Mr. Mercedes já se apresenta como uma adaptação bastante sólida das obras de Stephen King. Quem é fã do autor sabe como é difícil achar uma adaptação decente. E o maior problema não é nem a falta de fidelidade ao material original, mas sim as desnecessárias deturpações que elas apresentam (problema que vem se repetindo desde O Iluminado, de Stanley Kubrick). Deste modo, só por não pegar a história e bagunçá-la toda em nome de uma “surpresa para aqueles que já leram o livro” já é um ótimo acerto.

Mas não é só por manter a fidelidade que a série pode ser considerada boa. O argumento de que ela deve funcionar independentemente do livro de origem é válido, afinal, ela tem que agradar por aquilo que ela é: um produto audiovisual que independe do meio ao qual a história se originou. E isso a série também faz muito bem. Cloudy, With a Chance of Mayhem acerta em praticamente tudo aquilo que se propõe a fazer. O roteiro de A.M. Homes e David Kelley consegue desenvolver um pouco mais cada um dos personagens, começando a apresentar inclusive o background de Brady, o que é decisivo para nos importarmos com o principal antagonista da série. Jerome, apesar de mais secundário, também começa a ganhar algum desenvolvimento, além, claro do próprio Bill.

Outro aspecto interessante é o antagonismo entre Bill e seu ex-parceiro Pete. Os dois querem a mesma coisa, mas buscam caminhos diferentes para chegar ao resultado. É muito fácil o público julgar o policial que ainda está na ativa como alguém fazendo pouco caso, mas um dos subtextos desta trama é como a polícia pode ficar sobrecarregada com os diversos casos em aberto. E vamos combinar, o comportamento autodestrutivo de Bill também não ajuda muito para melhorar a visão de quem está de fora.

Mr. Mercedes 1x03: Cloudy, With a Chance of Mayhem
Mr. Mercedes 1×03: Cloudy, With a Chance of Mayhem

Além disso, esse episódio melhora bastante também no ritmo de desenvolvimento dos acontecimentos. Diferente dos episódios anteriores, que nos traz uma sensação de que eles são arrastados, e que haviam cenas que visivelmente poderiam ser cortadas que não fariam diferença, aqui todas elas estão bem amarradas e ajudam de fato a desenvolver histórias e personagens. As edições são bem-feitas, assim como a direção de modo geral, também contribuindo para a boa fluência do episódio. Aliás, uma boa sacada foi a rima que é feita no início do capítulo. Ele começa quase que idêntico ao episódio passado, tocando até a mesma música na trilha sonora. Mais do que isso, até os ângulos utilizados são parecidos. Repito que é importante reforçar esse caráter rotineiro e depressivo, para preparar o público para o ponto de virada do personagem.

Para não dizer que tudo são flores, há ainda algum probleminha pontual de desenvolvimento de relação entre alguns personagens. O principal aqui é a relação entre Bill e Janey, que está rapidamente galgando a um relacionamento amoroso, e isso sem nenhuma sutileza. Não vou ficar dando spoilers do livro, mas para quem leu sabe a importância da personagem e desse relacionamento na vida do protagonista, mas isso deve ser trabalhado mais minuciosamente, e não colocando os carros na frente dos bois. Apenas duas ou três reuniões de negócios ainda não é o suficiente para fazer o espectador acreditar que haja algum sentimento a mais nessa relação.

> DEFENSORES VALE A PENA? (sem spoilers) | SM Play #65

Cloudy, With a Chance of Mayhem apresenta uma visível melhora em relação ao episódio passado, principalmente no ritmo de desenvolvimento da trama e de seus principais personagens. Tomara que a série se mantenha mais nessa pegada do que naquele espírito mais contemplativo dos dois antecessores. Ainda assim, ela já se mostra uma das melhores adaptações de King para a TV, principalmente quando falamos de transposições recentes.

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anteriorThe Last Ship 4×01/02: In Medias Res/The Pillars of Hercules [Season Premiere]
Próximo artigoBig Brother US 19×25-28: Week 08
mr-mercedes-1x03-cloudy-with-chance-of-mayhemO episódio apresenta uma visível melhora em relação aos anteriores, principalmente no que se refere ao ritmo e desenvolvimento de personagens.