Me lembro, quando criança, de ter tido medo de muita coisa. Dos clichês, todos: luzes ligadas noite adentro, portas trancadas com duas voltas na fechadura, e filmes de horror, raros, só à tarde, quando o sol ainda gerava reflexos na televisão de tubo e as imagens obscuras perdiam força. Um destes poucos filmes foi It, o longa/minisérie feito para televisão, com o Pennywise de Tim Curry e dirigido por Tommy Lee Wallace, colaborador de longa data do gênio absoluto John Carpenter (entre outros, montou Halloween e The Fog, e dirigiu o subestimado Halloween III). A cena de abertura – que acompanha uma garotinha chegando em casa pilotando um pequeno triciculo, e que apresenta o palhaço dançarino sorrindo por entre os lençóis brancos pendurados no varal do quintal – está impressa na minha mente desde aquela primeira sessão, plano a plano. Também claramente, me recordo das aulas do colégio no laboratório de informática, onde eu aglomerava um pequeno grupo de amigos e reproduzia a cena com a ajuda de um ainda jurássico YouTube. Nos assustávamos e imediatamente ríamos. Susto e riso.
Em 2017, não à toa 27 anos depois, é Andy Muschietti o responsável pelo pseudo-remake (a versão de 1990 nunca foi lançada nos cinemas). A premissa é idêntica, fiel à obra de Stephen King na qual o filme é baseado. Um grupo de amigos, autoproclamados Loser’s Club, prometem enfrentar a criatura que aterroriza a pequena cidade de Derry a cada 27 anos, e é neste grupo que It acerta em cheio. O elenco inclui Jaeden Lieberher (The Book Of Henry), Finn Wolfhard (Stranger Things), a ótima Sophia Lillis e um excelente Jack Dylan Grazer (Tales of Halloween). A dinâmica entre o grupo é o ponto forte do filme, sincera, e, embora apele consideravelmente para os esteriótipos dos coming-of-age oitentistas (além, é claro, dos irresistíveis pôsteres de Goonies lá e de New Kids On The Block cá), nunca cai no poço sem fundo do saudosismo barato ou numa artificialização de personagens, tão frequentes nessa era das repetições hollywoodianas. É um dos aspectos, inclusive, menos memoráveis da versão dos anos 90, e um eterno desafio do cinema de horror. O mérito aqui é em grande parte de Stephen King, mas o trabalho de adaptação dos roteiristas e elenco é de igual importância e imprescindível para que as duas horas e meia de filme passem sem grandes entraves.

Mais do que uma aura de terror, portanto, It preza pelo espírito aventureiro da infância, com resultados majoritariamente positivos, mas para detrimento de aspectos importantes. O Loser’s Club evoca a jornada dos garotos de Stand By Me ou o segredo compartilhado pelas crianças de ET. Mais do que a entidade misteriosa em si, o grande vilão do filme é à priori simbólico, trata-se do futuro inevitável, do fim da infância. São os adultos, pais e mães, os principais obstáculos – seja a mãe superprotetora de Eddie ou o pai abusador de Beverly, e a “coisa” frequentemente toma a forma destes fantasmas.
É no tratamento dessa simbologia que It cambaleia um pouco, caindo num certo didatismo, outra armadilha frequente dos blockbusters contemporâneos. Muito do que poderia ser deixado numa esfera abstrata, imagética, é limitado por diálogos expositivos, autoritários, e isso é um problema ainda mais enfático aqui, já que a abstração é um mote de irracionalidade tanto do medo quanto da infância. Já ao fim do longa, pouco antes do confronto final, o grupo se depera com as crinaças desaparecidas, flutuando no esgoto. A câmera nos mostra o que é visto: são crianças, várias, flutuam. Mas o roteiro nos subestima. É necessário que alguém nos informe: “Olhe! São as crianças desaparecidas! Estão flutuando!”. E quando chega o momento de tratar de temas carentes de afirmações certeiras – como a questão do racismo em relação ao personagem de Mike, que fica confortável em um preguiçoso subtexto, ou mesmo quanto ao abuso sexual e psicológico sofrido por Beverly -, o filme contenta-se com a sugestão, não fornecendo nem o simbólico e nem a concretude. Não há nem a desculpa de perda de público, já que o filme é R-Rated (censura 18 anos no Brasil), portanto suscetível a maiores riscos de direção e roteiro, como prova a violenta cena de apresentação de Pennywise, que arranca explicitamente um dos braços de um menino de 8 ou 9 anos já nos primeiros minutos de filme.
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Mas talvez o maior “defeito” de It, e aqui entra uma carga forte de subjetividade, seja a falta de imagens potentes e inescapáveis como a que descrevi no primeiro parágrafo deste texto, e que não se trata da única na versão de 1990. O lado cômico de Pennywise é bastante minimizado aqui, ficando a parcela humorística do filme, que não é pequena, quase restrita ao elenco mirim. A falta deste paradoxo, o do susto e o do riso, gera momentos bastante impressionantes tecnicamente, competentemente dirigidos e trazidos à vida por Bill Skarsgård, mas que não escapam de uma sensação de familiaridade incômoda. Nada de aterrorizante em It transcende o imediato, os jump-scares, nada perdura e persiste assombrando ao fim dos créditos. Trata-se, ao fim, de como encarar o filme. Como um estudo do inconsciente, uma exploração dos horrores pessoais e transmissão desses horrores na tela, It deixa um pouco a desejar; como um conto aventuresco, uma história de amizades e amores da infância, é perfeitamente honesto, e honestidade sempre basta.















