Sarah Paulson a personagem de Sarah é que deve redimir-se e vingar-se na finale.






















